Estudo transforma compostos naturais em aliados contra a mosca-dos-chifres

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Combinar compostos encontrados na natureza com nanotecnologia para desenvolver uma alternativa mais sustentável e eficaz no controle de moscas que afetam a pecuária. Essa é a proposta do Nanofly, produto tecnológico desenvolvido pela MTD Soluções Naturais, deeptech formada a partir de pesquisas realizadas na UFMS de Paranaíba.

O impacto desse tipo de praga pode ser medido também na balança. Estudo publicado em 2024 pela Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande, mostrou que bovinos Nelore continuamente tratados contra a mosca-dos-chifres ganharam 20,8 quilos a mais, entre o desmame e a idade de abate, do que animais que não receberam tratamento.

É para enfrentar problemas como esse que a MTD busca transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis ao setor produtivo. A equipe é formada pelo professor do curso de Medicina Veterinária Dyego Gonçalves Lino Borges, pelos técnicos de laboratório do curso Marco Aurelio de Lara e Tamiris Aparecida dos Santos Silva e pela estudante Tainara Costa da Silva. O grupo busca transformar conhecimentos produzidos na Universidade em soluções capazes de responder a problemas concretos da sociedade.

“A MTD surge a partir de uma visão minha, do Dyego e da nossa sócia Tamiris, a partir de uma inquietude: produzir ciência que atenda à sociedade”, conta Marco Aurelio.

A proposta começou a tomar forma a partir de pesquisas anteriores desenvolvidas por Dyego. Segundo Marco, a equipe passou a buscar aplicações para o conhecimento que já vinha sendo produzido, direcionando os estudos para tornar os processos de controle de ectoparasitos mais sustentáveis e eficazes.

O trabalho levou o Nanofly ao sexto lugar no Desafio Pantanal Tech de Inovação 2026, primeira premiação conquistada pela equipe. “Para nós, é uma marca muito importante. Somos a primeira deeptech de Paranaíba e estamos figurando entre as melhores do Estado. Estamos muito felizes com esse reconhecimento e esperamos crescer muito mais nos próximos anos”, comemora.

Natureza potencializada pela nanotecnologia

Estudo transforma compostos naturais em aliados contra a mosca-dos-chifres

O Nanofly parte do desenvolvimento de produtos nanotecnológicos obtidos a partir de insumos biológicos. O próprio nome, explica Marco, faz referência à proposta e ao tipo de praga que motivou os estudos, a mosca-dos-chifres.

O diferencial da solução está justamente na utilização da nanotecnologia para tentar superar uma das limitações enfrentadas pelos produtos biológicos no campo: o período durante o qual permanecem disponíveis e ativos nas condições reais de utilização.

“Os produtos biológicos, de modo geral, ainda sofrem com a descrença de alguns produtores, não pela baixa eficácia, mas pelo tempo disponível a campo. A nanotecnologia vem suprir essa demanda, aumentando a eficácia e trazendo maior segurança ao meio ambiente, aos animais e às pessoas, uma vez que a origem dos nossos produtos é a natureza”, destaca Marco.

Na prática, a nanotecnologia permite proteger os compostos químicos presentes nos óleos utilizados pela equipe, buscando prolongar sua permanência no campo e, consequentemente, o período de exposição das moscas à solução.

“É o nosso diferencial. Ela permite uma proteção aos compostos químicos presentes nos óleos, garantindo maior tempo a campo e maior exposição às moscas. Com isso, nosso produto permitirá uma redução da aplicação de químicos sintéticos no meio ambiente, com maior eficácia e menor exposição dos aplicadores”, acrescenta.

Testes in vitro apontam 95% de eficácia

Os resultados obtidos até agora reforçam o potencial da solução. Nos testes realizados in vitro, o produto alcançou 95% de eficácia no controle das moscas.

“Nossos testes in vitro demonstraram 95% de eficácia. Com isso, temos um produto potencial para o controle das moscas. Agora, com a nanotecnologia, buscaremos garantir que esse produto se mantenha por mais tempo a campo, reduzindo gastos e aumentando a produtividade”, afirma Marco Aurélio.

Estudo transforma compostos naturais em aliados contra a mosca-dos-chifres

Para chegar à formulação, a equipe trabalha também no isolamento dos compostos majoritários considerados mais eficazes. A estratégia é associá-los a tecnologias já conhecidas e utilizadas por outros setores, especialmente o farmacêutico.

A disponibilidade comercial dos óleos e o baixo custo da nanotecnologia empregada são fatores que, na avaliação da equipe, podem favorecer a viabilidade da solução.

“Não estamos inventando a roda, mas unindo o que cada setor tem de melhor, buscando a eficiência do produto”, resume o técnico da UFMS de Paranaíba.

O desenvolvimento envolve atividades tanto em laboratório quanto em campo. Segundo Marco, o comprometimento da equipe nessas duas frentes tem contribuído para a execução das etapas de pesquisa e validação. Entre os principais desafios estão os deslocamentos e a necessidade de estabelecer parcerias com propriedades rurais para a coleta das moscas utilizadas nos estudos.

Menos dependência de inseticidas sintéticos

A escolha de insumos de origem natural também está relacionada à busca por alternativas aos produtos químicos sintéticos utilizados no controle de pragas. Na avaliação da equipe, o crescimento do mercado de bioinseticidas demonstra uma preocupação crescente com os impactos desses produtos e amplia o espaço para novas estratégias de controle.

“O mercado de bioinseticidas tem crescido muito nos últimos anos. Isso demonstra uma preocupação do mercado internacional com os malefícios que os químicos sintéticos trazem às pessoas. Novas estratégias e produtos precisam ser comercializados para a garantia de um selo verde”, avalia Marco.

Para os produtores, a expectativa é reduzir a dependência de aplicações químicas e a pressão de seleção por resistência, além de diminuir a frequência e os custos relacionados ao controle. Para os animais, a equipe aponta como benefício esperado a redução da pressão de infestação e, consequentemente, menor ocorrência de surtos nos sistemas pecuários.

Do ponto de vista ambiental, a proposta é diminuir a dependência de inseticidas sintéticos e, potencialmente, a exposição de organismos que não são alvo do controle.

A tecnologia poderá beneficiar principalmente produtores de gado de corte e de leite, além de cooperativas, aproximando uma solução desenvolvida a partir da pesquisa científica das necessidades da produção pecuária.

Estudo transforma compostos naturais em aliados contra a mosca-dos-chifres

Da pesquisa ao mercado

O Nanofly ainda precisa percorrer novas etapas antes de chegar ao mercado. Entre os próximos passos estão a validação da nanotecnologia em campo, os registros de patente e a construção de parcerias que possibilitem ampliar a validação do produto.

A estratégia da MTD Soluções Naturais é avançar também na aproximação com empresas capazes de levar a solução ao mercado. “O objetivo é o licenciamento da marca para viabilização no mercado junto às grandes empresas. Para isso, a validação a campo da nanotecnologia, bem como os registros de patente e parcerias para validação, são os próximos passos para inserção de fato do produto”, explica Marco.

A composição multidisciplinar e o propósito compartilhado entre os integrantes são apontados como fatores importantes nesse processo. Segundo Marco, os conhecimentos foram se complementando naturalmente durante o desenvolvimento da solução.

“Nossa equipe sempre esteve conectada no mesmo propósito, naturalmente as peças foram se encaixando. Todos têm as mesmas expectativas para o desenvolvimento final dos produtos e nossos estudantes têm perfil inovador e empreendedor.”

Pesquisa voltada às demandas da sociedade

A trajetória da MTD Soluções Naturais também está diretamente relacionada ao ambiente construído na UFMS de Paranaíba. Para a equipe, o estímulo à inovação e ao empreendedorismo contribuiu para uma mudança na própria forma de enxergar a atividade científica.

“Os pilares de inovação e empreendedorismo foram fundamentais para a estruturação da nossa mudança de visão enquanto pesquisadores. A UFMS vai além das estruturas físicas. A conexão com outros atores permitiu que essa pesquisa fosse premiada e nos colocasse em uma janela para o mundo”, destaca Marco.

A equipe também destaca as contribuições recebidas durante o desenvolvimento do projeto, desde o suporte às pesquisas em nanotecnologia conduzidas no Laboratório de Produtos Naturais e Espectrometria de Massas pelo professor Carlos Alexandre Carollo até o apoio estrutural e logístico da UFMS. O grupo também participou de iniciativas promovidas com a atuação de instituições como o Sebrae e a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, voltadas à aproximação entre pesquisa científica, inovação e empreendedorismo.

A participação em iniciativas de inovação também vem ajudando a equipe a desenvolver competências que ultrapassam a pesquisa propriamente dita. Antes do Desafio Pantanal Tech, o grupo já havia participado de outros editais, acumulando experiências sobre como estruturar e apresentar uma solução tecnológica.

“É a nossa primeira premiação, mas nos ensinou a importância de estruturar bem as pesquisas e saber apresentá-las. Com isso, estamos buscando melhorar a cada dia e replicando esse aprendizado aos nossos estudantes.”

Para Marco e a equipe, esse movimento faz parte de uma concepção de pesquisa que busca aproximar cada vez mais o conhecimento produzido dentro da Universidade das necessidades da população.

“Hoje, não conseguimos imaginar pesquisas que não sejam aplicadas à sociedade. É importante que a nova geração entenda essa importância. A Universidade está para servir à sociedade e resolver os problemas dela. Nisso, os processos de inovação e empreendedorismo acontecem naturalmente, aumentando a competitividade e trazendo mais qualidade de vida às pessoas.”