Último confronto na TV Globo antes da votação deste domingo (25) abordou economia, endividamento, saúde, educação, segurança pública e infraestrutura
A dois dias da decisão nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) protagonizaram um debate marcado por ataques pessoais, acusações mútuas e promessas para diferentes áreas do governo. O encontro, exibido pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), foi o último confronto entre os candidatos à Presidência antes do segundo turno deste domingo (25).
Ao longo dos quatro blocos, os dois adversários discutiram temas como salário mínimo, aposentadorias, dívida das famílias, investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), educação, saneamento básico, exportações e combate ao crime organizado. Em vários momentos, as propostas ficaram em segundo plano diante das críticas às gestões e às trajetórias políticas dos candidatos.
O debate foi apresentado diretamente dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, com mediação do jornalista César Tralli. A transmissão também foi feita pelo g1 e pela GloboNews.
Economia e endividamento dominam confronto
A situação financeira dos brasileiros esteve entre os principais pontos de divergência. Flávio Bolsonaro responsabilizou o governo Lula pelos juros elevados e pelo aumento do endividamento das famílias. O senador afirmou que, se eleito, pretende comprar dívidas de consumidores por meio da Caixa Econômica Federal e permitir a suspensão temporária dos pagamentos após o refinanciamento.
Lula contestou as críticas e citou iniciativas de renegociação de débitos adotadas por sua gestão. O presidente afirmou que pretende ampliar as medidas para permitir que consumidores negociem suas dívidas com descontos e voltem a ter condições de consumir.
Os dois também trocaram acusações sobre gastos públicos e política econômica. Flávio defendeu a autonomia do Banco Central e disse que pretende reduzir despesas com corrupção e burocracia. Lula argumentou que o crescimento econômico e a geração de empregos são importantes para melhorar a renda e reduzir o peso das dívidas.
O salário mínimo também entrou na discussão. Flávio prometeu reajustes acima da inflação, inclusive para aposentadorias. Lula, por sua vez, defendeu a política de valorização adotada nos governos do PT e atribuiu a ela ganhos reais para os trabalhadores.
Infraestrutura e agronegócio
No primeiro bloco, os candidatos discutiram obras públicas, exportações e investimentos nas diferentes regiões do país. Flávio citou levantamentos sobre obras paralisadas e prometeu ampliar a malha ferroviária, além de concluir projetos considerados importantes para o escoamento da produção agrícola.
Lula rebateu as críticas e afirmou que seu governo retomou obras interrompidas e ampliou os investimentos em infraestrutura. Entre os projetos citados pelo presidente estavam as ferrovias Transnordestina, Fiol e Fico, além de intervenções rodoviárias.
A discussão sobre o Centro-Oeste foi marcada pelo agronegócio. Lula afirmou que o Brasil ampliou as exportações e abriu novos mercados internacionais. Flávio, por outro lado, disse que produtores rurais enfrentam dificuldades para conseguir financiamentos e criticou os juros e a burocracia para contratar crédito.
O senador prometeu garantir recursos para o seguro rural e o Plano Safra, com proteção contra o contingenciamento dessas verbas. Lula defendeu os resultados de sua gestão no comércio exterior e criticou a postura do adversário diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Saúde, educação e políticas sociais
As propostas para o SUS também provocaram divergências. Lula questionou como Flávio pretende ampliar os investimentos na saúde caso promova cortes de gastos. O senador criticou as filas para consultas e cirurgias, além da falta de medicamentos em unidades básicas, e afirmou que os cortes seriam direcionados a desperdícios, corrupção e burocracia.
Depois das cobranças do presidente, Flávio declarou que manterá os investimentos no SUS se for eleito. Lula, por sua vez, defendeu a atuação do sistema público de saúde e voltou a criticar a condução da pandemia de Covid-19 durante o governo de Jair Bolsonaro.
Na educação, Lula prometeu ampliar o ensino em tempo integral e universalizar o programa Pé-de-Meia, que oferece incentivo financeiro a estudantes do ensino médio. Flávio acusou o governo de reduzir recursos para a modalidade e afirmou que pretende manter o programa, além de investir em tecnologia, cursos e parcerias entre escolas públicas e privadas.
As políticas para mulheres e famílias de baixa renda também entraram na discussão. Lula questionou o voto de Flávio, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, contra uma proposta de ampliação da licença-maternidade. O senador reconheceu que, na época, considerava que a medida poderia dificultar a contratação de mulheres e afirmou que hoje pensa de forma diferente.
O presidente também criticou declarações anteriores de Flávio sobre o Bolsa Família.
Segurança pública vira palco de ataques
O combate ao crime organizado foi um dos momentos mais tensos do encontro. Flávio defendeu o endurecimento de penas, a redução da maioridade penal e a classificação de facções criminosas e milícias como organizações narcoterroristas. Também prometeu ampliar o rigor contra crimes como furto de celulares e delitos sexuais.
Lula criticou a atuação política do senador no Rio de Janeiro e questionou sua relação com pessoas ligadas a grupos investigados. O presidente também citou o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um disparo de fuzil, e mencionou que Flávio atuou como advogado do policial acusado pelo crime. O processo ainda não havia resultado em julgamento definitivo, conforme o relato do debate.
Flávio afirmou que pretende ajudar a família a esclarecer o caso e disse acreditar que o policial não foi o autor do disparo. Também acusou o governo federal de não enfrentar adequadamente o avanço das facções criminosas.
Lula defendeu o fortalecimento da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, além da aprovação de medidas para ampliar a integração entre os órgãos de segurança.
Troca de ofensas e acusações pessoais
As críticas pessoais atravessaram diferentes momentos do debate. Flávio chamou Lula de “nove dedos” ao criticar a política econômica e o salário mínimo. O presidente reagiu, lembrou que perdeu um dedo em um acidente de trabalho quando era jovem e chamou o adversário de “miliciano”.
Os dois também trocaram acusações sobre relações com empresários e supostas irregularidades. Lula questionou a ligação de Flávio com o advogado Willer Tomaz e levantou dúvidas sobre uma disputa envolvendo uma ilha em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, adquirida pelo jogador Richarlison. O senador negou irregularidades e afirmou que o caso já havia sido analisado pela Justiça.
Outro assunto foi o empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, e o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Lula acusou Flávio de ter ligações com o empresário. O senador negou parceria e afirmou que o investimento foi feito em uma produção privada, sem recursos públicos ou da Lei Rouanet.
As acusações apresentadas pelos candidatos durante o confronto não devem ser tratadas automaticamente como fatos comprovados. O g1 realizou checagens das declarações por meio do projeto Fato ou Fake.
Apelos finais aos eleitores
Nas considerações finais, Lula pediu votos e afirmou que a eleição deste domingo será decisiva para o futuro do país. O presidente destacou sua trajetória de vida e defendeu a continuidade de seu governo, além de alertar para o que considera riscos à democracia.
Flávio pediu apoio dos eleitores e prometeu recuperar o poder de compra da população, defender a liberdade e reforçar a segurança pública. O senador também questionou se a vida dos brasileiros melhorou nos últimos quatro anos e pediu votos para sua candidatura.
A votação do segundo turno está marcada para domingo (25), quando os eleitores escolherão entre Lula e Flávio Bolsonaro para a Presidência da República.





















