Projeção nacional estima cerca de 860 mil casos da doença no próximo ano e alerta para possíveis efeitos de um super El Niño. Estado também aparece entre os que podem registrar aumento de chikungunya
Mato Grosso do Sul está entre os seis estados brasileiros com tendência de aumento nos casos de dengue em 2027, segundo projeções apresentadas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na sexta-feira (6). O cenário preocupa principalmente pela possibilidade de um super El Niño durante o verão, fenômeno climático que pode alterar os padrões de chuva e temperatura e favorecer a proliferação do mosquito transmissor da doença.
A estimativa nacional é de aproximadamente 860 mil casos prováveis de dengue no próximo ano. O número foi calculado a partir da combinação de 22 modelos desenvolvidos por mais de 130 pesquisadores de oito países. Apesar da previsão, os especialistas ressaltam que ainda há incertezas sobre a influência do fenômeno climático na quantidade de infecções.
Além de Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Sergipe, Acre e Minas Gerais também apresentam tendência de crescimento em relação à temporada anterior. Para os demais estados, a expectativa é de um cenário próximo ou abaixo do registrado no período passado.
El Niño pode influenciar a transmissão
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno interfere na circulação atmosférica e pode provocar mudanças no regime de chuvas e nas temperaturas em diferentes regiões do Brasil.
O calor e a umidade podem criar condições favoráveis à reprodução do Aedes aegypti, mosquito responsável pela transmissão da dengue, da zika e da chikungunya. No entanto, a relação entre o fenômeno climático e o número de casos não é direta: também depende das condições locais, da circulação dos vírus, da população suscetível e das medidas de prevenção.
Na elaboração das projeções para 2027, três modelos consideraram variáveis climáticas relacionadas ao El Niño. Os resultados, porém, foram diferentes entre si. Enquanto alguns indicaram aumento mais expressivo em determinadas regiões, outros apontaram efeitos menores.
No Sul do país, as simulações que levam em conta o fenômeno indicaram de maneira mais consistente a possibilidade de uma temporada de dengue mais intensa. Nas demais regiões, os resultados foram menos conclusivos.
Por isso, os pesquisadores recomendam que o El Niño seja considerado um sinal de alerta para o planejamento dos serviços de saúde, mas não utilizado isoladamente para calcular o número de casos que o país terá.
Brasil pode ter pico de casos em abril
A projeção conjunta dos pesquisadores aponta cerca de 860 mil casos prováveis de dengue em 2027. A estimativa tem uma margem ampla de incerteza: há 80% de probabilidade de o total ficar entre 560 mil e 1,6 milhão de ocorrências.
O período de maior transmissão deve ocorrer em abril, quando a previsão indica aproximadamente 40 mil casos em uma única semana.
O cenário não aponta para uma epidemia semelhante à registrada em 2024, quando o Brasil enfrentou uma alta histórica da doença. Isso, entretanto, não significa que o próximo ano será de baixo risco.
A pesquisadora da Fiocruz e coordenadora do InfoDengue, Claudia Codeço, destacou a importância de antecipar as ações de prevenção e preparar a rede de atendimento. Segundo ela, a projeção indica que a dengue continuará exigindo atenção das autoridades de saúde.
Chikungunya também preocupa em Mato Grosso do Sul
O levantamento apresentado pela Fiocruz também trouxe, pela primeira vez, uma projeção nacional para a chikungunya, outra doença transmitida pelo Aedes aegypti.
A estimativa aponta mais de 90 mil casos prováveis no Brasil em 2027. A tendência de aumento aparece principalmente em estados do Nordeste, nos três estados da Região Sul, em São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
No Centro-Oeste, o cenário chama atenção para os dois estados vizinhos. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul estão entre as áreas com possibilidade de crescimento das notificações da doença.
A chikungunya pode provocar febre e dores intensas nas articulações, que em alguns casos persistem por meses. Assim como ocorre com a dengue, a eliminação de criadouros do mosquito é uma das principais formas de reduzir a transmissão.
Prevenção começa dentro de casa
Mesmo com as projeções para o próximo ano, os especialistas reforçam que as medidas de prevenção precisam ser mantidas durante todo o ano. A principal orientação é evitar o acúmulo de água parada, ambiente utilizado pelo mosquito para depositar ovos e se reproduzir.
Entre os cuidados estão verificar caixas-d’água, calhas, vasos de plantas, pneus, garrafas e recipientes deixados em quintais e terrenos. Também é importante manter os reservatórios fechados e descartar corretamente objetos que possam acumular água.
A recomendação é procurar atendimento de saúde diante de sintomas como febre, dores no corpo e nas articulações ou manchas na pele. A vigilância epidemiológica e a preparação dos serviços de saúde também são consideradas fundamentais para reduzir os impactos de uma possível alta das doenças em 2027.












