História dos antigos locais de sepultamento revela como a expansão urbana levou à criação dos cemitérios Santo Antônio, Santo Amaro e Cruzeiro
A Praça Ary Coelho, hoje um dos pontos mais movimentados do Centro de Campo Grande, já teve uma função bem diferente: foi o primeiro cemitério do antigo Arraial de Santo Antônio. A história do espaço, que passou a integrar o traçado urbano no início do século XX, ajuda a entender como a cidade precisou reorganizar seus locais de sepultamento à medida que a população crescia.
A trajetória desse espaço se confunde com a própria formação da cidade. Com o crescimento do povoado, os sepultamentos precisaram ser transferidos para áreas mais afastadas, em um processo que levou à criação dos cemitérios Santo Antônio, Santo Amaro e Cruzeiro, que passaram a atender à população em diferentes períodos da expansão urbana.
Além de receber sepultamentos, os três cemitérios municipais preservam parte da memória de Campo Grande. Túmulos, fotografias, esculturas, inscrições e monumentos ajudam a contar histórias de famílias e de personalidades que participaram da construção da Capital.
“Preservar os cemitérios públicos de Campo Grande é valorizar a memória e a história da nossa cidade. Esses espaços guardam lembranças de gerações que contribuíram para a construção da nossa Capital e representam lugares de respeito às famílias e à memória de cada pessoa”, destaca o secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos, André de Moura Brandão.
Da Praça Ary Coelho ao Cemitério Santo Antônio
A história dos sepultamentos em Campo Grande começou junto com a formação do povoado, por volta de 1872. Na época, o local onde hoje está a Praça Ary Coelho abrigava o primeiro campo-santo da comunidade, instalado nas proximidades da igreja, como era costume naquele período.
Com o aumento da população, a área deixou de ser considerada adequada para receber novos sepultamentos. Em 1887, o cemitério foi transferido para o bairro Amambaí, em um terreno onde atualmente funcionam a Casa da Indústria e o SESI.
A mudança, no entanto, não foi definitiva. Entre 1913 e 1914, os sepultamentos foram novamente transferidos, desta vez para a região da antiga Fazenda Bandeira, onde funciona o atual Cemitério Santo Antônio, na Avenida da Consolação. A área foi doada por Amando de Oliveira, figura ligada à história local.
A trajetória do antigo cemitério e suas duas transferências foram analisadas em estudo publicado em 2017 na revista Albuquerque, da área de História. O trabalho aponta que a localização dos espaços funerários acompanhou as mudanças na ocupação urbana e as preocupações da época com a organização e a expansão da cidade.
Enquanto isso, a antiga área de sepultamentos no Centro passou por uma transformação. Em 1909, com o novo traçado urbano elaborado pelo engenheiro Nilo Javari Barém, o espaço foi incorporado ao planejamento da cidade como praça pública.
Inicialmente chamada de Praça 2 de Novembro, recebeu outras denominações ao longo das décadas, como Praça Municipal, Praça da Independência e Praça da Liberdade. Em 1954, passou a se chamar Praça Ary Coelho, em homenagem ao ex-prefeito assassinado em Cuiabá, em 1952.
Assim, um lugar que já foi destinado às despedidas se tornou um dos principais pontos de encontro e circulação de moradores no Centro da Capital.
Crescimento da cidade levou à criação de novos cemitérios
A expansão de Campo Grande durante o século XX também aumentou a necessidade de espaços para sepultamentos. O Cemitério Santo Antônio, que por décadas concentrou essa função, passou a enfrentar limitações de área para atender à demanda da população.
Nesse contexto, o município ampliou sua estrutura funerária. O Cemitério do Cruzeiro foi oficializado em 1960, enquanto o Santo Amaro foi criado em 1961. Os dois passaram a integrar a rede pública de sepultamentos da Capital.
A criação dessas unidades acompanhou o crescimento dos bairros e a necessidade de distribuir os serviços públicos por diferentes regiões da cidade. Cada cemitério representa, portanto, uma etapa da organização urbana de Campo Grande.
Túmulos também preservam a história de Campo Grande
O Cemitério Santo Antônio tem importância que vai além da função funerária. O espaço reúne sepulturas de personalidades que marcaram a história política, cultural e social de Mato Grosso do Sul.
Entre os nomes sepultados no local estão José Antônio Pereira, reconhecido como fundador de Campo Grande, a atriz Glauce Rocha, o ex-prefeito Ary Coelho e o artista Zé Corrêa. A plataforma Visite Museus, vinculada ao Instituto Brasileiro de Museus, destaca o valor histórico e cultural do cemitério e aponta que suas construções funerárias revelam diferentes períodos da arquitetura e dos costumes da população.
Para a gerente de Cemitérios Públicos Municipais da Sisep, Denisy Lima de Oliveira, o reconhecimento desses espaços como patrimônio pode ampliar as possibilidades de preservação.
“Preservar os cemitérios públicos de Campo Grande é manter viva a memória de quem construiu a história da nossa Capital. O reconhecimento do Cemitério Santo Antônio como patrimônio histórico, cultural e religioso também é uma estratégia importante para a gestão pública, porque abre possibilidades de buscar recursos e parcerias para a preservação desse patrimônio, envolvendo não apenas a infraestrutura, mas também áreas como cultura e turismo”, explica.
A conservação dos cemitérios exige trabalho permanente. A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), responde pela administração e manutenção dos espaços, incluindo a organização das áreas, os serviços de conservação e o atendimento às famílias.
A rotina envolve desde cuidados com a infraestrutura até os procedimentos de sepultamento. Os servidores também lidam diretamente com pessoas que procuram os cemitérios em momentos de luto, o que exige organização, respeito e sensibilidade.
Finados reforça a ligação entre memória e cidade
No Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, os cemitérios públicos recebem moradores que visitam os túmulos de familiares e amigos, levam flores, fazem orações e realizam homenagens.
Os gestos ajudam a mostrar que esses espaços fazem parte da vida da cidade de diferentes maneiras. Além de atender às necessidades funerárias, eles preservam lembranças, histórias familiares e referências de outras épocas.
A história dos cemitérios Santo Antônio, Santo Amaro e Cruzeiro acompanha as transformações de Campo Grande: de um pequeno povoado, com sepultamentos concentrados na região central, a uma cidade que precisou ampliar sua estrutura para acompanhar o crescimento da população.
Preservar esses locais significa manter parte dessa trajetória acessível às próximas gerações.





















