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terça-feira, 25 de junho, 2024
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Diesel sofre pressão com volta de tributo, importação e disparada do petróleo

Maior impacto deverá ocorrer depois de 15 de outubro, com a volta da importação do combustível dos Estados Unidos

Após subir pela oitava semana seguida nos postos e ter alta de 18% em setembro, o preço do diesel sofre nova pressão, com a suspensão das exportações russas, a volta de parte de impostos federais e a disparada do petróleo no mercado global. 

A aceleração da prévia da inflação de setembro foi guiada pelo aumento de 2,02% do grupo de transportes. A gasolina subiu 5,18%, subitem com o maior impacto individual no IPCA-15, do IBGE. O valor do óleo diesel, por sua vez, disparou 17,93%. 

O preço médio do litro do diesel S-10 atingiu R$ 6,22 nos postos na última semana, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis). Desde o último reajuste da Petrobras, no dia 16 de agosto, o preço do combustível acumula alta de R$ 1,14 por litro, pressionado também pela retomada parcial da cobrança de impostos federais.

Depois do impacto de R$ 0,1024 por litro em setembro, outra parte do PIS/Cofins volta a ser cobrada a partir de 1º de outubro, com menor valor, de R$ 0,002, segundo estimativa da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis).

Mas o maior impacto deverá ocorrer depois de 15 de outubro, com a importação do combustível dos Estados Unidos. A estimava de repasse desse aumento pode chegar a R$ 0,40 por litro.

“O impacto maior que acho que vai ter será a partir da segunda quinzena de outubro. Como a Rússia está limitando a exportação de diesel, os importadores já estão migrando de volta aos Estados Unidos, e o preço é maior. Então é natural que o produto importado que vai chegar ao Brasil a partir do dia 15 e 20 de outubro venha mais caro do que o que está sendo comercializado aqui”, afirma Sergio Araujo, presidente da Abicom.

O aumento dos preços do barril do petróleo na quarta-feira (27) elevou a defasagem dos valores dos combustíveis vendidos pela Petrobras no Brasil ante os praticados no exterior, ampliando a pressão para um novo reajuste nas refinarias.

“A Petrobras está com um preço mais baixo do que o preço do mercado internacional, mais o frete para trazer ao Brasil, na ordem de R$ 0,70 por litro. Mas não acredito que a Petrobras vá fazer reajuste nesse momento. Ela já não tem mais aquele compromisso de buscar o preço de paridade de importação”, acrescenta. 

Com a Rússia fechando as portas e os importadores tendo que buscar produto nos Estados Unidos mais caro, Araujo defende a importância de informações da Petrobras.

“Acho que a Petrobras deveria dar uma previsibilidade em relação ao volume que vai ofertar por refinaria para outubro, novembro e dezembro, de forma que as distribuidoras tenham tempo para negociar os volumes complementares. Essa falta de informação e a insegurança aumentam o risco de desbastecimento”, avalia o presidente da Abicom.

“Acho que a gente pode passar pelo segundo semestre, quando a demanda de diesel cresce em função da colheita da safra agrícola, com tranquilidade em relação ao abastecimento, se houver essa informação sobre o volume que vai ser disponibilizado pelas refinarias nacionais, de forma que as distribuidoras possam providenciar os volumes complementares, independentemente do preço”, afirma Sergio Araujo.

Impacto no bolso do brasileiro

Para André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV/Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), apesar de o efeito direto do diesel no IPCA ser pequeno, porque ele compromete uma fração modesta do orçamento familiar, algo em torno de 0,2%, o impacto indireto é grande.

“O diesel é usado para a geração de energia nas termoelétricas, para a movimentação das máquinas no campo, para o escoamento da produção agrícola e até para o transporte público urbano. O ônibus, que é o transporte público mais popular, de maior cobertura geográfica nas principais cidades do país, é movido a diesel. O efeito indireto é mais perigoso do que o direto”, avalia Braz.

Ele explica que esse aumento de 18% tem influência pequena no índice de inflação, porque o peso no orçamento familiar é baixo, dado que poucas são as famílias que têm carro movido a diesel.

“Agora o efeito indireto que a gente não consegue medir com facilidade, porque fica misturado na formação de preços da economia, é que é grande, e não é negociado de uma vez só. Por exemplo, o frete rodoviário, em alguns casos, não é negociado frete a frete, ele tem um contrato. E esse contrato vigora por 12 meses. Então uma vez por ano aquele contrato é revisto, e aí o acumulado do diesel acaba encarecendo o frete”, explica o economista. 

Outro exemplo é a geração de energia nas termoelétricas. Com as chuvas, o país está com nível alto de reservatórios, sem risco de ter de ligar as termoelétricas. “Mas, se isso acontecesse, poderia encarecer as bandeiras tarifárias, por exemplo, porque o diesel está mais caro.”

Braz lembra que a indústria petroquímica também depende de petróleo. Por isso, se o petróleo se mantiver nesse patamar alto, aos poucos vai fazer com que vários preços tenham repasse. “Esse patamar já acumula uma defasagem em relação ao preço internacional. A qualquer momento pode ser que surja um novo reajuste do diesel e da gasolina, que vai se somar ao anterior. E isso vai não só se espalhar para todos os setores que utilizam combutível, como também pode chegar à indústria petroquímica num rol muito maior de produtos”, avalia.

“Esta novela está longe de acabar, porque Rússia e Arábia Saudita não jogam para perder, elas sabem que o momento é ideal para diminuir a produção e forçar um aumento do petróleo. E a Líbia, que também é Opep, foi arrasada pelas chuvas. Então ela também está ofertando menos petróleo. Então tem situações que podem fazer com que o preço do barril permaneça alto. E, à medida que permanece nesse novo patamar, ele demanda novo reajuste de preço aqui e nova pressão inflacionária”, diz André Braz

Mercado internacional

O petróleo Brent chegou a subir cerca de 3% na quarta-feira (27) e fechou acima de US$ 96 por barril, em seu maior patamar desde novembro de 2022, após notícias sobre uma queda expressiva dos estoques de óleo bruto nos Estados Unidos.

Já o petróleo americano West Texas Intermediate (WTI) fechou a US$ 93,68 por barril, máxima desde agosto de 2022.

Isso ocorre junto com uma alta do dólar, que ficou acima de R$ 5 pela primeira vez desde junho.

Uma vez que o Brasil não é autossuficiente em derivados de petróleo, especialistas recomendam que os preços da Petrobras, a principal fornecedora de combustíveis do Brasil, estejam em equilíbrio para não inviabilizar importações por terceiros.

Além de ser suprido pela Petrobras e por algumas refinarias privadas, o mercado brasileiro importa cerca de 25% do óleo diesel e 15% da gasolina.

Desde que anunciou uma nova estratégia comercial, em maio, a Petrobras deixou de ser obrigada a seguir preços de paridade de importação, passando a considerar outras variáveis na precificação de seus produtos, com a promessa de ser a melhor opção para seus clientes e fornecedores, mas garantindo sua rentabilidade.

A empresa tem ainda segurado por mais tempo a defasagem antes de subir seus preços, em busca de evitar volatilidades. O cenário causa algumas incertezas para importadores do produto.

Procurada, a Petrobras reiterou em nota que “sua estratégia comercial tem como premissa a prática de preços competitivos e em equilíbrio com os mercados nacional e internacional, valendo-se de suas melhores condições de produção e logística, ao mesmo tempo em que evita o repasse da volatilidade conjuntural das cotações internacionais e da taxa câmbio”.

A petroleira disse ainda que o mercado brasileiro de diesel em 2023 tem apresentado crescimento quando comparado ao ano anterior e que a demanda vem sendo atendida tanto pela Petrobras quanto pelos demais produtores e importadores. A empresa também disse que não tem importado diesel nem gasolina da Rússia.

Com a Reuters via R7

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