Canetas emagrecedoras transformam hábitos à mesa e desafiam restaurantes em Campo Grande

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Pesquisa mostra que 87,7% dos usuários passaram a preferir porções menores e 91,5% relatam redução do apetite (Foto: Reprodução)

Pesquisa mostra redução do apetite e maior procura por proteínas, verduras e porções menores

O avanço das chamadas canetas emagrecedoras já começa a aparecer não apenas na balança, mas também no prato dos consumidores de Campo Grande. Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da Fecomércio-MS (IPF-MS) aponta que 14,1% das pessoas ouvidas na cidade usam ou já usaram medicamentos injetáveis para emagrecer ou controlar o peso. Entre esse grupo, 87,7% afirmam preferir porções menores do que consumiam antes.

O levantamento foi apresentado nesta quinta-feira (24), durante o evento “Canetas Emagrecedoras: A Revolução que Está Redesenhando o Mercado”, no Senac Hub Academy. Foram entrevistados presencialmente 1.087 consumidores de alimentação fora do lar, nas sete regiões urbanas de Campo Grande, entre 24 de agosto e 2 de setembro.

A diferença no tamanho das porções foi o principal contraste encontrado pela pesquisa. Enquanto 87,7% dos usuários ou ex-usuários das canetas disseram preferir refeições menores, o percentual entre os consumidores que não utilizam esses medicamentos ficou em 43,9%, uma diferença de 43,8 pontos percentuais.

O levantamento indica, porém, que a mudança não significa necessariamente que essas pessoas deixaram de frequentar restaurantes, lanchonetes e outros estabelecimentos de alimentação. Entre os usuários, 41,2% disseram manter a mesma frequência de refeições fora de casa depois de começar o tratamento, enquanto 21,6% afirmaram que passaram a sair mais.

A principal alteração está no que é consumido. Segundo a pesquisa, 91,5% dos usuários relataram redução do apetite. Além disso, 43,1% disseram que passaram a comer menos, 30,7% aumentaram o consumo de proteínas, 28,1% passaram a consumir mais verduras e saladas e 25,5% reduziram doces e sobremesas.

Para o presidente do Sistema Comércio MS, Juliano Wertheimer, os resultados mostram uma transformação no comportamento do consumidor que precisa ser acompanhada pelas empresas. “São informações que nos ajudam a compreender um consumidor que vem se transformando e a refletir sobre como as empresas podem se adaptar ao novo cenário. Mas queremos ir além da informação”, afirmou.

Segundo ele, o Senac MS também oferece capacitações e consultorias voltadas a empresários e profissionais para acompanhar as mudanças nas demandas do mercado.

A diretora do IPF-MS, Nilde Brun, avalia que o impacto mais evidente não está na frequência com que as pessoas comem fora, mas na quantidade e na composição dos pratos escolhidos.

A pesquisa aponta que uma das oportunidades para o setor está na adaptação do tamanho das refeições, sem necessariamente reduzir o valor agregado dos produtos. Entre as possibilidades discutidas durante o evento estão porções menores, maior concentração de proteínas e revisão da apresentação e da precificação dos pratos. “O volume, tamanho da porção, a gente percebe realmente essa diminuição, agregar valor nessa porção que ele está oferecendo”, afirmou Nilde.

Perfil dos usuários

O levantamento também identificou diferenças no perfil das pessoas que relataram usar ou já ter usado os medicamentos.

Entre as mulheres entrevistadas, 19,2% disseram utilizar ou já ter utilizado as canetas emagrecedoras. Entre os homens, o percentual foi de 9,1%.

A renda também aparece relacionada ao uso. O percentual passou de 11,1% entre entrevistados com renda domiciliar de até três salários mínimos para 22% entre aqueles com renda superior a dez salários mínimos.

Na escolha do que comer, os usuários também demonstraram critérios diferentes dos demais consumidores. O equilíbrio entre prazer e saúde foi citado por 47,7% deles, contra 31,6% entre os não usuários.

Já o preço foi apontado como critério por apenas 1,3% dos consumidores que usam ou já usaram as canetas, enquanto entre os demais o índice chegou a 11,1%.

Para a diretora regional do Senac MS, Jordana Duenha, os dados mostram que o setor não está diante de consumidores que simplesmente deixaram de frequentar restaurantes, mas de pessoas que passaram a fazer escolhas diferentes. “A pesquisa mostra que não estamos diante de um consumidor que simplesmente deixou de frequentar restaurantes, mas de alguém que está fazendo novas escolhas”, afirmou.

Entre todos os entrevistados, 54,6% consideraram importante ter maior variedade de pratos nos estabelecimentos. Sabor e qualidade dos ingredientes foram citados por 53,3%, preço acessível por 49,8% e porções adequadas às necessidades do consumidor por 25,9%.

Mudanças podem continuar após o tratamento

A pesquisa também procurou identificar se as alterações de comportamento permanecem depois que o consumidor deixa de utilizar os medicamentos.

Entre todos os entrevistados, 85,6% consideraram que a preocupação com uma alimentação saudável fora de casa representa uma mudança permanente de comportamento. Apenas 6,3% classificaram essa preocupação como uma tendência passageira.

Entre as 69 pessoas que já haviam interrompido o uso das canetas, 27,5% afirmaram ter mantido praticamente todas as mudanças de hábito e 36,2% disseram ter preservado parte delas.

O resultado sugere, segundo os organizadores do levantamento, que o impacto sobre o consumo pode ultrapassar o período de utilização dos medicamentos.

Mercado ilegal também cresce

Enquanto o mercado legal passa por mudanças e ganha novos produtos registrados, a popularização das canetas também tem sido acompanhada pelo aumento das apreensões de medicamentos que entram irregularmente no país.

Em Mato Grosso do Sul, dados da Receita Federal indicam que as apreensões de canetas emagrecedoras somaram R$ 5,9 milhões entre janeiro e 13 de julho de 2026. O valor é quase quatro vezes superior aos R$ 1,5 milhão registrados durante todo o ano de 2025.

No primeiro semestre de 2026, as apreensões desses medicamentos pela Receita Federal em todo o país ultrapassaram R$ 80 milhões, contra cerca de R$ 4 milhões no mesmo período de 2025. O órgão não informou quantas unidades correspondem ao valor nacional apreendido.

A fronteira com o Paraguai é um dos pontos de atenção das autoridades. Em Foz do Iguaçu (PR), foram apreendidas 71.860 unidades de ampolas e canetas emagrecedoras em 2026, contra 7.479 entre maio e dezembro do ano anterior, segundo dados da Receita citados em reportagem da Folha de S.Paulo.

A Anvisa alerta que medicamentos sem registro no Brasil não podem ser comercializados legalmente no país. A agência também já determinou a proibição de produtos divulgados como canetas de GLP-1 que não possuem registro sanitário, como ocorreu recentemente com a T36.

Em julho, a Anvisa aprovou cinco novos medicamentos injetáveis à base de semaglutida: Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e Orsema. Os produtos foram registrados para tratamento de adultos com diabetes tipo 2 e, portanto, a indicação aprovada não significa autorização automática para qualquer uso relacionado ao emagrecimento.

A agência também aprovou, em agosto, um medicamento genérico e um similar à base de semaglutida, ampliando o número de opções registradas no mercado brasileiro.

Em meio ao crescimento do mercado, Anvisa e Dinavisa, autoridade sanitária do Paraguai, assinaram em agosto um acordo para ampliar a cooperação na fiscalização, troca de informações e combate à falsificação e à circulação irregular de produtos sujeitos à vigilância sanitária.

Impacto para as empresas

Para o consultor financeiro Leonardo Leão, o desafio dos estabelecimentos é acompanhar a mudança no perfil do consumidor sem comprometer a rentabilidade.

A estratégia envolve rever preços, adaptar pratos e buscar formas de manter a frequência dos clientes, considerando que consumidores interessados em refeições menores podem continuar frequentando os mesmos estabelecimentos.

A médica pós-graduada em Nutrologia Tayná Santiago também destacou durante o evento que os efeitos da popularização dos medicamentos ultrapassam a alimentação. Segundo ela, a transformação pode alcançar segmentos como academias, produtos ricos em proteínas, estética e outros serviços relacionados à saúde e ao bem-estar. “O comportamento não está acompanhando a velocidade de emagrecimento. Então, o comportamento é a chave que vai fazer a diferença de quem vai se beneficiar ou não dessa mudança de mercado”, afirmou.

O evento realizado no Senac Hub Academy reuniu empresários e especialistas para discutir os efeitos das canetas emagrecedoras sobre alimentação, varejo, saúde e comportamento do consumidor.

A pesquisa foi realizada pelo IPF-MS para o Senac MS e ouviu 1.087 consumidores de alimentação fora do lar nas sete regiões urbanas de Campo Grande entre 24 de agosto e 2 de setembro.