União de Jacintho Honório da Silva Neto com herdeira do “rei do café” Geremia Lunardelli solidificou união entre os clãs; juntos, eles dominam área reivindicada pelos Guarani Kaiowá, o Tekoha Taquara, desde a década de 50

*Bruno Stankevicius Bassi e Alceu Luis Castilho

Geremia Lunardelli foi o último dos “reis do café” que dominaram a economia brasileira durante o apogeu da produção cafeeira. O ítalo-brasileiro ganhou o título em um período tardio, quando o grão já havia encerrado sua era de ouro após a crise mundial de 1929.

Apostando em uma revalorização internacional do produto, Lunardelli passou a investir em terras baratas e pouco exploradas, o que o levou do Paraná ao sul do Mato Grosso, onde adquiriu mais de 100 mil hectares em parceria com Ariosto da Riva, um megalatifundiário cujos descendentes dominam ainda hoje a política mato-grossense. Essas terras abarcavam áreas historicamente ocupadas pelos Guarani Kaiowá, no que hoje é o estado do Mato Grosso do Sul.

Certidão de compra e venda da Fazenda Brasília do Sul obtida pela reportagem. (Imagem: De Olho nos Ruralistas)
Certidão de compra e venda da Fazenda Brasília do Sul obtida pela reportagem. (Imagem: De Olho nos Ruralistas)

Uma dessas áreas foi o “Lote Taquara”, atual Fazenda Brasília do Sul, cujo conflito entre fazendeiros e indígenas é tema do relatório “Sangue indígena: A verdade incômoda por trás do frango exportado para a Europa”, uma parceria entre De Olho nos Ruralistas e a ONG britânica Earthsight.

De Olho nos Ruralistas pesquisou e obteve as matrículas do imóvel. Elas mostram que a fazenda foi vendida em 1966 pelo filho de Geremia, Pedro Lunardelli, ao pecuarista Jacintho Honório da Silva Filho. O valor pago pelos 9.345,63 hectares foi de 35 milhões de cruzeiros, equivalente hoje a cerca de R$ 12 mil. Mas a ligação do clã Lunardelli com Jacintho vai além das terras reivindicadas pelos Kaiowá.

Um dos filhos do pecuarista, Jacintho Honório da Silva Neto, falecido em 2020, foi casado e teve uma filha com Cristina Martins Lunardelli. Ela é neta do “rei do café” e sobrinha de Pedro Lunardelli, o titular do imóvel até 1966. As sete décadas de ocupação dos brancos sobre o Tekoha Taquara se encontram não apenas na história, mas também no DNA.

BRASÍLIA DO SUL FOI ‘CAMPO DE TESTE’ PARA O GADO NELORE

Na época da compra da fazenda em Juti (MS), Jacintho já era reconhecido no meio agrário como uma das principais referências em genética bovina. Natural de Barretos, interior de São Paulo, ele havia integrado o grupo de empresários que, em 1962, viajou à Índia para selecionar matrizes da raça Nelore. A partir da Fazenda Brumado, no mesmo município, os animais importados por Jacintho e seus colegas deram origem a boa parte do rebanho existente hoje no Brasil.

Jacintho (4º da esq. para dir.) participou do grupo que importou Nelore da Índia (Foto: Arquivo/Fazenda Brumado)
Jacintho (4º da esq. para dir.) participou do grupo que importou Nelore da Índia (Foto: Arquivo/Fazenda Brumado)

Um dos polos de experimentação com o boi Nelore foi justamente o Lote Taquara, renomeado em 1979 como Fazenda Brasília do Sul. O imóvel se tornou peça principal no enorme patrimônio acumulado por Jacintho e sua família, transformando-se em propriedade-modelo na região e origem de matrizes premiadas. Durante a viagem a Juti, a equipe de pesquisa ouviu de agricultores e moradores ser comum que pequenos produtores e funcionários de outras fazendas fizessem cursos de formação e aperfeiçoamento na Brasília do Sul, que contava com uma infraestrutura considerada moderna para a época.

A compra desse enorme latifúndio fora viabilizada pela implosão do império erigido por Geremia Lunardelli que, ao longo dos anos 1960, viu seu patrimônio ruir devido à quebra sucessiva de safras de café em decorrência de pragas e geadas.

“REI DO CAFÉ” FACILITOU TRÁFICO DE ARMAS NA DITADURA

No auge de sua fortuna, Lunardelli chegou a expandir seus negócios para o Paraguai, mesmo caminho que, anos depois, seria seguido por Jacintho e seus genros, como mostramos na série De Olho no Paraguai. Já sob a ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989), ele adquiriu 350 mil hectares no departamento de Amambay, inclusive em áreas ocupadas pelos Kaiowá (ali chamados Paĩ-Tavyterã), onde chegou a plantar 1 milhão de pés de café.

Geremia Lunardelli, o último dos “reis do café”. (Foto: Jean Manzon/O Cruzeiro)
Geremia Lunardelli, o último dos “reis do café”. (Foto: Jean Manzon/O Cruzeiro)

Por esse extenso corredor de terras passavam mais do que sacas de café: ao trazer colonos do Brasil para conduzir o plantio no país vizinho, Lunardelli iniciou a onda migratória que deu origem ao fenômeno dos “brasiguaios”, os agricultores brasileiros e seus descendentes que hoje controlam boa parte das terras na região Oriental do Paraguai e protagonizam conflitos com os povos Guarani.

Pelas terras de Lunardelli também teria funcionado uma rota de contrabando de armas oriundas dos Estados Unidos, utilizadas durante e após o golpe militar de 1964. Segundo relato do brigadeiro João Paulo Moreira Burnier ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas, Lunardelli teria pleno conhecimento do uso de suas fazendas para o transporte clandestino de armamento e munição.

Com a crise dos anos 60, Geremia Lunardelli fatiou e vendeu suas propriedades tanto no Brasil como no Paraguai, onde a família ainda mantém uma pequena empresa agropecuária.

ANTES DO CAFÉ, A ERVA-MATE MARCOU A MARCHA PARA O OESTE

A expulsão sistemática dos povos indígenas no que hoje é o Mato Grosso do Sul abriu as portas para o surgimento de uma nova fronteira agrícola.

A partir da década de 30, a política de “colonização” promovida pelo Estado Novo, a Marcha para o Oeste, colocou a Companhia Matte Larangeira, então dona de quase 5 milhões de hectares, em rota de colisão com posseiros oriundos da região Sul. Influenciada por conceitos eugenistas, a Marcha para o Oeste envolveu um grande número de imigrantes italianos e alemães, estimulados pelo governo do presidente Getúlio Vargas (1930-1945) a ocupar terras onde a empresa detinha o monopólio dos ervais.

Mão-de-obra Guarani Kaiowá era comum nas plantações da Matte Larangeira. (Foto: Arquivo Público MS)
Mão-de-obra Guarani Kaiowá era comum nas plantações da Matte Larangeira. (Foto: Arquivo Público MS)

Com o cancelamento das concessões de exploração da erva-mate em 1943, a Matte Larangeira entrou em um longo processo de derrocada, até sua falência, em 1966, diante da suspensão das importações pela Argentina. Durante esse período, as propriedades foram sendo gradativamente vendidas a novos colonos, que introduziram o plantio de café na região, além da atividade pecuária.

Uma dessas áreas era o lote de terras conhecido como Taquara. Apesar da atividade extrativista exercida ali pela Matte Larangeira, a gleba permanecera como terra pública até 1928, quando foi oficializado o primeiro registro de posse privada sobre aquela área, então com 5.000 hectares.

PROCESSO DE EXPULSÃO TEVE INÍCIO NOS ANOS 50

O nome pelo qual aquelas terras eram conhecidas vinha do Guarani: Tekoha Takuara, uma referência aos bambus (do tupi ta’kwar) que proliferavam na região e eram amplamente utilizados pelos Kaiowá para construção, artesanato e instrumentos musicais. Tekoha, por sua vez, é o termo usado designar o território físico onde se dão as condições materiais e culturais de “ser guarani”.

Até o início da década de 50, os Kaiowá de Taquara haviam passado incólumes ao processo de aculturação e expulsão conduzido pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). A Vila de Santa Luzia (atual Juti) ficava a uma longa distância de Dourados, principal centro econômico da região, e padecia de uma infraestrutura precária. Com isso, os indígenas mantiveram-se trabalhando no cultivo da erva-mate para a Companhia Matte Larangeira enquanto, nas aldeias, plantavam a roça tradicional e preservavam rituais e crenças.

Aldeia Kaiowá, registrada em 1949. (Foto: Egon Schaden)
Aldeia Kaiowá, registrada em 1949. (Foto: Egon Schaden)

Tudo mudou com a chegada na região de Geremia Lunardelli. A perspectiva de atrair novos empreendimentos acelerou o plano de “limpeza” do lote Taquara, o que incluía, além da derrubada das matas nativas, a remoção dos Kaiowá que viviam ali.

Informado da presença indígena no local, o SPI começou, em julho de 1953, a efetuar a transferência da comunidade para a Reserva de Caarapó. Segundo relatos apresentados pelo antropólogo Levi Marques Pereira à Comissão Nacional da Verdade, sob a justificativa de ter indenizado os Kaiowá pelas “benfeitorias” realizadas no terreno, o próprio SPI teria acompanhado a destruição do tekoha. Os corpos de dois indígenas foram encontrados carbonizados no local, enquanto uma criança morreu afogada durante a perseguição.

Marcos Verón tinha 24 anos quando sua família foi obrigada a deixar as terras. Outros ataques continuaram ocorrendo até a remoção completa dos indígenas da fazenda. O episódio marcou para sempre o líder, que prometeu retornar algum dia ao Taquara para retomar o território tradicional de seu povo, onde acabou por fim sendo assassinado, em 13 de janeiro de 2003.

*Articulistas do Observatório de Conflitos Agrários De Olho nos Ruralistas

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