Casas de madeira preservam a memória da formação de Naviraí e se tornam objeto de pesquisa

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Fotos e imagens: Acervo dos pesquisadores

As casas de madeira que marcaram a ocupação de Naviraí nas décadas de 1960 e 1970 estão no centro de uma pesquisa desenvolvida pela UFMS. O projeto Casas de madeira de Naviraí: ocorrências, conservação e memória reúne professores e estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMS em Naviraí, para identificar, mapear e analisar as edificações ainda existentes, investigando seu estado de conservação e sua importância para a memória urbana do município.

Coordenada pelos professores Ricardo Bitencourt e Camila Amaro, a pesquisa surgiu a partir dos levantamentos realizados por estudantes da disciplina Ateliê de Projeto Integrado 5, em 2023 e 2025. O material produzido em sala despertou o interesse da equipe em aprofundar os estudos sobre um patrimônio que, aos poucos, vem desaparecendo da paisagem urbana.

“O risco de perda da memória e a necessidade de preservação foram os principais motivadores da pesquisa. Muito já se perdeu ao longo das últimas décadas”, explica o professor Ricardo.

As residências de madeira são consideradas testemunhos da origem da construção da cidade, durante o ciclo da exploração madeireira. Mais do que edificações antigas, elas ajudam a compreender como a cidade foi ocupada, como viviam seus primeiros moradores e quais técnicas construtivas caracterizavam aquele período.

Segundo os pesquisadores, fotografias históricas mostram que, na época da fundação do município, uma parcela significativa das edificações era construída em madeira. Além do valor histórico, essas construções apresentam características arquitetônicas próprias, como adaptação ao clima, conforto ambiental e soluções construtivas que diferem das edificações contemporâneas.

Casas de madeira preservam a memória da formação de Naviraí e se tornam objeto de pesquisa

Mapeamento revela patrimônio maior do que o esperado

Um dos principais resultados obtidos até o momento foi o levantamento das casas remanescentes existentes. Inicialmente, estimava-se que cerca de 240 imóveis ainda estivessem preservados. Com a atualização do levantamento, a equipe identificou 229 residências, número que já considera a demolição de seis casas entre 2023 e 2026.

Para o professor, o resultado surpreendeu. “Ainda assim, o número impressiona. Não parecia haver tantas unidades preservadas”, observa.

Todas as edificações identificadas estão concentradas no octógono central de Naviraí, área correspondente ao núcleo original da cidade. A distribuição dos imóveis também permitiu compreender que esse setor urbano já abrigou um número significativamente maior de casas de madeira.

Casas de madeira preservam a memória da formação de Naviraí e se tornam objeto de pesquisa

Trabalho de campo combina técnica, memória e tecnologia

A pesquisa reúne diferentes etapas de investigação. Primeiro, foi realizado o levantamento e a organização das informações existentes sobre as casas, incluindo mapas, fichas cadastrais e setorização dos imóveis. Em seguida, a equipe retornou a campo para confirmar a localização das residências, atualizar registros fotográficos e verificar seu estado de conservação.

As visitas técnicas eram previamente agendadas com os moradores. Durante os encontros, os pesquisadores realizavam medições, observações, registros fotográficos e conversavam com os proprietários, coletando informações que ajudaram a compreender não apenas as características físicas das construções, mas também sua importância afetiva para a comunidade.

Em geral, conta Ricardo Bitencourt, os moradores receberam muito bem a equipe. “Sempre contavam causos e ofereciam café”, relata.

Além das visitas presenciais, a pesquisa incorporou ferramentas de inteligência artificial para restaurar fotografias históricas e remover elementos que dificultavam a leitura das imagens atuais. O objetivo não foi substituir os registros originais, mas ampliar sua legibilidade e facilitar a interpretação de aspectos arquitetônicos, materiais e volumétricos das edificações.

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Conservação preocupa pesquisadores

Após o levantamento, cada residência passou por uma avaliação técnica baseada em um checklist elaborado especificamente para edificações em madeira.

A equipe analisou aspectos como umidade e infiltrações, identificadas por manchas e sinais de água nas paredes, foram observados fungos, insetos e a integridade estrutural da madeira, considerando fissuras, deformações e funcionamento de portas e janelas; estado da proteção superficial da madeira (verniz ou stain), e, também, as condições de calhas, rufos e encaixes, com foco na vedação e na conservação do telhado.

Os resultados mostram um cenário que inspira atenção. Das 229 casas identificadas, apenas 27 apresentam estado muito bom de conservação. Outras 166 encontram-se em condição intermediária, enquanto 36 já apresentam estado ruim.

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Segundo os pesquisadores, os dados revelam um acelerado processo de descaracterização dessas construções e reforçam a fragilidade desse patrimônio diante da inexistência de políticas públicas específicas para sua preservação.

Para Ricardo Bitencourt, essas casas podem, sim, ser consideradas patrimônio cultural da cidade. “Elas testemunham a ocupação de Naviraí nas décadas de 1960 e 1970, impulsionada pelo ciclo da madeira. Infelizmente, hoje não existem políticas públicas voltadas para sua preservação.”

O pesquisador ressalta que o desaparecimento dessas construções representa a perda da memória coletiva e da história dos antigos moradores do município.

Formação acadêmica e valorização da memória

Além dos resultados científicos, o projeto também tem contribuído para a formação dos estudantes envolvidos. “Os estudantes desenvolvem competências em levantamento e documentação do patrimônio arquitetônico, análise de patologias em edificações de madeira e sistematização de informações, além de aprimorarem o pensamento crítico, a capacidade de observação e a produção científica. Ao mesmo tempo, contribuem para a geração de conhecimento sobre o patrimônio local e para a formação de profissionais mais preparados para atuar na preservação do patrimônio cultural”, reforça Bitencourt.

André Luiz Costa Martins afirma que participar da pesquisa ampliou sua compreensão sobre a relação entre arquitetura, patrimônio e memória. “Foi uma experiência muito enriquecedora. O que mais me chamou a atenção foi a diversidade das casas, as histórias compartilhadas pelos moradores e o estado de degradação de muitas construções que representam parte importante da história de Naviraí”, ressalta.

Ele destaca, ainda, que o contato com os moradores permitiu compreender o valor afetivo dessas residências e fortaleceu seu olhar crítico sobre a preservação do patrimônio arquitetônico. “No início, alguns moradores demonstravam certa desconfiança, mas muitos foram bastante receptivos e compartilharam suas histórias e lembranças com grande generosidade. Esses relatos foram fundamentais para enriquecer a pesquisa e compreender o valor afetivo dessas residências para a comunidade”, diz.

“Uma das casas que mais me marcou fica na Rua Bunji Tadano, onde minha namorada morou por um período. Sempre me impressionou como uma construção tão antiga conseguia transmitir uma sensação de aconchego e pertencimento. Essa experiência me fez perceber que a arquitetura não é apenas uma questão de técnica ou estética, mas também de memória e identidade”, fala André.

Casas de madeira preservam a memória da formação de Naviraí e se tornam objeto de pesquisa

A experiência também proporcionou o desenvolvimento de habilidades relacionadas ao levantamento técnico, identificação de patologias construtivas, organização de dados,  documentação arquitetônica e comunicação.

Próximos passos

A pesquisa segue em andamento com a sistematização dos dados coletados, ampliação do acervo documental e levantamento de registros históricos junto à Fundação de Cultura de Naviraí. A equipe também trabalha na consolidação das análises para elaboração de um artigo científico e do relatório final da pesquisa.

Mais do que produzir conhecimento acadêmico, os pesquisadores esperam despertar na sociedade e no poder público o reconhecimento desse patrimônio.

“Preservar a memória urbana é preservar a identidade da cidade. As casas de madeira contam a história dos primeiros moradores e do processo de formação de Naviraí. Ao conhecer e valorizar esse patrimônio, fortalecemos o vínculo da comunidade com sua própria história e garantimos que esse legado seja conhecido pelas futuras gerações”, conclui o professor Ricardo.