Matheus ainda é pequeno para fazer um curso profissionalizante, mas acompanhou de perto cada etapa da qualificação da mãe. Enquanto Camila da Costa Fleitas aprendia as técnicas da profissão de assentadora de revestimento no Senai, o menino também fazia parte daquela rotina. Na noite da formatura, na última sexta-feira (14/08), esteve ao lado dela mais uma vez, agora para celebrar a conquista.
“Ele também merece, né, filho?”, brincou Camila, depois de receber o certificado. Para chegar até ali, foram meses conciliando estudos, maternidade e os compromissos do dia a dia. “Teve dia de chuva, dia de frio. Não é fácil. A gente que é mãe, a gente que é mulher, sabe que tudo depende da gente. Só que, se a gente não se posicionar, nada acontece”, contou.
Camila foi uma das 35 mulheres que concluíram os cursos de qualificação da segunda turma do projeto Elas Constroem. A cerimônia foi realizada no auditório da Faculdade Senai da Construção, em Campo Grande, e reuniu formandas, familiares, representantes das instituições envolvidas e empresas do setor.
As formações foram nos cursos de Segurança na Operação de Minicarregadeira (Bobcat), Orçamentista em Obra, Assentadora de Revestimentos Cerâmicos e Pedreira de Alvenaria. As capacitações foram direcionadas à atuação na construção civil, setor que enfrenta carência de mão de obra qualificada.
O projeto Elas Constroem foi realizado em parceria entre Senai, Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e Sinduscon-MS, com apoio da Secretaria Municipal da Mulher (SEMU) e do Sintracom-CG. A iniciativa busca ampliar a presença feminina na indústria da construção, através de qualificação profissional e aproximação com o mercado de trabalho.
Formação que acompanhou a rotina das mulheres
Para Camila, permanecer no curso também foi possível em função da alternativa de trazer Matheus para o local da capacitação, sabendo que ele seria bem cuidado durante as aulas da mãe. “O apoio que o Senai deu foi incrível porque eu pude estudar com tranquilidade enquanto sabia que meu filho estava seguro. Acho que isso é o mais importante”, afirmou.
A experiência de mães como Camila levou a organização a encontrar soluções para uma necessidade que poderia dificultar a permanência de algumas participantes. “Durante o processo surgiram algumas questões. Uma delas era que as mulheres precisavam de um espaço para receber os filhos. Então, o Senai disponibilizou esse local e profissionais para acolher as crianças enquanto as mães estavam estudando”, explicou o gerente regional do Senai, Jeancarlos Lucietto.
Com o primeiro certificado em mãos, Camila já decidiu ampliar as possibilidades profissionais. Depois da formação como assentadora de revestimento, vai começar um novo curso no Senai, desta vez na área de elétrica. E resumiu o próximo objetivo em poucas palavras: “Vou ser eletricista”.
Da sala de aula para o mercado
A conclusão dos cursos também aproximou as novas profissionais das oportunidades de trabalho. “Todo esse trabalho foi feito em conjunto com algumas empresas construtoras. Elas participaram conosco desde o início, pensando nos cursos e nas formações, e estão conosco agora com vagas de emprego, conectando essas mulheres com o mercado de trabalho”, destacou Jeancarlos.
Para o vice-presidente do Sinduscon-MS, Amarildo Miranda Melo, a falta de profissionais qualificados ainda representa um dos principais gargalos da construção civil. “É uma quebra de paradigma. Nós temos diversas mulheres trabalhando nas empresas da construção, mas ainda muito na área administrativa. O que queremos é trazer a mulher também para o canteiro de obras”, afirmou.
Um certificado e novos planos
Ramona Pinto de Souza concluiu o curso de pedreira de alvenaria e deixou a formação com planos que iam além da busca por uma vaga de emprego: pretende criar a própria empresa de consultoria na área. “Estou me sentindo maravilhosa, qualificada para o mercado de trabalho”, comemorou.
Para a vice-presidente da Comissão de Responsabilidade Social da CBIC, Maria Inês Menegotto de Campos, a qualificação profissional abriu caminhos que vão além da entrada das mulheres em um setor predominantemente masculino. “É uma vitória para todas essas mulheres, porque é a independência delas, é o sustento em casa, é a criação da sua família. Isso valoriza a mulher”, afirmou.
A secretária municipal da Secretaria Executiva da Mulher, Angélica Fontanari, também destacou a autonomia financeira como um dos impactos da capacitação. “Quando você traz autoestima para a mulher, você traz autonomia financeira. Projetos como esse estimulam a capacitação e permitem que essas mulheres tenham condições de manter a sua família”, defendeu.
Depois de uma noite dedicada a celebrar quem concluiu uma nova formação profissional, Ramona encontrou uma definição própria para o nome estampado no projeto. Afinal, o que elas constroem? “Sonhos, transformando sonhos em realidade. Construir, quem sabe, o alicerce da própria casa. É o sonho de muitas mulheres”.





















