Com milhões de seguidores, canais de Lula e Flávio disputam influência no WhatsApp

10
Canal do 'Exército do Lula' cresce para 7,5 milhões; 'Tropa do Flávio' mantém 2 milhões de seguidores (Montagem: Ricardo Stuckert/PR; Charles Vieira/ Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro)

Redes lideradas por aliados dos candidatos mobilizam apoiadores e provocam debate sobre desinformação e limites da Justiça Eleitoral

A três dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25), canais de WhatsApp ligados a apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) intensificam a mobilização de eleitores e disputam espaço na reta final da campanha. Com milhões de seguidores, as iniciativas usam tarefas e compartilhamentos de conteúdos para ampliar a presença dos candidatos nas redes sociais.

Entre os principais exemplos estão o “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), e a “Tropa do Flávio”, criada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Embora não tenham sido originalmente concebidos como canais oficiais dos presidenciáveis, os dois espaços ganharam protagonismo na estratégia digital dos grupos políticos.

O crescimento dessas redes ocorre em meio a uma disputa sobre a influência das plataformas de mensagens nas eleições e sobre os limites de atuação da Justiça Eleitoral. O tema também chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que discutiu medidas para restringir temporariamente canais políticos de grande alcance perto da votação.

Canal pró-Lula ultrapassa 7,7 milhões de seguidores

O “Exército do Lula” superou 7,7 milhões de seguidores na quarta-feira (21), segundo os números apresentados no levantamento. Já a “Tropa do Flávio” reúne aproximadamente 2 milhões de inscritos.

A diferença também aparece nos canais oficiais dos candidatos. O espaço de Lula tem pouco mais de 2 milhões de seguidores, enquanto o de Flávio Bolsonaro soma pouco mais de 200 mil.

O canal administrado por Janones apresentou uma expansão expressiva em outubro. No dia 10, contava com cerca de 3 milhões de seguidores. Dez dias depois, já havia ultrapassado a marca de 7 milhões, mais que dobrando de tamanho em menos de duas semanas.

A mobilização liderada por Janones também se destaca por reunir apoiadores de diferentes setores da esquerda, não apenas eleitores tradicionalmente ligados ao PT. A avaliação é de que a atuação de um parlamentar de outra legenda pode contribuir para ampliar a identificação do movimento com um campo progressista mais abrangente.

A “Tropa do Flávio”, por sua vez, concentra principalmente apoiadores já engajados com o bolsonarismo. Apesar de ter alcançado milhões de inscritos, o canal ainda apresenta um público menor que o da iniciativa pró-Lula.

Como funcionam as missões nas redes

Os dois canais adotam estratégias semelhantes para estimular a participação dos seguidores. Os administradores publicam orientações conhecidas como “missões”, que incentivam os participantes a compartilhar vídeos, divulgar mensagens favoráveis aos candidatos e levar determinados assuntos a outras redes sociais.

A proposta é transformar os inscritos em agentes de distribuição de conteúdo político, ampliando o alcance das publicações para além do público que acompanha diretamente os canais.

O formato de transmissão do WhatsApp permite que os administradores publiquem mensagens para uma grande quantidade de pessoas. Os seguidores podem reagir ao conteúdo, mas não conversam entre si dentro do canal, diferentemente do que ocorre nos grupos tradicionais do aplicativo.

A estratégia também facilita a circulação de mensagens em redes pessoais, como grupos de família, amigos e conhecidos. Esse tipo de compartilhamento pode aumentar a exposição de um candidato, mas não permite concluir que todas as pessoas alcançadas mudarão de posição política.

Número de seguidores não significa votos

Especialistas em inteligência digital alertam que o tamanho dos canais, isoladamente, não é suficiente para medir o impacto eleitoral das iniciativas.

O diretor da AtivaWeb DataLab, Alek Maracajá, ressalta que a estrutura de mobilização política no WhatsApp é mais ampla do que os números exibidos nos canais públicos. Segundo ele, o campo bolsonarista mantém desde 2018 uma rede descentralizada de grupos, o que dificulta comparar a força dos movimentos apenas pelo total de inscritos.

A análise também considera a diferença entre mobilizar eleitores já identificados com um candidato e convencer pessoas que ainda estão indecisas.

Nesse cenário, o alcance das mensagens pode contribuir para fortalecer a militância, estimular a participação dos apoiadores e manter determinados temas em evidência durante a campanha. O efeito sobre a decisão de voto, entretanto, é mais difícil de mensurar.

A circulação de conteúdos fora dos canais originais e o engajamento efetivo dos seguidores são alguns dos fatores que precisam ser considerados para avaliar a influência dessas iniciativas.

Disputa chega à Justiça Eleitoral

O crescimento dos canais também provocou uma disputa judicial entre as campanhas.

Na semana anterior ao segundo turno, o presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, determinou a suspensão do “Exército do Lula” após um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, que apontou suposta disseminação de desinformação.

O canal chegou a ser restabelecido pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, mas foi suspenso novamente por determinação de Nunes Marques. Entre os argumentos apresentados estava a necessidade de registro do espaço perante a Justiça Eleitoral, diante de seu vínculo com a campanha.

A liberação ocorreu depois que a campanha de Lula realizou o registro exigido.

A controvérsia levou a discussões sobre a aplicação das regras eleitorais a canais administrados por apoiadores e sobre a necessidade de garantir tratamento equivalente às duas candidaturas. A campanha de Lula também solicitou que medidas semelhantes fossem aplicadas à “Tropa do Flávio”.

Proposta previa suspender canais perto da votação

A discussão avançou para uma proposta de resolução do TSE que previa a desativação temporária de canais políticos com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao segundo turno.

O texto foi elaborado pelo ministro André Mendonça, vice-presidente da Corte, com o objetivo de proteger a integridade do processo eleitoral no período próximo à votação. Caso fosse aprovado, atingiria tanto o “Exército do Lula” quanto a “Tropa do Flávio”.

A proposta, porém, foi barrada por Nunes Marques na quarta-feira (21). O presidente do tribunal manifestou oposição a mudanças nas regras eleitorais às vésperas do pleito.

Na avaliação de especialistas, uma eventual restrição poderia reduzir a circulação de determinadas mensagens nesses espaços, mas não impediria que os apoiadores migrassem para outros canais e plataformas.

Também há dúvidas sobre a capacidade de uma suspensão ampla reduzir a desinformação como um todo. A eficácia da medida dependeria de sua aplicação e da possibilidade de os conteúdos continuarem circulando por outros meios.

Mobilização deve pesar na reta final

Diante da possibilidade de novas restrições, André Janones começou a orientar os seguidores do “Exército do Lula” a acompanhar seu perfil pessoal no Instagram. A iniciativa busca manter o contato com os apoiadores caso o canal do WhatsApp volte a ser suspenso.

A movimentação evidencia a importância que as campanhas passaram a atribuir às redes digitais na reta final da disputa presidencial.

Embora o canal pró-Lula tenha vantagem expressiva em número de seguidores, especialistas avaliam que o resultado eleitoral não pode ser antecipado com base nesses dados. O alcance das mensagens, a participação dos apoiadores e a capacidade de chegar a eleitores que ainda não decidiram o voto são fatores distintos.

Com a votação marcada para domingo (25), a disputa digital deve continuar concentrada tanto na mobilização das bases quanto na tentativa de influenciar os assuntos que ganham destaque nos últimos dias da campanha.