O jovem jornalista e combatível ex-deputado federal David Miranda, morreu no Rio de Janeiro, na manhã desta terça-feira (9), aos 37 anos. Curiosamente, após nove meses lutando pela vida, a qual faria 38 anos nesta quarta (10), ele se vai e deixa o marido, o jornalista Glenn Greenwald, e três filhos. Veja abaixo, a jovem, mais grande trajetória, interrompida definitivamente hoje. Ele, devido ao estado de saúde, até renunciou a candidatura de uma provável reeleição a Câmara dos Deputados, até porque desde o inicio não saiu para fazer campanha nas eleições 2022.
A morte foi confirmada por Glenn nas redes sociais. “É com a mais profunda tristeza que eu comunico a morte do meu marido, David Miranda. Ele iria fazer 38 amanhã. Sua morte, no início desta manhã, ocorreu após uma batalha de 9 meses na UTI. Ele morreu em paz, cercado por nossos filhos, pela família e por amigos”, escreveu.
David Miranda, então no Psol, assumiu uma vaga na Câmara, após a renúncia de Jean Wyllys, no inicio do terceiro mandato em janeiro de 2019, ao alegar perseguição e ameaças de morte, tendo até que se exilar no exterior. Assim, Miranda cumpriu praticamente um mandato inteiro e iria a reeleição, pelo recém mudado PDT, mas sempre na defesa e combatividade dos Movimentos Sociais e principalmente da causa LGBTQIA+, ao qual era declaradamente um deputado homoafetivo.
Nove meses na UTI – Miranda foi internado no dia 6 de agosto de 2022 para tratar uma infecção gastrointestinal e foi alvo de infecções sucessivas, em um quadro de septicemia. Neste período, logo no inicio, ele ficou em estado grave, beirando ao óbito, mas teve boas recuperações, na luta pela Vida.
Relato internação do marido
Em março 2023, Glenn fez um relato longo e emocionante sobre os meses de internação do marido. “Desde a primeira semana, houve três ocasiões em que seus médicos me ligaram e nos disseram para nos prepararmos para o pior, que suas chances de sobrevivência nas próximas 48 a 72 horas eram muito baixas, quase impossíveis. Nem vou me dar ao trabalho de tentar explicar como é ter que dizer a seus filhos, à família e aos melhores amigos de seu marido que é hora de ir para o hospital pelo que provavelmente será a última vez”, disse Glenn na época.
Na ocasião, Glenn disse que o marido se mantinha “a maior parte do tempo acordado” e conseguia conversar, “apesar da traqueostomia que teve que fazer”. Miranda, no entanto, já dependia de um ventilador para assistência respiratória.
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‘Vida extraordinária’
Na postagem, Glenn destacou que a vida do marido “foi extraordinária em todos os sentidos”. “A mãe dele morreu quando ele tinha 5 anos, deixando órfão no Jacarezinho”, disse. “Mas uma vizinha, Dona Eliane, o adotou, apesar de já ser mãe de 4 e da extrema pobreza. Isso lhe deu uma oportunidade de vida”, narrou.
Glenn lembrou ainda que Miranda teve um papel fundamental no caso de Edward Snowden — que tornou públicos detalhes de vários programas de vigilância global dos Estados Unidos —
David Miranda, inicou a vida política eleitoral, sendo o primeiro gay eleito para a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Após, em 2019, assumiu uma vaga na Câmara de Deputados após a renúncia de Jean Wyllys, então colega de partido, e também o primeiro deputado federal eleito assumido abertamente gay.
Re-Eleição 2022 – em setembro, a Justiça Eleitoral homologou a renúncia à candidatura de Miranda, após a família do parlamentar anunciar a desistência da disputa em razão da internação. Ele seria candidato à reeleição, dita até garantida, para a Câmara dos Deputados.
Em dezembro, a Câmara determinou a criação de uma junta médica para avaliar o estado de saúde do deputado.
Quem foi David Miranda?
David Michel dos Santos Miranda, mais conhecido como David Miranda, nasceu em 10 de maio de 1985 e teve uma trajetória de luta e superação. Nascido e criado na favela do Jacarezinho, na Zona Norte, o jornalista só conviveu com sua mãe durante os primeiros cinco anos de vida. Ela morreu quando ele estava prestes a completar 6 anos de idade.
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O político nunca conheceu o pai e após a morte de sua mãe foi criado por uma tia, faxineira que tem cinco filhos.
Ele começou a trabalhar ainda com 9 anos, chegando a ser caixa de casa lotérica, office boy, entregador de panfleto, despachante e operador de telemarketing.
Aos 13 anos, saiu da casa para morar com dois primos na favela do Rato Molhado, em Inhaúma, também na Zona Norte do Rio. David conheceu Glenn Greenwald em 2005 na praia de Ipanema, na altura da Farme de Amoedo, local bastante frequentado por LGBTs. Poucos meses depois estavam casados.
O casal então se mudou para os Estados Unidos. Lá, David se formou em jornalismo e se especializou em estrategista de marketing.
Ele coordenou a campanha pelo asilo a Edward Snowden no Brasil e trabalhou ativamente junto ao seu marido Glenn Greenwald nas revelações dos programas secretos de vigilância global dos Estados Unidos, efetuados pela sua Agência de Segurança Nacional. Em 2013 foi detido pelo governo britânico justamente pelo trabalho que realizou sobre a vigilância em massa.
O jornalista passou a se envolver na luta por direitos civis de gays e negros junto ao coletivo Juntos: a Casa da Juventude no Rio de Janeiro. Em 2014, se engajou nas eleições e filiou-se ao PSOL.
Ativista LGBT, em 2016 foi eleito como o primeiro vereador LGBT na história da Câmara do Rio. Miranda obteve 7.012 votos à época.
Em 2019, ocupou a vaga do deputado federal eleito Jean Wyllys, que decidiu não assumir o mandato e deixou o país devido a ameaças de morte. No mesmo ano, foi eleito pela revista ‘Time’ como um dos dez líderes da próxima geração.





















