De volta aos trilhos: o “Trem da Morte” reconecta fronteira de Mato Grosso do Sul à Bolívia após seis anos parado

11
Foto: Divulgação/Ferroviaria Oriental SA

Uma das travessias mais lendárias e temidas da América do Sul voltou a cruzar a fronteira: o Expresso Oriental, conhecido por todos como “Trem da Morte”, retomou suas viagens após seis anos de interrupção causada pela pandemia de covid-19.

A composição liga Puerto Quijarro, na fronteira boliviana com Corumbá, em Mato Grosso do Sul, até Santa Cruz de la Sierra, principal cidade da Bolívia — reabrindo uma estrada de trilhos que conecta povos, paisagens e histórias há décadas.

O nome que carrega história

O apelido sombrio não é à toa. Ao longo de mais de um século de existência, a ferrovia acumulou um histórico de descarrilamentos, infraestrutura precária e condições difíceis de viagem.

Na época de sua construção, a perda de vidas entre trabalhadores, somada à falta de saneamento e à disseminação de doenças como febre amarela e cólera, fez nascer o nome que atravessou gerações.

Mais tarde, o trem também foi usado para transportar doentes durante epidemias — consolidando, para o imaginário popular, a fama de “Trem da Morte”.

Apesar da reputação, nunca deixou de ser essencial: para comunidades isoladas, produtores e viajantes de toda a região, era — e volta a ser — a ligação possível entre o Brasil e o interior da Bolívia.

618 km, 20 horas e paisagens que poucos veem

A viagem começa, para os brasileiros, na estação de Puerto Quijarro, do lado boliviano, cidade gêmea de Corumbá. De lá, o trem parte todos os domingos, às 13h, em direção a Santa Cruz de la Sierra.

São 618 quilômetros de percurso, percorridos em cerca de 20 horas, com paradas intermediárias em El Carmen, Roboré e San José de Chiquitos.

A rota atravessa a região da Chiquitania, território de rara beleza natural e riqueza cultural, alvo de turistas e mochileiros que buscam experiências fora das rotas convencionais. No sentido de volta, a composição parte de Santa Cruz às sextas-feiras, também às 13h.

Pressão popular e capacidade ampliada

O retorno não caiu do céu. Moradores e prefeituras dos municípios beneficiados pressionaram por meses e anos para que o serviço fosse restabelecido.

A resposta veio com melhorias: a Ferroviária Oriental, responsável pela linha, ampliou a capacidade dos vagões em 32%, podendo levar agora até 248 passageiros por viagem.

As passagens são acessíveis e podem ser compradas na estação ou pela internet: a classe econômica custa cerca de R$ 48 e a classe Pullman, com mais conforto, aproximadamente R$ 72.

Mais do que um trem: uma fronteira que se reencontra

O retorno do Expresso Oriental significa muito mais do que a volta de um transporte. É a reconquista de uma conexão histórica entre Mato Grosso do Sul e a Bolívia — uma linha que não apenas transporta pessoas, mas mantém vivas ligações comerciais, familiares e culturais que a estrada de ferro criou.

A fama de “Trem da Morte” permanece, é verdade. Mas hoje, talvez, o nome signifique outra coisa: a resistência de um caminho que, mesmo com todas as dificuldades, nunca deixou de ser essencial.

E agora, de volta aos trilhos, ele segue — cruzando a fronteira, cortando a Chiquitania e levando consigo, mais uma vez, a esperança de quem precisa ir e voltar.