
Modelos indicam possibilidade de um dos episódios mais intensos do fenômeno, mas pesquisadores alertam que a força do aquecimento ainda depende da evolução do Oceano Pacífico nos próximos meses
O que acontece em uma faixa do Oceano Pacífico a milhares de quilômetros de Mato Grosso do Sul pode influenciar diretamente o regime de chuvas, as temperaturas e até o risco de incêndios no estado nos próximos meses. Projeções divulgadas em julho por centros internacionais de monitoramento climático apontam para o fortalecimento do El Niño no segundo semestre de 2026, com possibilidade de o fenômeno atingir seu auge entre novembro e dezembro.
Os modelos indicam que as águas superficiais do Pacífico Equatorial Centro-Leste podem apresentar anomalias de temperatura entre +3°C e +4°C na região do Niño 3.4. Se esse cenário se confirmar, o episódio poderá alcançar uma intensidade excepcional e ficar entre os mais fortes observados desde o início do monitoramento instrumental moderno.
Apesar dos números chamarem a atenção, pesquisadores ressaltam que ainda não é possível afirmar que 2026 terá um chamado “Super El Niño”. A intensidade definitiva dependerá da evolução conjunta das condições do oceano e da atmosfera ao longo dos próximos meses.
Segundo Thiago Rangel Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Ciências Atmosféricas (LCA) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), os modelos apresentam uma tendência consistente de fortalecimento, mas ainda existe margem importante de incerteza.
“Os modelos climáticos mostram, de forma bastante consistente, que o aquecimento do Pacífico continuará aumentando durante o segundo semestre. Entretanto, ainda não podemos afirmar que teremos um Super El Niño recorde. Estamos analisando cenários probabilísticos, e somente o monitoramento contínuo permitirá confirmar a intensidade que o fenômeno realmente alcançará”, explica.
O LCA é ligado ao Instituto de Física da UFMS, em Campo Grande, e acompanha continuamente as condições atmosféricas e oceânicas que influenciam o clima.
Modelos apontam para aquecimento excepcional
Uma das projeções que vêm chamando a atenção dos pesquisadores é a produzida pelo Climate Forecast System (CFS), desenvolvido pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
Algumas simulações chegaram a indicar valores próximos de +4,8°C de anomalia na região Niño 3.4 no fim de 2026, enquanto a média dos integrantes do conjunto de previsões permanece acima de +4°C para o período.
Já metodologias consideradas mais conservadoras, como o Relative Oceanic Niño Index (RONI), também apontam para um episódio de grande intensidade, com anomalias estimadas entre aproximadamente +3,3°C e +3,5°C.
Em julho, a NOAA informou que o El Niño já estava estabelecido e que deveria continuar se fortalecendo até o fim do ano. Naquele momento, a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 estava cerca de 1,2°C acima da média, enquanto o órgão estimava 97% de probabilidade de manutenção do fenômeno até o início da primavera de 2027.
Outro sistema de previsão experimental da NOAA, o SPEAR, também apontou em julho para a intensificação de um El Niño muito forte durante o outono e o início do inverno do Hemisfério Norte. Todos os 30 membros do conjunto de simulações projetaram um pico pelo menos comparável aos eventos mais fortes registrados no último século.
Ainda assim, existe uma limitação conhecida pelos especialistas como “barreira de previsibilidade da primavera”, período em que a capacidade dos modelos climáticos de antecipar com precisão a intensidade do fenômeno é menor.
De acordo com Thiago, um episódio é classificado como muito forte quando as anomalias da temperatura da superfície do mar permanecem próximas ou acima de +2°C por vários meses consecutivos.
Por que o El Niño interfere no clima?
O El Niño integra o sistema climático conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS) e ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial permanecem mais quentes que o normal durante um período prolongado.
Esse aquecimento modifica a circulação da atmosfera tropical e interfere no transporte de calor e umidade. Como consequência, regiões distantes do Pacífico podem registrar mudanças nos padrões habituais de chuva e temperatura.
“O aquecimento anômalo do Pacífico equatorial altera a circulação atmosférica em escala global, provocando mudanças significativas nos padrões de precipitação e temperatura em diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil”, afirma o pesquisador.
Quando o aquecimento é excepcionalmente intenso e persiste por vários meses, os efeitos podem ser ampliados, aumentando a possibilidade de eventos extremos, como ondas de calor, períodos de estiagem e chuvas intensas.
O que pode acontecer em Mato Grosso do Sul
Os efeitos do El Niño não são iguais em todo o Brasil. Historicamente, o fenômeno está associado ao aumento das chuvas na Região Sul, enquanto partes do Norte e Nordeste tendem a enfrentar condições mais secas e temperaturas acima da média.
Em Mato Grosso do Sul, o comportamento pode ser mais complexo. A posição geográfica do estado e a influência do transporte de umidade vindo da Amazônia fazem com que os efeitos dependam também da atuação de frentes frias, sistemas de baixa pressão e outros mecanismos atmosféricos.
Uma das tendências observadas durante episódios de El Niño é de maior atuação de sistemas que favorecem a ocorrência de chuva no centro-sul do continente.
No estado, a região sul pode apresentar períodos mais chuvosos, enquanto áreas do norte e oeste podem ter respostas mais irregulares.
No Pantanal, mudanças na distribuição das precipitações podem alterar o ciclo de cheias e vazantes dos rios, com reflexos sobre a biodiversidade, a pecuária, a navegação e o turismo.
No Cerrado, por outro lado, a irregularidade das chuvas representa um desafio especialmente importante para a agricultura.
Outro ponto de atenção é o risco de incêndios. Caso períodos de calor e baixa umidade coincidam com fases naturalmente mais secas, a vegetação pode ficar mais suscetível ao fogo, tornando o acompanhamento das condições meteorológicas e da umidade da vegetação ainda mais importante.
Agronegócio pode sentir os efeitos
A produção rural está entre as atividades mais sensíveis às mudanças provocadas pelo El Niño. O impacto, porém, não depende apenas de chover mais ou menos.
O momento em que a chuva ocorre pode ser decisivo para o resultado de uma safra.
“Não está apenas na quantidade total de chuva, mas também na forma como ela se distribui ao longo da estação de cultivo. A irregularidade das precipitações pode comprometer significativamente a produtividade agrícola”, afirma Thiago.
Culturas como soja, milho, algodão, feijão e cana-de-açúcar podem ser prejudicadas tanto pela falta quanto pelo excesso de água, dependendo da região e da etapa do ciclo produtivo.
Chuvas excessivas durante o plantio ou a colheita podem dificultar as operações no campo. Já períodos secos em fases importantes do desenvolvimento das plantas podem reduzir a produtividade.
Na pecuária, alterações na disponibilidade de água e na qualidade das pastagens também podem afetar o desempenho dos animais. Temperaturas elevadas podem aumentar o estresse térmico e favorecer condições propícias para determinados problemas sanitários.
Os efeitos podem se espalhar para além das propriedades rurais. Uma quebra de safra ou dificuldades provocadas por eventos extremos podem afetar o armazenamento, o transporte, as exportações e o abastecimento.
Chuvas também podem afetar estradas e rios
Os impactos de um El Niño forte não ficam restritos ao campo.
Períodos de chuva intensa podem elevar os custos de manutenção das rodovias, provocar dificuldades no transporte de cargas e atrapalhar o escoamento da produção agrícola.
No Pantanal, mudanças no regime de cheias também podem repercutir sobre o turismo e outras atividades econômicas ligadas aos rios.
A disponibilidade de água é outro ponto de atenção. Alterações no padrão de precipitação influenciam a recarga dos reservatórios, o nível dos rios e a oferta de água para consumo, irrigação e geração de energia.
Na saúde pública, períodos de calor e umidade podem criar condições favoráveis à proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, chikungunya e zika.
Chuvas intensas também podem aumentar riscos relacionados à contaminação da água, enquanto períodos prolongados de fumaça provocados por queimadas prejudicam a qualidade do ar.
Monitoramento pode ajudar a reduzir prejuízos
Apesar da possibilidade de um El Niño excepcionalmente forte exigir atenção, o fenômeno apresenta uma característica importante: sua evolução pode ser acompanhada com antecedência por meio de dados oceânicos e atmosféricos.
Isso permite que produtores, empresas e órgãos públicos antecipem decisões e adotem medidas para reduzir riscos.
Entre as estratégias estão o acompanhamento das previsões meteorológicas e climáticas, o planejamento da época de plantio, a escolha de cultivares mais adaptadas, o manejo do solo para melhorar a infiltração e retenção de água e o uso de irrigação quando houver viabilidade.
Ferramentas como monitoramento meteorológico em tempo real, balanço hídrico, estimativas de evapotranspiração e sistemas de alerta também podem auxiliar na tomada de decisões durante o ciclo produtivo.
É nesse cenário que o Laboratório de Ciências Atmosféricas da UFMS mantém pesquisas relacionadas à variabilidade climática, evapotranspiração, balanço hídrico, monitoramento ambiental e eventos extremos.
O trabalho busca transformar dados meteorológicos em informações que possam auxiliar produtores rurais, gestores públicos e outros setores da sociedade.
Para Thiago, incorporar a ciência ao planejamento é uma das principais formas de diminuir os impactos provocados pela variabilidade climática.
“O monitoramento contínuo permite que governos, produtores rurais e a sociedade se preparem com antecedência. Planejamento agrícola, gestão dos recursos hídricos, fortalecimento da infraestrutura e sistemas de alerta são ferramentas essenciais para aumentar a resiliência diante dos eventos climáticos extremos”, afirma.
O pesquisador reforça, porém, que a intensidade final do El Niño ainda não está definida. Os modelos podem sofrer alterações à medida que novas informações sobre o oceano e a atmosfera são incorporadas às previsões.
“Mais do que reagir aos eventos extremos, precisamos desenvolver uma cultura de prevenção baseada na ciência. Quanto mais cedo produtores, gestores públicos e a sociedade incorporarem as previsões climáticas ao planejamento, maiores serão as chances de reduzir prejuízos e aproveitar melhor as oportunidades de cada safra e de cada estação”, conclui.




















