Em discurso na ONU, Lula deve defender soberania e rejeitar interferência externa

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Lula na Assembleia Geral de 2025 (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Fala ocorre nesta terça-feira (22), em Nova York, durante a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas

A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre nesta terça-feira (22) o debate geral da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, com um discurso que deve combinar temas da política externa brasileira com mensagens sobre soberania, democracia e não interferência estrangeira. A eleição brasileira está marcada para 4 de outubro, 12 dias após a fala do presidente.

Lula deve defender que decisões sobre os rumos do Brasil e a escolha dos governantes cabem aos próprios brasileiros. A soberania nacional é apontada como um dos principais eixos do pronunciamento, em meio às tensões diplomáticas entre Brasília e Washington e às discussões sobre uma possível interferência externa na eleição.

O presidente, no entanto, deve evitar transformar o discurso em um confronto direto com Donald Trump. Segundo relatos de interlocutores e informações divulgadas antes da fala, a estratégia é defender a posição brasileira sem citar nominalmente o presidente americano em determinados trechos.

A expectativa é de que Lula também aborde o multilateralismo, a reforma do Conselho de Segurança da ONU, mudanças climáticas, inteligência artificial e o combate ao crime organizado. A negociação e a cooperação entre países devem ser apresentadas como instrumentos para enfrentar conflitos e problemas que ultrapassam fronteiras.

Soberania e eleição brasileira

O tema da soberania ganhou espaço na política externa brasileira após o aumento das divergências entre os governos Lula e Trump. O assunto também passou a fazer parte do debate eleitoral, especialmente diante de manifestações de autoridades americanas sobre questões relacionadas ao Brasil.

Em entrevista à CNN, Lula afirmou que Trump teria sinalizado que não pretende interferir na eleição brasileira. O presidente brasileiro disse esperar que esse posicionamento seja mantido e defendeu que os eleitores de cada país sejam responsáveis pela escolha de seus governantes.

Lula também manifestou preocupação com a possibilidade de interferência por meio de inteligência artificial e citou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao comentar a relação do governo dos Estados Unidos com integrantes do campo político ligado ao bolsonarismo.

As declarações ocorrem enquanto Lula disputa a reeleição e tem como adversário Flávio Bolsonaro (PL), em uma campanha que também passou a incorporar o debate sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos.

Crime organizado

Outro assunto previsto no discurso é o combate às organizações criminosas que atuam no Brasil e em outros países.

Lula deve defender a cooperação internacional para combater o tráfico de armas, o financiamento de grupos criminosos e outros crimes transnacionais. O governo brasileiro também tem rejeitado a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas feita pelos Estados Unidos.

A posição brasileira é de que o enfrentamento ao crime organizado deve ocorrer por meio de cooperação entre os países, troca de informações e ações contra as estruturas financeiras das organizações.

Discurso tradicional do Brasil

O pronunciamento de Lula ocorre na abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU. Desde 1955, o Brasil é tradicionalmente o primeiro país a discursar, seguido pelos Estados Unidos, país que abriga a sede da organização, em Nova York.

Esta será a décima vez que Lula fará o discurso de abertura da Assembleia Geral. Ele já ocupou a tribuna em 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2023, 2024 e 2025.

A programação deste ano reúne representantes dos 193 países-membros da ONU entre os dias 22 e 28 de setembro. O tema escolhido para o debate é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.

Lula e Trump em Nova York

Além dos discursos, a presença simultânea de Lula e Trump em Nova York mantém a expectativa sobre um eventual contato entre os dois presidentes.

Até o momento, não havia uma reunião bilateral formal confirmada. Os dois, porém, podem se encontrar durante a programação da Assembleia Geral, como ocorreu de maneira informal no ano passado.

Trump também terá uma agenda própria na ONU, com reuniões com líderes estrangeiros e discussões envolvendo conflitos internacionais, entre eles as guerras no Irã e na Ucrânia.

O discurso de Lula está previsto para a manhã desta terça-feira, seguindo a tradição de abertura brasileira do debate geral. A ONU informa que cada Estado-membro dispõe de 15 minutos para a manifestação, embora esse limite nem sempre seja seguido.

A fala do presidente ocorre, portanto, em um momento em que a agenda internacional e a disputa eleitoral brasileira se sobrepõem: temas como soberania, relações com os Estados Unidos, segurança, clima e inteligência artificial devem dividir espaço no pronunciamento que abre oficialmente a principal semana diplomática da ONU.