Escalada entre EUA e Irã coloca Oriente Médio novamente à beira de guerra

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(Foto: Shutterstock)

Série de ataques rompe entendimento firmado entre os dois países e amplia risco para o comércio mundial de petróleo

Menos de um mês após anunciarem uma trégua, Estados Unidos e Irã voltaram a trocar ataques militares e elevaram o risco de uma nova guerra em larga escala no Oriente Médio. A escalada teve início após um drone iraniano atingir um navio cargueiro no Estreito de Ormuz, reacendendo tensões que colocaram em xeque o acordo preliminar firmado entre os dois países.

O ataque ocorreu em 25 de junho e, apesar de não deixar vítimas nem provocar danos significativos à embarcação, desencadeou uma série de ações e represálias que, segundo analistas, levaram ao colapso do entendimento firmado dias antes para interromper os combates. Desde então, cada novo confronto ampliou a crise e aumentou o temor de impactos sobre a economia global e o abastecimento mundial de energia.

O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás comercializados no planeta em períodos de normalidade, voltou a ser o principal foco da disputa. O Irã passou a contestar o uso de uma rota marítima alternativa supervisionada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, alegando que o acordo lhe garantia autoridade para administrar o tráfego na região e até estabelecer futuras tarifas.

Washington e seus aliados rejeitam essa interpretação. Para os Estados Unidos, a passagem deve permanecer livre para a navegação internacional, sem qualquer tipo de pedágio ou restrição imposta por Teerã.

Ataques e represálias derrubaram acordo

A crise se agravou um dia após o ataque ao cargueiro, quando os Estados Unidos bombardearam instalações iranianas que, segundo o governo americano, eram utilizadas para operações com mísseis, drones e radares costeiros.

No dia seguinte, o Irã respondeu atacando um petroleiro que navegava pela rota alternativa do estreito. A reação americana foi imediata, com novos bombardeios. Em seguida, Teerã ampliou a ofensiva e passou a atingir alvos em países do Golfo que abrigam tropas dos Estados Unidos, como Bahrein e Kuwait.

Mesmo com uma tentativa de reaproximação mediada pelo Catar, as negociações não avançaram. As delegações dos dois países estiveram no emirado, mas não chegaram a realizar reuniões diretas.

Durante o funeral do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, morto nos ataques que deram início ao conflito meses antes, multidões pediram vingança contra o presidente americano Donald Trump. Poucos dias depois, o Irã voltou a atacar embarcações que cruzavam o Estreito de Ormuz.

Como resposta, os Estados Unidos realizaram uma ampla ofensiva contra sistemas de defesa aérea, radares e dezenas de embarcações da Guarda Revolucionária utilizadas para patrulhar e intimidar navios comerciais.

Além da ação militar, Washington restabeleceu sanções econômicas, revogando a autorização especial que permitia ao Irã vender petróleo no mercado internacional em dólares — uma das principais concessões previstas no acordo provisório.

Infraestrutura civil entra no centro da escalada

Nos últimos dias, os ataques deixaram de se concentrar apenas na região do Estreito de Ormuz e passaram a atingir áreas estratégicas do território iraniano.

Na sexta-feira (17), forças americanas bombardearam pontes, estações de energia e uma torre de vigilância marítima localizada em um importante porto do sul do Irã. Segundo autoridades iranianas, a nova ofensiva já provocou ao menos 46 mortes e mais de 400 feridos desde a retomada das hostilidades.

O governo iraniano considera que tanto os bombardeios quanto a retomada das sanções representam violações diretas do acordo firmado entre os dois países e reafirma que manter o controle sobre o Estreito de Ormuz é uma “linha vermelha intransponível”.

Como resposta, Teerã ampliou os ataques contra países vizinhos, atingindo alvos no Bahrein, Kuwait e Catar, este último responsável por mediar as negociações entre os dois governos.

Risco de guerra cresce

O presidente Donald Trump enviou sinais contraditórios sobre os próximos passos dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que afirmou que os bombardeios foram uma resposta necessária aos ataques iranianos contra navios e advertiu que novas ações terão consequências ainda mais severas, também indicou que não pretende prolongar uma campanha militar.

Apesar disso, os confrontos continuaram aumentando. Na quarta-feira (15), Washington voltou a bloquear portos iranianos, medida que havia sido suspensa durante a vigência do acordo provisório.

Nos últimos dias, o Irã também atacou uma usina de dessalinização de água no Kuwait, ampliando as preocupações de que a infraestrutura civil passe a ser alvo frequente dos dois lados.

Trump ainda chegou a mencionar a possibilidade de assumir o controle do Estreito de Ormuz por meio de uma operação militar, hipótese que exigiria grande mobilização naval e o envio de milhares de soldados à região.

Com sucessivas violações das condições negociadas e novas linhas vermelhas sendo ultrapassadas, o acordo firmado entre Estados Unidos e Irã praticamente perdeu efeito. Diplomatas ainda tentam evitar um conflito de maiores proporções, mas a perspectiva de uma nova guerra no Oriente Médio voltou a ganhar força, com potencial para afetar o mercado global de energia e ampliar a instabilidade na região.