Escritor assume cadeira 13 da instituição e destaca em discurso a mistura de português, espanhol e guarani que marcou sua trajetória
A fronteira que separa Brasil e Paraguai também foi, ao longo de décadas, o território literário de Brígido Ibanhes. Aos 78 anos, o escritor levou essa experiência para dentro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL) neste sábado (22), ao assumir a cadeira 13 da instituição, em solenidade realizada em Campo Grande.
“Nasci num país chamado fronteira, e de lá chego trazendo o sapicuá cheio do linguajar fronteiriço”, afirmou Ibanhes no discurso de posse. Sapicuá é uma espécie de bolsa usada por viajantes para carregar mantimentos — e, para o escritor, a imagem representa o repertório de palavras, histórias e memórias acumulado ao longo de sua trajetória.
Natural de Bella Vista Norte, no Paraguai, onde nasceu em 1947, Ibanhes foi registrado no Brasil, no distrito de Nunca-te-vi, pertencente a Bela Vista. A experiência entre os dois países marcou sua formação e se tornou uma das principais características de sua produção literária.
Na infância, aprendeu guarani e espanhol. O português veio com a escola e, posteriormente, durante a formação em seminário, teve contato com latim, inglês, francês e grego. Técnico em contabilidade, construiu carreira como escritor, pesquisador e ativista cultural, com uma obra voltada principalmente à memória, aos personagens e às tradições da região de fronteira. ” A fronteira é um país que se estende pelo leito do Rio Apa e une duas comunidades irmãs no sangue originário”, afirmou durante a cerimônia.
Onze livros e a memória da fronteira
Ao longo da carreira, Ibanhes publicou 11 livros entre contos, memórias e ensaios histórico-biográficos. Um dos trabalhos de maior repercussão é “Silvino Jacques: o último dos bandoleiros”, lançado em 1986 e que chegou à oitava edição em 2019.
A obra recupera a trajetória de Silvino Jacques, personagem que atuou na fronteira na primeira metade do século 20 e cuja história passou a integrar o imaginário regional.
Também fazem parte da produção do escritor “A Morada do Arco-Íris”, “Kyvy Mirim”, “Chão do Apa”, “Che Ru” e “Che Retã”. Os dois últimos títulos fazem referência, respectivamente, às expressões em guarani para “meu pai” e “minha terra”.
A literatura de Ibanhes combina pesquisa histórica, investigação jornalística e ficção, com destaque para a tradição oral, os mitos guaranis e as transformações sociais da faixa de fronteira. A produção do escritor também é utilizada em pesquisas acadêmicas sobre literatura fronteiriça e cultura de Mato Grosso do Sul.
Trajetória cultural
Além dos livros, Ibanhes participou da criação de instituições voltadas à cultura no estado. Foi membro-fundador e primeiro presidente da Academia Douradense de Letras, onde exerceu três mandatos alternados.
Também integrou o Conselho Municipal de Cultura de Dourados e a Câmara Setorial de Livro, Leitura e Literatura do Fórum Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul. Sua trajetória inclui ainda atuação em iniciativas ligadas aos direitos humanos, à cidadania e à defesa da memória regional.
A eleição para a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras ocorreu em junho deste ano. Ibanhes recebeu o maior número de votos para a cadeira 13, que ficou anteriormente com o professor J. Barbosa Rodrigues e com Antônio João Hugo Rodrigues, morto em 2023.
“Uma obra difícil de encaixar”
Durante a solenidade, a trajetória do novo acadêmico foi destacada pelos integrantes da instituição.
O acadêmico Samuel Medeiros fez a saudação oficial e afirmou que a produção de Ibanhes transita por diferentes gêneros, passando pela história, pelo romance e pela crônica.
O presidente da Academia, Henrique de Medeiros, classificou a trajetória do escritor como “a resistência e a vitória de um verdadeiro brasileiro, pela sua história de vida”.
Já o secretário-geral da instituição, Rubenio Marcelo, afirmou que a chegada do escritor reforça o compromisso da Academia com a literatura regional e, especialmente, com a produção literária de fronteira.
A cerimônia também teve apresentação cultural do poeta, ator e repentista Ruberval Cunha, criador do Improviso Guaicuru. Os acadêmicos Reginaldo Araújo e Valmir Batista Corrêa conduziram Ibanhes durante o rito de ingresso na instituição.
Academia tem 40 cadeiras
A Academia Sul-Mato-Grossense de Letras foi fundada em 30 de outubro de 1971, antes mesmo da criação de Mato Grosso do Sul. Inicialmente chamada de Academia de Letras e História de Campo Grande, adotou a denominação atual no fim de 1978, às vésperas da instalação do novo estado.
A instituição possui 40 cadeiras vitalícias, seguindo o modelo da Academia Brasileira de Letras, e tem entre seus objetivos a valorização da língua portuguesa, o incentivo à produção literária e a preservação da memória e do patrimônio cultural sul-mato-grossense.
Com a posse, Brígido Ibanhes passa a integrar oficialmente a Academia levando para a instituição uma literatura construída a partir de uma região onde português, espanhol e guarani convivem no cotidiano — e que, para ele, não é apenas uma linha no mapa, mas um lugar próprio de identidade e memória.
A própria Academia registra atualmente Ibanhes como titular da cadeira 13.





















