“É uma conquista imensa para meus familiares e amigos, e carrego comigo, inspirações de luta e determinação, cujo papel da minha mãe, Maria Lucia, como liderança indígena, representa para mim força e coragem! Espero que eu consiga inspirar e motivar mais pessoas, que assim como eu, acreditei na educação: Esse é nosso maior bem, e ninguém tira de nós!”, enfatiza Eliadja Raiany Freire de Moura, de 31 anos.

Ela é indígena Pankararu, uma dos três indígenas formados na primeira turma de Medicina da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Eliadja é de Tacaratu, Pernambuco, mas a princípio vai ficar em Mato Grosso do Sul, retribuindo para o Estado que a acolheu, e depois retornar para o seu Estado.

 A UEMS foi a primeira universidade Brasileira a garantir inclusão de indígenas (10% de vagas) em todos os cursos de graduação. A Vice-reitora da UEMS, a professora Celi Corrêa Neres, ressalta que UEMS tem na sua história a marca do sistema de cotas e da inclusão social. “O trabalho que a UEMS desenvolve em relação a toda a política de inclusão e, especificamente a política de cotas, é a materialização da própria missão da UEMS no sentido de permitir o acesso a educação superior para grupos que históricamente foram alijados desse processo”, destacou a vice-reitora que é especialista na área de Educação Especial.

“Espero motivar mais pessoas a acreditar na educação”, diz médica indígena formada pela UEMS

Para Eliadja de Moura as cotas são uma importante iniciativa de promoção da igualdade e de oportunidades, com o intuito de introduzir modificações de ordem cultural à medida que há diversidade.

“Um princípio do Sistema Único de Saúde (SUS) que retrata muito bem esse sistema é a equidade: tratar de forma desigual os desiguais. E quando falo desigual, não coloco na posição de vitimizado, mas me volto a todos aqueles que buscam nas oportunidades oferecidas, se destacar pela sua forca de vontade, e em ter sua história e de sua família mudada para melhor!”, ressalta.

Formar-se em medicina a desafiou e o sentimento de se formar na primeira turma de Medicina da UEMS é de gratidão por representar seu povo indígena e ser a primeira médica mulher da família. “Esse curso foi meu maior sonho, e hoje faço parte dessa história, construída por diversidades, pessoas de locais diversos do Brasil unidos pela vontade de fazer uma medicina de excelência!  Esse curso foi desafiador e apaixonante vivenciá-lo! Ele estimula o aluno a dar seu melhor e querer fazer uma medicina mais humana, mais sensível às questões biopsicossociais! Nos ensina a sermos resilientes, e que podemos fazer a diferença para melhor, onde quer que estejamos, pois está em nossa essência!”, reflete Eliadja Raiany.

A UEMS também foi a terceira Universidade no Brasil a adotar cota racial de 20% das vagas para negros em todos os cursos. Na 1ª Turma de Medicina da UEMS se formaram nove cotistas negros. Ronnyel dos Santos Pereira, de 25 anos, natural de Teresina, Piauí, foi um deles e ele comemora o momento da formatura, além de destacar que grandes responsabilidades vêm pela frente.

“Espero motivar mais pessoas a acreditar na educação”, diz médica indígena formada pela UEMS

Ronnyel Pereira diz que o sistema de cotas são de extrema importância, pois consegue fazer com que indivíduos negros e da periferia, como ele, consigam atingir posições sociais ainda dominadas por brancos. “Foi uma experiência como nenhuma outra. Na universidade tive tempo de me empoderar, reinventar e ter a consciência da importância de ser um homem negro em um curso de medicina. Acredito que ainda falta muito para que uma turma de formandos de medicina no Brasil seja composta por uma grande quantidade de negros. Porém a UEMS está no caminho certo para que essa modificação social seja possível”, afirma o médico formado pela UEMS Ronnyel Pereira.

Bianca de Freitas Lamanes, de 29 anos, de Uberlândia, Minas Gerais, também é completamente favorável ao regime de cotas para negros, pois as disparidades apresentadas na sociedade escancaram-se de forma alarmante, “o que, não raro, faz com que o curso seja visto como elitizado e inacessível. Perceber que a UEMS reduziu um pouco essa segregação, por meio do sistema de cotas, faz ter esperança de maior inclusão e representatividade social no ambiente acadêmico e mercado de trabalho”.

Ela lembra que ao ser classificada para o curso passou por uma banca avaliadora de cotistas e perguntaram a ela se em algum momento da vida, ela já havia sofrido discriminação em razão de suas características étnicas, e ela respondeu afirmativamente, por se lembrar de episódios na infância ocorridos até mesmo dentro da família.

“Espero motivar mais pessoas a acreditar na educação”, diz médica indígena formada pela UEMS

“Felizmente, tais situações têm cada vez menos frequência na minha vida e, estar na faculdade ao lado de colegas ainda mais representativos do que eu, faz com que eu tenha cada vez mais coragem para auxiliar pessoas em sofrimento. Ser primeira turma foi um desafio tão grande quanto me tornar médica, mas hoje me sinto honrada por representar um curso que me fez crescer tanto em tão pouco tempo”, relata a médica, Bianca de Freitas Lamanes.

Primeira Turma de Medicina

A UEMS realizou, no dia 21, a solenidade de Colação de Grau da 1ª Turma de Medicina desta Universidade que formou 47 médicos de 14 Estados brasileiros. A cerimônia ocorreu  em sistema de Drive In, no Estacionamento do Bloco A da Unidade Universitária de Campo Grande.

Dos formados na turma “Dr. Flávio Renato de Almeida Senefonte”, dezesseis são de Mato Grosso do Sul, doze de São Paulo, três de Minas Gerais, dois do Rio de Janeiro, um de Pernambuco, um de Tocantins, um da Bahia, dois de Goiás, dois de Mato Grosso, um de Rondônia, três do Paraná, um de Alagoas, um do Piauí e um do Maranhão. Trinta são do sexo feminino e dezessete do sexo masculino, sendo que três são cotistas indígenas e nove cotistas negros. Com esta configuração, a primeira turma se consolida como um Grupo que representa todos os Estados do país.

O curso, criado em 2015, teve o total de R$ 1, 5 milhão de investimento feito pelo Governo Estadual nos últimos anos, desde infraestrutura à contratação de docentes, passando pela aquisição dos materiais didáticos – livros e demais itens.

“Espero motivar mais pessoas a acreditar na educação”, diz médica indígena formada pela UEMS
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