Estoques zerados e médicos sem salário fecham referência em cirurgia pediátrica na Santa Casa

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Foto: PMCG

A Santa Casa de Campo Grande enfrenta uma crise de dupla face: insumos praticamente esgotados e equipes médicas se desligando por salários em atraso há quatro meses.

O resultado é a suspensão de cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais — restando apenas urgência e emergência — e o fechamento da ala de cirurgia cardíaca pediátrica, referência em todo o Mato Grosso do Sul.

Em resposta, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) anunciou um aporte emergencial de R$ 4 milhões para compra de insumos e montou força-tarefa com reuniões diárias entre Prefeitura, Estado e hospital para tentar conter o colapso e redistribuir atendimentos na rede.

Insumos prometidos, mas não entregues

A suspensão de procedimentos não é um fato inédito. No dia 29 de julho, a direção já havia comunicado suspensão de cirurgias e exames laboratoriais por falta de insumos, com prazo de 30 dias para resolução. O prazo se esgotou em 31 de agosto e a situação, longe de resolvida, se agravou.

“Estamos com estoques zerados e insumos escassos. Temos material apenas para os pacientes já internados”, confirmou a Dra. Izabela Falcão, diretora clínica da Santa Casa. Ou seja: além de não haver insumos para cirurgias agendadas, a própria urgência e emergência passaram a operar na linha limite da sobrevivência, sem margem para imprevistos.

O golpe que fechou a referência estadual: médicos saem sem receber

Paralelamente à falta de materiais, a crise financeira chegou ao ponto insustentável: salários de médicos atrasados há quatro meses. A tentativa de acordo com os profissionais contratados como Pessoa Jurídica (PJ) não avançou — apenas os contratados pela CLT permaneceram. O resultado: a equipe completa de cirurgia cardíaca pediátrica se desligou, levando ao encerramento da especialidade.

A medida é catastrófica para o Estado: a Santa Casa era referência única em cirurgia cardíaca pediátrica no Mato Grosso do Sul. Com a saída dos profissionais, a especialidade foi descredenciada na instituição. Crianças que aguardavam cirurgia ficaram sem atendimento — e sem para onde ir dentro do próprio Estado.

A saída de equipes também atinge anestesiologia, urologia e neurocirurgia, segundo o Sinmed (Sindicato dos Médicos), ampliando ainda mais os serviços comprometidos.

Resposta em menos de 24h: R$ 4 milhões e força-tarefa permanente

Diante do comunicado de suspensão, a Sesau reagiu em menos de 24 horas. Nesta quinta-feira, representantes da Prefeitura, do Estado e da Santa Casa definiram:

  • Repasse emergencial de R$ 4 milhões destinado exclusivamente à compra de insumos, a ser liberado após assinatura de termo aditivo nos próximos dias;
  • Força-tarefa com reuniões técnicas diárias para acompanhar leitos, serviços, recursos e necessidades;
  • Redistribuição de pacientes: a Sesau já negocia com outros hospitais da rede SUS a ampliação temporária de vagas e capacidade de atendimento;
  • Acompanhamento contínuo dos contratos para garantir que nenhum usuário fique desassistido.

“Nossa prioridade é proteger o usuário do SUS. Estamos buscando soluções que garantam a continuidade da assistência, mas também precisamos reorganizar toda a rede e aplicar cada recurso onde produzir maior benefício”, afirmou o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela.

O que o repasse não resolve

É fundamental destacar: os R$ 4 milhões cobrem insumos, mas não resolvem o atraso salarial que provocou a saída dos médicos. A crise tem duas raízes distintas e igualmente graves: a falta de materiais e a inviabilidade financeira de manter equipes.

Uma ala referência em todo o Estado não se reconstituirá com recursos para compras — depende de recontratação, de regularização de salários e de tempo para recompor uma equipe especializada que se formou ao longo de anos.

Enquanto a força-tarefa busca alternativas, a população sul-mato-grossense enfrenta uma realidade dura: a referência em cirurgia cardíaca pediátrica fechou. E crianças que dependiam desse atendimento agora aguardam — sem prazo e sem garantias — por uma solução que vai muito além de insumos e repasses emergenciais.