Fila dobra o quarteirão para trabalhar na Prefeitura, enquanto setores fecham por falta de gente

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Foto: Divulgação/CDLCG

Campo Grande registra uma cena que resume o descompasso do mercado de trabalho local. De um lado, lojistas outros setores relatam dificuldade para encontrar funcionários e mantêm vagas abertas por semanas. Do outro, filas que chegam a dobrar quarteirões se formam para conseguir uma senha do PRIMT, o Programa de Inclusão ao Mercado de Trabalho da Prefeitura. Há relatos de pessoas que dormem no local só para garantir a posição na fila.

O PRIMT substituiu o antigo Proinc e hoje mantém entre 1,4 mil e 1,5 mil participantes ativos, segundo dados da Fundação Social do Trabalho (Funsat). O programa distribui vagas temporárias em secretarias e autarquias municipais, com atividades como limpeza, conservação, obras públicas e atendimento a emergências. A jornada pode chegar a oito horas diárias, ajustada ao funcionamento do órgão de lotação, custeada por uma Prefeitura que fechou o primeiro semestre de 2026 com as despesas correntes acima do limite previsto na Constituição Federal e que carrega uma dívida bilionária com a previdência municipal.

A “bolsa-auxílio” paga aos participantes equivale a um salário mínimo. A exceção fica por conta das vagas destinadas à Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos, a Sisep, em que a remuneração ultrapassa 2.400 reais. O vínculo pode durar até 24 meses, com renovações semestrais, e o programa ainda oferece cesta básica, vale-transporte, alimentação durante as atividades e seguro contra acidentes pessoais. É importante destacar que o programa é voltado a moradores em situação de extrema vulnerabilidade social, inscritos no CadÚnico e desempregados há pelo menos três meses.

O contraste que incomoda

Enquanto o poder público monta estrutura para atender centenas de candidatos por dia em ações itinerantes, faltam trabalhadores em praticamente todos os setores da cidade: da indústria à construção civil, dos serviços à logística. E a própria Prefeitura confirma essa realidade. A Funsat abriu esta semana com 939 vagas de emprego disponíveis, distribuídas entre 122 profissões e oferecidas por 120 empresas da Capital. Na maior parte dos casos, não é exigida experiência prévia, e o treinamento é oferecido pelas próprias empresas contratantes.

O lojista abre a vaga, oferece carteira assinada, benefícios e perspectiva de carreira. Mesmo assim, não encontra candidato. A fila só aumenta quando a origem é o setor público, e não se forma quando a oportunidade é de emprego formal, com carteira assinada, na própria Funsat.

Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Campo Grande, Adelaido Figueiredo, o município comete um erro de prioridade ao criar cargos temporários em vez de fortalecer as condições para que o setor privado absorva essa mão de obra.

“É contraditório ver o poder público estruturar uma fila gigantesca para oferecer trabalho temporário, sem carteira assinada, com remuneração de um salário mínimo na maioria dos casos, enquanto a mesma Funsat tem, nesta semana, quase mil vagas de emprego formal disponíveis e sem fila. O varejo oferece emprego com plano de carreira e estabilidade, e não consegue preencher as próprias vagas. A Prefeitura precisa direcionar esse esforço para qualificar essas pessoas e criar incentivos que aproximem o trabalhador do comércio, não para competir com a iniciativa privada por mão de obra, ainda mais em um momento de contas apertadas”, afirma Adelaido.

Segundo o presidente, o caminho mais eficiente para reduzir o desemprego em Campo Grande passa por parceria entre poder público e setor produtivo, com foco em qualificação profissional voltada às necessidades reais das empresas, e não pela ampliação de programas assistenciais que mantêm o trabalhador fora do mercado formal por até dois anos.