Divulgação/UFMS

Nesta segunda-feira (19), foi dado início ao ensaio clínico da fase 3 do Brace Trial em Campo Grande. Por meio da ação, coordenada pelo professor e pesquisador da UFMS e da Fundação Oswaldo Cruz Júlio Croda será verificada a eficácia da Vacina BCG na redução do impacto da Covid-19 em trabalhadores de saúde. Na capital, devem ser recrutados dois mil voluntários.

O evento de lançamento do estudo ocorreu no anfiteatro da Faculdade de Medicina (Famed), na Cidade Universitária e contou com a presença da vice-reitora Camila Ítavo, do secretário estadual de Saúde Geraldo Rezende, da diretora da Fiocruz em MS Jilsaine Guilhermina, da secretária adjunta de Saúde do Estado Christine Maymone e do diretor da Famed Marcelo Vilela, profissionais de saúde, estudantes e professores.

“Estamos construindo algo muito importante aqui. A UFMS vem sendo referência junto ao MEC em ações de enfrentamento à Covid-19, não apenas na área de pesquisa, mas enquanto universidade pública na definição de ferramentas de gestão na atuação e combate ao novo coronavírus. Esperamos continuar a contribuir neste sentido e por isso não mediremos esforços para que tenhamos cada vez mais projetos como este. Parabenizo a todos os envolvidos”, disse a vice-reitora. “Quero agradecer e parabenizar especialmente nossa equipe de pesquisadores e estudantes. Ficamos muito felizes em apoiar e incentivar o desenvolvimento de estudos como esse”, falou o diretor da Famed.

Fonoaudióloga e enfermeiro serão os primeiros voluntários a testar vacina contra a covid na UFMS

Para a diretora da Fiocruz, a iniciativa do pesquisador Júlio Croda em trazer o estudo para Mato Grosso do Sul foi muito importante. “Essa pesquisa é uma ferramenta importante para o desenvolvimento de vacinas contra a Covid. O Brasil possui uma série de fatores, como o perfil demográfico, por exemplo, que podem auxiliar em estudos desta natureza. Em MS, temos uma equipe altamente qualificada e que garante que a pesquisa seja feita dentro dos padrões internacionais”, ressaltou Jislaine.

“É muito bom podermos atuar como protagonistas no processo de enfrentamento da pandemia. Agradeço a vice-reitora pela parceria que vimos firmando com a Universidade no desenvolvimento de ações na área da saúde, em especial, relacionadas à Covid-19. Hoje, a UFMS já tem um papel muito importante também na testagem e diagnóstico do novo coronavírus”, destacou o secretário de Saúde.

Fonoaudióloga e enfermeiro serão os primeiros voluntários a testar vacina contra a covid na UFMS

Os estudos

O Brace Trial envolve dez mil trabalhadores de saúde voluntários na Austrália, Reino Unido, Espanha, Holanda e Brasil. O projeto é liderado pelo pesquisador australiano Nigel Curtis do instituto de pesquisa Murdoch Children e financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates.

Fonoaudióloga e enfermeiro serão os primeiros voluntários a testar vacina contra a covid na UFMS

Na capital, os estudos contam ainda com a parceria da Cassems e da Secretaria Estadual de Saúde. Os trabalhadores que quiserem participar como voluntários devem realizar um pré-cadastro disponível aqui. “Podem participar todos os profissionais que atuam na área da saúde, não necessariamente precisam ter formação específica, como por exemplo, recepcionistas e motoristas de ambulância, podem ser voluntários”, explica Júlio. A expectativa é recrutar até 40 pessoas por dia. Segundo o professor, já há mais de mil pessoas cadastradas. Estudantes de graduação, pós-graduação, professores e servidores da UFMS integram a equipe que vai atuar na ação, além de 33 pessoas contratadas pela Fiotec, fundação de apoio à Fiocruz.

Após realizar o pré-cadastro, os voluntários devem se dirigir até a Faculdade de Medicina da Cidade Universitária. No local, será verificado se a pessoa se enquadra nos critérios de inclusão. “É preciso também ter mais de 18 anos, não ter sido diagnosticado com tuberculose ou Covid-19, não ter nenhuma contraindicação para receber a vacina BCG”, diz Júlio. Após, os voluntários assinam um termo de comprometimento concordando em participar do estudo.

De acordo com o pesquisador, após receberem a vacina BCG, durante duas semanas, haverá o acompanhamento para verificar se não houve qualquer reação local. Os voluntários serão acompanhados por um ano, por meio de ligações telefônicas semanais e se apresentarem qualquer sintoma sugestivo de da Covid-19, será ofertada a coleta domiciliar do swab nasal para avaliar a presença do vírus Sars-Cov2. Além disso, retornos periódicos serão agendados para verificar a presença de possíveis infecções assintomáticas através da sorologia.

O enfermeiro e professor da Famed Everton Lemos foi um dos voluntários recrutados hoje. “Estou orgulhoso em poder participar. Ainda mais porque o resultado da pesquisa pode indicar políticas públicas eficazes no combate a pandemia”, disse. Estudante do nono semestre de Medicina, João Pedro Bartolomei é um dos integrantes da equipe de estudos. “Estamos vivendo um momento atípico. Enquanto futuro profissional, é importante poder participar desta pesquisa, pois além de agregar à minha formação, já que possibilita o desenvolvimento de outras habilidades, como por exemplo, a interação com os voluntários e atuação em todos os processos que envolvem o estudo, além, claro, da aquisição de conhecimentos sobre a doença”, enfatizou.

A vacina BCG foi obtida pela primeira vez em 1921, mais de 120 milhões de crianças no mundo todo são vacinas ao nascer. Ensaios clínicos anteriores mostraram que ela reduziu as mortes em 38% em recém-nascidos na Guiné-Bissau, principalmente ao reduzir os casos de pneumonia e sepse. Ainda, estudos na África do Sul relacionaram a vacina a uma redução de 73% nas infecções no nariz, garganta e pulmões e experimentos na Holanda mostraram que a vacina reduziu a quantidade de vírus da febre amarela no corpo. Recentemente, em um ensaio clínico de revacinação com BCG em idosos, houve a redução de 79% de infecções respiratórias após um ano de acompanhamento.

Além de Campo Grande, no Brasil, serão realizados estudos também no Rio de Janeiro, envolvendo mil voluntários, coordenados pela pesquisadora Margarete Dalcolmo. “Na próxima semana, vamos iniciar os estudos também no hospital da Cassems, envolvendo os cerca de 700 trabalhadores da saúde”, conclui Júlio.

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