Governo cancela reunião com clubes sobre fim das bets após ausência de dirigentes

8
(Foto: Reprodução)

Encontro discutiria linha de crédito e período de transição para contratos de patrocínio já firmados

A reunião que o governo federal havia programado com clubes e representantes do futebol para discutir os efeitos do fim das bets foi cancelada nesta terça-feira (29), em Brasília. O encontro, que teria como um dos principais temas a criação de uma linha de crédito para compensar parte da perda de receitas dos clubes, foi esvaziado após dirigentes articularem a ausência.

A reunião estava prevista para as 15h e seria conduzida pelo Ministério do Esporte. O governo havia convidado a CBF para mobilizar representantes de clubes das quatro divisões do Campeonato Brasileiro e das federações estaduais. A intenção era discutir alternativas financeiras para o setor após a Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25), que proibiu as apostas de quota fixa e a publicidade relacionada à atividade.

Segundo informações divulgadas pelo Ministério do Esporte, o cancelamento ocorreu por questões logísticas. Nos bastidores, porém, clubes articulavam um boicote ao encontro em reação à forma como o governo anunciou a proibição das apostas e à falta de diálogo prévio sobre os impactos nos contratos de patrocínio.

Entre os clubes que indicaram que não participariam estavam Palmeiras, São Paulo, Santos, Chapecoense, Mirassol e Cuiabá. Corinthians, Internacional e Remo estavam entre os que haviam decidido enviar representantes.

Linha de crédito

Antes do cancelamento, uma das principais propostas que seriam discutidas era a criação de uma linha de crédito para ajudar os clubes a reorganizar as finanças após a perda de receitas provenientes dos contratos com empresas de apostas.

O governo vinha estudando um programa de reestruturação financeira do futebol, com possibilidade de até R$ 20 bilhões em linhas de crédito. A ideia em discussão inclui a possibilidade de substituir dívidas mais caras por financiamentos com juros menores, em operações que poderiam envolver o BNDES.

O formato do programa, os critérios para que os clubes tenham acesso aos recursos e as condições de pagamento ainda são objeto de negociação.

A proposta ocorre porque as casas de apostas se tornaram uma importante fonte de patrocínio para o futebol brasileiro. Segundo levantamento publicado pelo Máquina do Esporte, 13 dos 20 clubes da Série A tinham uma empresa de apostas como patrocinadora máster, e os repasses previstos para a elite do futebol chegariam a R$ 1,1 bilhão na temporada.

Clubes defendem período de transição

Além do crédito, dirigentes queriam discutir um período de transição para os contratos já firmados com empresas de apostas.

O Flamengo foi um dos clubes que criticou a mudança imediata das regras. A equipe defendeu previsibilidade para instituições e empresas que assumiram compromissos durante o período em que o mercado estava regulamentado.

O clube também argumentou que os efeitos financeiros não ficariam restritos às equipes de maior receita e poderiam atingir categorias de base, futebol feminino, esportes olímpicos, fornecedores, empresas de comunicação, marketing e tecnologia, além de arenas e outros prestadores de serviços.

O Fluminense também defendeu uma transição para contratos já existentes. O clube citou, inclusive, compromissos relacionados à produção e comercialização de produtos oficiais que ainda carregam a marca de patrocinadores do setor.

O que prevê a MP

A Medida Provisória nº 1.394/2026 foi assinada por Lula na sexta-feira (25). A norma proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, além de jogos de cassino on-line. A MP tem força de lei, mas precisa ser analisada pelo Congresso Nacional para se tornar definitiva.

A medida também estabelece regras para o encerramento das operações e para a devolução dos valores que permanecerem nas contas dos apostadores. Conforme o calendário divulgado após a publicação da MP, os usuários têm prazo para retirar os recursos depositados nas plataformas antes da desativação dos serviços.

O governo afirma que a decisão foi tomada diante dos efeitos das apostas sobre o endividamento das famílias e outros impactos sociais relacionados ao setor.

Reação no futebol

A proibição provocou reação entre os principais clubes brasileiros, que já haviam divulgado um manifesto conjunto antes da assinatura da MP. As equipes reconheceram preocupações sociais relacionadas às apostas, mas destacaram a importância econômica que o setor passou a ter para o futebol.

Parte dos clubes também avalia medidas jurídicas contra os efeitos da MP. Dirigentes de equipes paulistas, por exemplo, decidiram aguardar as negociações com o governo antes de avançar com uma eventual judicialização.

O Palmeiras, por sua vez, informou que não pretende recorrer ao programa de crédito que vinha sendo discutido pelo governo. O clube afirmou ter situação financeira que permite enfrentar a mudança sem recorrer à linha de financiamento proposta.

Com o cancelamento da reunião desta terça-feira, ainda não há nova data definida para o encontro entre governo, clubes e entidades do futebol. A discussão sobre os efeitos financeiros da proibição das bets, portanto, deverá continuar por meio das negociações entre as partes.