
Murais abordam temas como desigualdade, gênero, educação, trabalho e preservação da água e da biodiversidade
Muros de cinco escolas municipais de Campo Grande ganharam novas cores e passaram a contar histórias sobre educação, igualdade, saúde e preservação ambiental. Ao longo deste mês, artistas mulheres transformaram espaços das unidades de ensino em grandes painéis inspirados nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), aproximando arte urbana, educação e realidade das comunidades escolares.
A iniciativa faz parte do projeto “Ação Educativa – ODS nos Muros”, desenvolvido pela Fuá Produções, que levou oficinas e intervenções artísticas para escolas da Capital. O encerramento das atividades ocorre nesta quinta-feira (27), na Escola Municipal Indígena Sulivan Silvestre Oliveira, na Aldeia Urbana Marçal de Souza, com uma oficina educativa e de criação.
Ao todo, cinco muralistas foram selecionadas por meio de uma chamada pública: Marilena Grolli, Lais Rocha, conhecida como Bejona, Ariadne Dino, Kami Macena e Thalya Veron. As artistas representam diferentes gerações, trajetórias e estilos dentro da produção cultural de Mato Grosso do Sul.
Segundo a idealizadora e coordenadora do projeto, Julia Basso, a seleção buscou reunir profissionais com diferentes experiências e linguagens. “Buscamos diversidade de traços, técnicas e trajetórias — reunindo artistas experientes e nomes da nova geração”, explica.
Arte urbana conectada ao território
Entre os murais está o trabalho da artista indígena Marilena Grolli, que utilizou o tema “Vida na Água” para criar uma obra inspirada no Pantanal e na preservação dos recursos naturais.
Com mais de três décadas de atuação no grafite, Marilena destaca a presença feminina em uma área que, segundo ela, durante muito tempo foi predominantemente masculina. “Quando comecei no grafite, há 33 anos, praticamente não havia mulheres. Estar aqui é uma honra, pois a arte urbana carrega a força do hip-hop e da periferia”, afirma.
Para o mural, a artista criou a “Peixa — a Capenga”, apresentada como uma entidade protetora do ecossistema. A proposta aproxima o conteúdo dos ODS da realidade de Mato Grosso do Sul, onde o Pantanal ocupa uma parcela significativa do território e se tornou um dos principais símbolos ambientais do Estado.
A obra também busca estimular a reflexão sobre a relação entre água, biodiversidade e identidade regional.
Crianças ajudam a construir os murais
A participação dos estudantes foi um dos pontos centrais do projeto. Antes da pintura dos muros, as escolas receberam atividades educativas relacionadas aos ODS trabalhados em cada unidade.
A artista Lais Rocha, a Bejona, recém-formada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ficou responsável por representar os temas “Saúde e Bem-Estar” e “Trabalho Decente e Crescimento Econômico”.
Para ela, o contato com os alunos influenciou diretamente a criação da obra. “O diálogo realizado nas oficinas me ajudou a perceber uma perspectiva diferente através do olhar das crianças. Isso foi muito necessário para a produção do croqui”, conta.
A experiência também marcou a trajetória da artista Ariadne Dino, que atua há cerca de 20 anos no meio artístico e foi responsável pelo mural sobre “Educação de Qualidade”.
Para realizar o trabalho, ela decidiu experimentar uma técnica diferente. “Escolhi o spray porque o muro era bem texturizado. Foi minha segunda pintura com spray, pois sempre usei pincel”, relata.
Ariadne também incorporou elementos surgidos durante as atividades com os estudantes. Um dos materiais produzidos em oficina resultou em um estandarte sobre acreditar nos próprios sonhos. “A pintura de um estandarte sobre acreditar nos próprios sonhos me fez voltar à infância, lembrei do quanto almejava trabalhar com arte — e hoje estou aqui”, afirma.
Murais deixam legado nas escolas
Além de mudar visualmente os espaços, o projeto pretende fazer com que os conteúdos trabalhados permaneçam no cotidiano dos estudantes.
Na Escola Municipal Dr. Eduardo Olímpio Machado, a professora de Arte Auriellen Leonel acompanhou as atividades e destacou o envolvimento dos alunos durante o processo. “Percebi a motivação e o comprometimento dos estudantes em se responsabilizar pela continuidade do processo”, afirma.
Para a professora, a iniciativa também criou um espaço de escuta e expressão para crianças e adolescentes. “Como professora, tive o prazer de acompanhar tudo isso de perto”, diz.
A proposta, segundo ela, permitiu que os estudantes percebessem que a construção de um projeto coletivo depende da participação de alunos, professores, gestão escolar, artistas e comunidade.
Cinco escolas receberam as intervenções
Cada unidade recebeu uma obra relacionada a diferentes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Na Escola Municipal Indígena Sulivan Silvestre Oliveira, na Aldeia Urbana Marçal de Souza, o mural aborda o ODS 15, relacionado à Vida Terrestre, com trabalho da artista Kami Macena.
Na Escola Municipal Dr. Eduardo Olímpio Machado, o mural de Lais Rocha aborda os ODS 3, de Saúde e Bem-Estar, e 8, de Trabalho Decente e Crescimento Econômico.
A Escola Municipal Plínio Mendes dos Santos recebeu uma obra de Thalya Veron inspirada nos ODS 10, de Redução das Desigualdades, e 5, de Igualdade de Gênero.
Já a Escola Municipal Professora Elizabel Maria Gomes Salles recebeu o trabalho de Ariadne Dino, dedicado ao ODS 4, de Educação de Qualidade.
Na Escola Municipal Professor Acídio Pimentel, o mural de Marilena Grolli aborda o ODS 14, de Vida na Água.
Mulheres ganham espaço na arte urbana
Para a organização, o projeto também deixa como resultado a ampliação do mapeamento de artistas mulheres que atuam em Mato Grosso do Sul.
A chamada pública utilizada para selecionar as muralistas permitiu reunir portfólios e informações de profissionais de diferentes gerações e estilos. “Estruturamos um banco de dados vivo com o portfólio de diversas artistas, fundamental para movimentar a cadeia cultural e conectar essas mulheres, profissionais, a projetos futuros”, explica Julia Basso.
Dessa forma, os muros das escolas passam a funcionar não apenas como espaços de exposição, mas como ferramentas permanentes de educação e convivência. A proposta é fazer com que os estudantes encontrem, no caminho diário pela escola, referências visuais para discutir temas que ultrapassam a sala de aula.
O projeto “Ação Educativa – ODS nos Muros” conecta, assim, três elementos: a produção artística de mulheres, a participação dos estudantes e os desafios sociais e ambientais previstos na Agenda 2030 da ONU.











