O Casulo Espaço de Arte e Cultura, em Dourados, realiza nesta sexta-feira (9) o segundo e último dia da formação sobre o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) voltada à identificação, documentação, reconhecimento e valorização das línguas que integram a diversidade cultural brasileira. Iniciada na quinta-feira (8), a atividade conta com a parceria de indígenas Guarani Kaiowá, pesquisadores da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e gestores culturais, com a participação da equipe técnica do Iphan.
No primeiro dia, a programação apresentou às lideranças indígenas e aos pesquisadores os objetivos, conceitos e metodologias do INDL. Nesta sexta-feira (9), a formação avança para uma etapa mais técnica, com orientações para os procedimentos de pesquisa e documentação. A proposta é preparar a equipe local para coletar áudios, vídeos, registros dos usos da língua e outros materiais que possam subsidiar sua inclusão no Inventário Nacional da Diversidade Linguística.
“No primeiro dia, a equipe do Iphan fez uma formação para as lideranças indígenas e pesquisadores, explicando o que é o Inventário Nacional da Diversidade Linguística. Foi uma parte mais teórica e hoje o trabalho é mais técnico mesmo”, explica Julia Aissa, coordenadora do Casulo.
Para Fineida Concianza, Nhandecy Guarani Kaiowá e liderança espiritual feminina do povo, preservar a língua está diretamente relacionado à manutenção da identidade e das raízes culturais. “O português a gente precisa aprender em segundo lugar. Em primeiro lugar, aprender a língua de nós, porque é manter nossas raízes”, pontua.
Povos originários – De acordo com o Iphan, a documentação e o diagnóstico da vitalidade das línguas são etapas fundamentais para sua inclusão no INDL e para seu reconhecimento como referência cultural brasileira. A iniciativa ganha relevância diante dos desafios enfrentados pelas línguas indígenas no Brasil.
Segundo dados do Inventário Nacional da Diversidade Linguística, existem 295 línguas indígenas faladas no país, mas 130 delas são utilizadas por grupos com menos de cem pessoas ou até mesmo por uma única pessoa. A língua Guarani Kaiowá está entre as línguas indígenas com maior número de falantes, com 38.658 pessoas, segundo dados do Censo 2022.
“A língua Guarani Kaiowá, assim como todas as línguas indígenas brasileiras, corre risco de desaparecimento. São vários os fatores, especialmente devido à intensidade de contato com o português e à perda de espaço de uso da língua nativa em seus próprios territórios. A realidade sociolinguística do povo Kaiowá no estado é muito variável, a depender de onde a língua é falada. Um dos objetivos do projeto INDL é diagnosticar essa realidade em cada área, mas sabemos que em muitas delas a criança já tem aprendido o português como primeira língua, em outras, o português entra como segunda língua de forma muito precoce, sobretudo por meio da escola e por meio das tecnologias digitais, mas há áreas em que a língua nativa busca fortalecimento, sendo transmitida de geração em geração e usada o tempo todo no dia a dia da comunidade, sobretudo em conversações entre velhos, adultos jovens e crianças”, afirma o professor e pesquisador da UFGD, Dr. Andrébio Martins.
Para o pesquisador, o processo de inventário também representa uma forma de reconhecer a importância da língua e contribuir para sua permanência. “Inventariar a língua é reconhecer a sua importância, a sua existência e viabilizar a sua permanência, uma vez que ela é um vetor da tradição cultural e o meio de identidade étnica fundamental para os Kaiowá”, completa.
“O processo de inventário de língua não é só importante para o governo e o município. Ele é importante especialmente para o próprio povo porque quando você tem esse inventário o povo pode pensar em sua língua e quais caminhos para preservar e perpetuar o conhecimento ancestral entre os mais jovens, inclusive, pensando em políticas públicas”, explica a antropóloga e servidora do Iphan, Thaisa Yamauie.
Participam da formação do INDL a indígena Neusa Alziro, Nhandecy do povo Guarani Kaiowá; Geisabel Veron, pesquisadora; Thaisa Yamauie e Daniel Araújo, do Iphan; Marti Méndez, pesquisador; e Julia Aissa, coordenadora do Casulo Espaço de Arte e Cultura.
A ação conta com recursos do Iphan e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura (MinC), por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) e da Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (Setesc). A iniciativa também conta com o apoio da Comunidade Panambizinho, da Aty Guasu Geral e da Retomada Jovem Indígena (RAJ). Outras informações acesse o Instagram @casulodourados.
Serviço:
Formação do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL/Iphan)
Data: Sexta-feira (9)
Horários: 8h às 11h30 e das 13h às 17h
Local: Casulo Espaço de Arte e Cultura
Endereço: Rua Reinaldo Bianchi, 398 – Dourados (MS)





















