Itamaraty cobra explicações da Argentina sobre saída de Flávio Bolsonaro para os EUA

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(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom - AB)

Diplomata argentina foi chamada ao Ministério das Relações Exteriores após suspeitas de participação do governo Milei na viagem do senador. Oposição no país vizinho também pede investigação sobre o caso

A conversa ocorreu na sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. Cortés foi recebida pelo embaixador João Marcelo Galvão de Queiroz, responsável pela área de América do Sul do Itamaraty. O encontro foi breve e teve como objetivo solicitar informações sobre uma possível atuação de integrantes do governo argentino na passagem do senador pelo país.

O pedido de esclarecimentos ocorre após Flávio deixar o Brasil na noite de terça-feira (27), acompanhado da mulher e das duas filhas, pela fronteira com a Argentina. A viagem terminou na manhã de quarta-feira (28), quando o grupo chegou a Miami, nos Estados Unidos.

De acordo com a Direção Nacional de Migrações argentina, a família entrou no país às 22h50, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú, na província de Misiones. O órgão informou que os quatro apresentaram documentos de viagem válidos e não tinham impedimentos legais para ingressar em território argentino.

Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, eles embarcaram em um avião particular com destino a Guayaquil, no Equador. Após uma parada para reabastecimento, a aeronave seguiu para os Estados Unidos e pousou em Miami por volta das 10h24, no horário de Brasília.

Reportagem aponta ajuda de aliados de Trump

A viagem também passou a ser investigada após a publicação de uma reportagem do jornal norte-americano The New York Times. Segundo o veículo, o avião particular utilizado por Flávio e pela família teria sido providenciado por Jason Miller, integrante da equipe de comunicação da Casa Branca e aliado do presidente Donald Trump.

A reportagem afirma que Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, manteve contato com Miller durante a organização do deslocamento. O plano teria sido colocado em prática depois que Flávio recebeu determinação para entregar seus passaportes às autoridades brasileiras.

Ainda segundo o jornal, o governo norte-americano autorizou a entrada do senador e dos familiares por meio de uma modalidade migratória temporária conhecida como parole. Trump também afirmou publicamente que havia dado a Flávio uma espécie de autorização especial para entrar nos Estados Unidos.

As informações aumentaram a repercussão internacional do caso e levantaram questionamentos sobre a participação de aliados políticos de Trump e Milei na saída do senador brasileiro.

Oposição argentina cobra investigação

A passagem de Flávio pela Argentina também provocou reação de parlamentares contrários ao governo de Javier Milei. Deputados de diferentes partidos apresentaram pedidos de esclarecimento e iniciativas para que integrantes do Executivo expliquem as circunstâncias da entrada do brasileiro e a organização do voo particular.

Entre os pontos que os parlamentares querem esclarecer estão a eventual participação de autoridades argentinas, o papel de Santiago Caputo, assessor próximo de Milei, e a possível utilização de estruturas públicas para facilitar o deslocamento.

As suspeitas, no entanto, ainda precisam ser apuradas. Os questionamentos apresentados pela oposição não comprovam, por si só, a participação do governo argentino na viagem.

O governo de Milei se manifestou por meio do porta-voz Adrián Ravier. Na ocasião, ele afirmou que Flávio Bolsonaro não havia solicitado asilo político à Argentina. “Em relação a Bolsonaro, não há nenhum pedido de asilo. Portanto, não há mais nada a acrescentar”, declarou.

Relação entre Brasil e Argentina

O episódio ocorre em um momento de tensão nas relações entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Javier Milei. A convocação da representante argentina foi uma iniciativa diplomática para buscar informações, sem que o Itamaraty tenha anunciado uma medida mais dura contra o país vizinho.

A eventual participação de autoridades argentinas na saída de Flávio é um dos pontos que Brasília pretende esclarecer. A repercussão do caso pode acrescentar um novo capítulo ao desgaste entre os dois governos, que já enfrentam divergências políticas e diplomáticas.