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domingo, 31 de agosto, 2025
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Metade das famílias que recebem Bolsa Família deixa o mercado de trabalho, aponta FGV

Um estudo do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) mostra que o Bolsa Família tem provocado efeitos significativos na participação de seus beneficiários no mercado de trabalho. De acordo com a pesquisa, conduzida pelo economista Daniel Duque, a cada duas famílias que recebem o benefício, uma deixa de trabalhar.

A análise considera a ampliação do valor médio do programa para cerca de R$ 670 em 2023. Entre os beneficiários, a taxa de participação no mercado de trabalho caiu 11% em comparação com o grupo não apto a receber o auxílio. As chances de estar ocupado e de ter emprego formal caíram 12% e 13%, respectivamente, sobretudo entre homens jovens de 14 a 30 anos nas regiões Norte e Nordeste.

Segundo Duque, muitos beneficiários evitam empregos formais por temerem perder o benefício. “A percepção de risco sobre a renda segura do Bolsa Família pesa mais em muitos casos do que o apego à renda de um trabalho formal”, explicou.

Efeitos de longo prazo

O pesquisador alerta que adiar o primeiro emprego pode ter consequências graves para a trajetória profissional dos jovens. “O primeiro emprego é uma das experiências mais importantes para a trajetória de renda ao longo da vida. O adiamento reduz o aprendizado de habilidades socioemocionais, disciplina e experiência prática. No longo prazo, isso pode reduzir a renda em cerca de 10%”, disse Duque à CNN.

Ele acrescenta que o impacto é maior no Norte e no Nordeste, onde os salários médios são mais baixos e o benefício pode se aproximar da remuneração de mercado.

Sugestões para ajustes no programa

Duque defende que os recursos sejam redirecionados para grupos mais vulneráveis, como mães com filhos pequenos ou jovens que abandonaram a escola por necessidade financeira. Ele sugere também integrar o Bolsa Família a políticas educacionais e de qualificação, reforçando programas como o Pé-de-Meia, que estimula a conclusão do ensino médio. “Não vejo por que não usar o Bolsa Família para garantir alguma renda para o estudante continuar sua etapa de ensino, inclusive no técnico”, destacou.

Crescimento e ajustes recentes

Criado em 2003, o Bolsa Família pagava em média R$ 190 em 2019, beneficiando 14 milhões de famílias. Em 2023, o valor médio mais que triplicou, chegando a R$ 670, e o número de beneficiários alcançou 21 milhões de famílias. O orçamento anual passou de R$ 35 bilhões em 2017 para R$ 170 bilhões.

Apesar da ampliação, a taxa de participação no mercado de trabalho não voltou ao nível pré-pandemia. Antes da crise sanitária, era de 63,6%. Caiu para 57,3% em 2020, subiu até 62,7% em 2022 e recuou novamente com o aumento do benefício, chegando a 61,6% em 2023. No primeiro trimestre de 2025, estava em 62,2%, ainda abaixo do patamar de 2019.

Nova regra de proteção

Desde junho, famílias que ultrapassarem o limite de renda de R$ 218 per capita podem permanecer no programa por até 12 meses, recebendo metade do benefício, desde que a renda não supere R$ 706 per capita.

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social afirma que a mudança busca focar em quem está em maior vulnerabilidade e garantir a sustentabilidade do programa, que hoje atende mais de 50 milhões de pessoas em todo o país.

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