“Pantanal Negro” estreia sexta em Corumbá e revela as memórias negras que sustentam o território

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Foto: Max Polimanti

Há um Pantanal que não cabe apenas nas paisagens de água espelhada, nos tuiuiús e nas novelas de pôr do sol. Um Pantanal que pulsa nos tambores, nas rezas baixas, nos quintais de terreiro, nas mulheres negras que sustentam memórias ancestrais e nos corpos que, há séculos, constroem silenciosamente a história da fronteira oeste do Brasil. É esse território vivo, espiritual e humano que ganha tela em Pantanal Negro, documentário que estreia na sexta-feira (15), às 19h, no Centro de Convenções do Pantanal de Corumbá, durante a programação do Festival América do Sul.

Com direção de Adriana Farias e Maxwell Polimanti, idealização, direção artística e produção executiva de Thayná Cambará, o longa-metragem de 86 minutos propõe um deslocamento urgente de olhar: sair da ideia do Pantanal como cenário exótico e compreender o território a partir das pessoas que o habitam. Entre memórias, espiritualidade, racismo estrutural, pertencimento e resistência, o filme constrói uma narrativa onde a presença negra deixa de ser margem e ocupa o centro da história pantaneira.

“Pantanal Negro” estreia sexta em Corumbá e revela as memórias negras que sustentam o território
Foto: Max Polimanti

A semente do projeto nasceu em 2023, quando Adriana e Maxwell estiveram em Mato Grosso do Sul produzindo um documentário sobre ecoturismo. Foi em Corumbá, durante uma experiência de afroturismo conduzida pela Bela Oyá Pantanal, que os dois se depararam com um universo que mudaria os rumos do trabalho e também suas formas de enxergar o território.

“Pela primeira vez, eu tive a oportunidade de pisar em um terreiro e me aprofundar na cultura afro-brasileira. Ficamos emocionados, instigados e maravilhados com um Pantanal negro desconhecido não só por nós, mas para muita gente”, relembra Adriana Farias. “Quando encerramos o projeto anterior, eu saí com o coração partido porque sabia que estávamos diante de grandes personagens e de uma grande história que merecia ser contada.”

Foi então que nasceu o encontro entre a Eureka Film, MXP Produções e a Bela Oyá Pantanal. A partir da ideia original e das articulações territoriais construídas por Thayná Cambará ao longo dos anos, o filme começou a ganhar forma. “Pantanal Negro entra para ampliar o entendimento do que é o Pantanal e reposicionar o afroturismo como uma pauta estratégica. É sobre criar pontes entre mercado e memória, entre economia e identidade, entre o que se vende e o que precisa ser respeitado”, afirma Thayná.

No filme, o Pantanal deixa de ser apenas paisagem e passa a ser entendido como território habitado, atravessado por espiritualidades, apagamentos históricos e permanências culturais. “Existe uma tradição muito forte de representar a região apenas pela natureza espetacular. Mas, quando comecei a me aproximar de Corumbá através das pessoas, principalmente das mulheres negras, descobri um outro Pantanal completamente desconhecido para mim”, conta Adriana. “O desafio do roteiro foi deslocar esse olhar sem negar a beleza da região, mas entendendo que ela também é construída pelas pessoas que sustentam esse território todos os dias”.

“Pantanal Negro” estreia sexta em Corumbá e revela as memórias negras que sustentam o território
Foto: Max Polimanti

Entre as vozes presentes na narrativa estão lideranças religiosas, mestres da cultura popular, famílias tradicionais e personagens que revelam como a presença negra moldou a construção cultural de Corumbá. O Banho de São João, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, surge como um dos símbolos dessa travessia entre fé, território e ancestralidade.

Para Maxwell Polimanti, que assina a direção, fotografia e montagem, o processo exigiu delicadeza e escuta. “Buscamos um cinema que estivesse próximo das pessoas, respeitando o tempo, a espiritualidade e a verdade de cada personagem. Meu olhar esteve voltado para revelar a força presente nos gestos, nos cantos, nos rituais e nas paisagens desses encontros”.

Pantanal Negro se constrói como gesto de reconhecimento. Um filme que evidencia um território afro-pantaneiro muitas vezes invisibilizado, mas profundamente presente no cotidiano de Corumbá. “O principal impacto que esperamos é o da reconexão. Que as pessoas entendam que existe um Pantanal negro, ancestral, espiritual e profundamente humano”, afirma Thayná.

A estreia do filme acontece em um momento em que o afroturismo sul-mato-grossense ganha projeção nacional e internacional, impulsionado pelo trabalho da Bela Oyá Pantanal, primeira agência de afroturismo do Estado. Entre turismo, audiovisual e memória coletiva, Pantanal Negro convida o público a atravessar rios mais profundos: aqueles que correm dentro da história.

Além da estreia oficial no Festival América do Sul, “Pantanal Negro” também terá exibições e pré-lançamentos em diferentes cidades do país, ampliando o debate sobre afroturismo, memória e ancestralidade pantaneira. A circulação começou no dia 8 de maio, no Salão do Turismo em Fortaleza (CE), e ainda haverá exibições no dia 12 de maio, durante a ação “MS Sem Racismo: Territórios Quilombolas em Evidência”, na Secretaria de Estado da Cidadania, em Campo Grande/MS. No dia 18 de maio, o documentário participa de um pré-lançamento no evento “MS Especial por Natureza”, realizado pela Fundtur (Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul) no MASP , em São Paulo/SP. Já no dia 21 de maio, o filme integra a programação do Inspira Ecoturismo, realizado pelo Sebrae/MS, em Bonito, no Wetiga Hotel.

Pantanal Negro conta com investimento da LPG (Lei Paulo Gustavo), do Governo Federal, através do MinC (Ministério da Cultura), executado pelo Governo do Estado, por meio da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul), e tem apoio da Pantanal Film Comission.