Papa Leão XIV inicia primeira viagem à América Latina com visitas a três países

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Papa Leão XVI (Foto: Reprodução/Instagram/@vaticannewsit)

Pontífice ficará 12 dias entre Uruguai, Argentina e Peru em roteiro de aproximadamente 31 mil quilômetros, em meio à queda no número de católicos na região

O papa Leão XIV embarcou nesta sexta-feira (6), em Roma, para sua primeira viagem à América Latina desde que assumiu o comando da Igreja Católica. O roteiro, que segue até 17 de novembro, inclui passagens por Uruguai, Argentina e Peru, em uma jornada de aproximadamente 31 mil quilômetros que ocorre em meio à redução do número de católicos na região.

A viagem terá duração de 12 dias e será uma das mais longas do pontificado. Aos 71 anos, Leão XIV deverá visitar dez cidades, participar de celebrações religiosas, encontrar autoridades políticas, conversar com jovens e conhecer comunidades em regiões afastadas. O avião deixou o aeroporto de Fiumicino, na capital italiana, às 7h05 (horário local), com previsão de chegada a Montevidéu no fim da tarde.

O deslocamento ocorre poucas semanas depois de o pontífice passar por uma cirurgia para tratar um tumor cancerígeno no pulmão. Segundo informações divulgadas pelo Vaticano, ele está recuperado e não precisará de cuidados médicos especiais durante a viagem.

Roteiro passa por três países

A primeira parada será no Uruguai, onde o papa permanecerá até 8 de novembro. A programação inclui compromissos em Montevidéu, Paysandú e Florida. O país tem uma das menores proporções de católicos da América Latina, com cerca de 36% da população identificada com a religião.

Depois, Leão XIV seguirá para a Argentina, onde ficará entre os dias 8 e 11. O roteiro prevê visitas a Buenos Aires, Córdoba e Luján. A passagem pelo país terá um significado especial por ser a terra natal de seu antecessor, o papa Francisco, que morreu em abril de 2025 sem realizar uma visita ao país durante os 12 anos de pontificado.

A última etapa será no Peru, entre 11 e 17 de novembro. Leão XIV visitará Lima, Chiclayo, Cusco e Pucallpa. O país tem importância especial na trajetória do pontífice, que atuou como missionário e bispo na região durante décadas e também se tornou cidadão peruano.

Durante a viagem, estão previstas missas ao ar livre, encontros com representantes políticos e religiosos, atividades com jovens e visitas a comunidades distantes, algumas delas acessíveis por helicóptero. O papa também deverá abordar temas como pobreza, meio ambiente, violência e tráfico de armas.

Igreja perde fiéis, mas fé continua presente

A viagem ocorre em um momento de transformação religiosa na América Latina. Apesar de continuar sendo a região com a maior concentração de católicos do mundo, a Igreja enfrenta uma redução no número de pessoas que se identificam com a instituição.

Uma pesquisa do Pew Research Center, realizada em 2024 com mais de 6,2 mil adultos de seis países latino-americanos — Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru — identificou queda na proporção de católicos em todos eles na comparação com uma década antes.

O levantamento aponta que a participação católica diminuiu pelo menos nove pontos percentuais nos seis países. No Brasil, por exemplo, o percentual de adultos que se identificavam como católicos caiu de 61% em 2013-2014 para 46% em 2024. Na Argentina, a redução foi de 71% para 58%.

Outro dado chama a atenção: cerca de duas em cada dez pessoas adultas nos países pesquisados disseram ter sido criadas no catolicismo, mas deixaram de se identificar com a religião.

Apesar da mudança, a pesquisa mostra que a crença em Deus permanece forte. Em todos os seis países, aproximadamente nove em cada dez entrevistados ou mais afirmaram acreditar em Deus. O levantamento indica, portanto, que a redução da identificação com a Igreja não significa necessariamente o abandono da fé.

Jovens buscam novas formas de viver a espiritualidade

A mudança também aparece na maneira como parte dos fiéis se relaciona com a religião. Entre os mais jovens, cresce a procura por experiências espirituais fora das instituições tradicionais, como retiros, momentos de silêncio e práticas que combinam referências de diferentes crenças.

Na Argentina, o padre Jorge Reinaudo encontrou nas redes sociais uma forma de se aproximar desse público. Com vídeos que misturam humor, histórias bíblicas e assuntos populares na internet, ele reúne cerca de 800 mil seguidores em diferentes plataformas.

Para o religioso, muitas pessoas continuam interessadas em espiritualidade, mas já não consideram indispensável pertencer formalmente a uma instituição religiosa. A tendência também é observada por pesquisadores, que apontam uma relação cada vez mais individualizada com a fé.

O levantamento do Pew Research Center identificou ainda diferenças entre gerações: adultos com 50 anos ou mais são mais propensos a se declarar católicos do que aqueles com idade entre 18 e 34 anos.

Crescimento evangélico e mudanças sociais

Outro fator que ajuda a explicar a transformação do cenário religioso é o avanço das igrejas evangélicas, especialmente das comunidades pentecostais, que ampliaram sua presença em bairros urbanos e entre trabalhadores.

No Brasil, por exemplo, 29% dos adultos entrevistados pelo Pew se identificaram como protestantes em 2024, ante 26% em 2013-2014. A pesquisa também aponta o crescimento de pessoas sem religião em diferentes países da região.

As mudanças sociais e culturais também influenciam a relação da população com as instituições religiosas. A valorização das escolhas individuais e a busca por experiências pessoais de espiritualidade aparecem entre os fatores apontados por pesquisadores para explicar o afastamento de parte dos fiéis.

Casos de abusos e a falta de confiança em integrantes de instituições religiosas também são citados por pessoas que deixaram o catolicismo.

Visita pode aproximar fiéis da Igreja

Apesar dos desafios, a chegada do papa já provoca expectativa entre comunidades católicas dos países que fazem parte do roteiro. No Uruguai, religiosos relatam aumento na participação em missas e na procura por batizados e primeiras comunhões antes da visita.

Para representantes da Igreja, a presença do pontífice pode fortalecer o sentimento de pertencimento e estimular a aproximação de pessoas que se afastaram das atividades religiosas.

A viagem também representa uma oportunidade para Leão XIV retomar o contato com a região onde desenvolveu parte importante de sua trajetória religiosa, especialmente no Peru. Ao longo dos próximos dias, o papa deverá combinar compromissos institucionais com encontros populares e celebrações, em uma tentativa de reforçar a presença da Igreja Católica na América Latina.