Uma das primeiras mulheres a atuar na advocacia de Ponta Porã, que dedicou 31 anos de vida à carreira na área penal, lutando pela justiça aos direitos dos cidadãos, hoje, compartilha pouco de sua trajetória. Aos 75 anos, Belmira Vilhanueva só tem motivos para comemorar e sente que cumpriu com excelência a missão.

Apesar de ter concluído o curso de Direito em Campo Grande, no ano de 1982, foi na cidade que faz divisa com o Paraguai, onde nasceu em novembro de 1944, que Belmira constituiu história. À reportagem especial da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul (OAB/MS), ela fala das dificuldades no início da profissão em que precisou enfrentar tratamento machista da classe jurídica, e destaca que a persistência, competência, eficiência dos resultados somados à diferenciação do atendimento à clientela, lhe garantiram espaço de relativo destaque nas décadas de 1990 e 2000.

Segundo ela, na época a única vara federal competente era em Campo Grande e não existia peticionamento eletrônico. Como critério de segurança os documentos deveriam ser apresentados em originais no prazo de cinco dias e havia grandes dificuldades nessa logística. “As estradas eram mais precárias, não que as atuais sejam exemplos de qualidade, mas existe uma real melhora provocada pelo tempo e incremento de novas técnicas”, diz.

Pioneira na advocacia feminina de Ponta Porã, aos 75 anos Belmira Vilhanueva comemora carreira e compartilha experiências

O contato de Belmira com teclados começou com uma máquina mecânica de datilografia Remington. Depois, ela adquiriu uma “Praxis 20”, elétrica, cuja novidade era um corretor que retornava até uma linha, sem prejudicar o texto. “Anos depois, finalmente entrei na era dos computadores pessoais, tablets, celulares e todo tipo de parafernália de comunicação dos grupos digitais. Efetivamente não sei até que ponto melhoram tais facilidades ou se nos robotizaram a essência humana. Porém, para a celeridade do Mundo Fake e a tecnologia são inegavelmente promissoras e úteis”, opina.

Ao longo de sua trajetória, Belmira também lembra de lamentável episódio em delegacia que lhe permitiu Desagravo Público, realizado no plenário da OAB em Dourados. “Recordo-me de quando compareci à Delegacia da Polícia Federal de Dourados para fazer cópias de um processo, dentro do expediente. Ocasião em que fui impedida por agente. Consigne-se que o agente da lei não justificou o meu impedimento, limitando-se a obstruir-me a passagem em uma escada de acesso ao cartório. Após discussão inócua, subjugada pelo argumento da força bruta, tomei a atitude de fazer valer minhas prerrogativas profissionais e confrontei-me com o policial. Interviram na situação o delegado-chefe, agentes e advogados que estavam nas dependências. O policial foi desarmado e afastado de mim, que estava no exercício do direito”, rememora.

Belmira Vilhanueva tem dois filhos e compartilha a vida com Oscar Roque Mansilla, com quem se casou em 08 de março de 1985, “Dia Internacional da Mulher”. Ela encerra a entrevista deixando recado aos jovens advogados. “A atualização e o estudo são constantes imprescindíveis, bem como a instrumentalização de recursos tecnológicos para operacionalizar os resultados de massa ou de sintonia. Contudo, não há de se esquecer que o direito busca composição de interesses e valores, como patrimônio de seres humanos. E, entre seres humanos a empatia, a graça, o carisma e o amor prevalecem como bens imateriais inalienáveis e imprescindíveis à felicidade e ao sucesso”, conclui.

Compartilhando Conhecimentos

Com objetivo de incluir os advogados e advogadas decanos nas atividades da advocacia e valorizar aqueles que fizeram a história de nosso Estado, a Diretoria da OAB/MS lançou em junho a Campanha ‘Compartilhando Conhecimentos’.

Aparecido dos Passos foi o primeiro e Belmira Vilhanueva é a segunda de uma série de advogados (as) que serão ouvidos pela OAB/MS, em respeito ao Plano de Valorização da Advocacia Idosa e em um período de diversas exigências tecnológicas implementadas para o enfrentamento da disseminação do novo Coronavírus (Covid-19). É mais uma forma de garantir o acesso e a inserção dos profissionais com idade igual ou superior a 60 anos nos sistemas e tecnologias da informação digital.

Texto: Laura Holsback / Foto: Barbara Colla

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