PL equipara fissura labiopalatina e anomalias craniofaciais a deficiência física em MS

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Cirurgia de fissura labiopalatina reconstitui as fendas no lábio ou no céu da boca de bebês com esta malformação congênita (Foto: Reprodução)

Tramita a partir desta quarta-feira (24) na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS) o Projeto de Lei (PL) 90/2026, que estabelece, para efeitos jurídicos no estado, a equiparação da fissura labiopalatina, das anomalias craniofaciais congênitas e das síndromes correlatas às deficiências físicas, desde que gerem limitações que dificultem a participação plena da pessoa na sociedade.

Com a eventual aprovação, essas condições passam a assegurar aos pacientes e suas famílias os mesmos direitos, benefícios, políticas públicas e mecanismos de proteção social já garantidos às pessoas com deficiência, conforme a legislação federal vigente.

Por que a medida é necessária?

A fissura labiopalatina é uma das malformações congênitas mais frequentes no mundo. Ela pode causar dificuldades na alimentação, fala, audição, respiração, além de impactos psicossociais e estéticos, exigindo acompanhamento médico e terapêutico contínuo por muitos anos. O mesmo ocorre com outras anomalias craniofaciais, que frequentemente demandam cirurgias, reabilitação e suporte especializado.

Atualmente, muitas famílias enfrentam barreiras para acessar atendimento especializado, benefícios e programas de inclusão, por falta de reconhecimento legal claro. A proposta visa eliminar essa insegurança jurídica.

“A matéria busca conferir maior segurança jurídica e efetividade às políticas públicas de inclusão, reconhecendo que a fissura labiopalatina e as demais anomalias craniofaciais podem acarretar impedimentos físicos, funcionais, estéticos e sociais capazes de restringir a participação plena e efetiva da pessoa em igualdade de condições com as demais”, explicou a deputada Lia Nogueira (PSDB), autora do PL.

Diretrizes previstas

Se aprovada, a lei definirá também linhas de ação para o estado, entre elas:
✅ Estímulo ao diagnóstico precoce;
✅ Acesso garantido a atendimento multiprofissional e interdisciplinar;
✅ Programas de reabilitação física, funcional e social;
✅ Acompanhamento clínico contínuo;
✅ Apoio e orientação às famílias;
✅ Inclusão educacional, social e profissional;
✅ Redução de barreiras físicas, comunicacionais e atitudinais.

Agora, a matéria segue agora para análise da Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR), antes de seguir para votação no plenário da Assembleia Legislativa.

O que é a fissura labiopalatina?

PL equipara fissura labiopalatina e anomalias craniofaciais a deficiência física em MS
Também conhecida como lábio leporino, a fissura labiopalatina pode ser corrigida com cirurgia (Foto: iStockphoto/Agência Senado)

A fissura labiopalatina é uma malformação congênita que ocorre durante a gestação, quando estruturas da face do bebê não se unem completamente. Essa falha resulta em uma abertura no lábio, no céu da boca (palato) ou em ambas as regiões.

A formação da face acontece entre a quarta e a décima segunda semana de gestação. Quando ocorre alguma alteração nesse processo, pode surgir a fissura.

A condição pode estar relacionada a fatores genéticos, ambientais ou à combinação de ambos. Entre os fatores de risco estão histórico familiar, uso de determinadas substâncias durante a gravidez, deficiência nutricional, tabagismo e consumo de álcool.

Tipos de fissura labiopalatina

Fissura labial

Afeta apenas o lábio superior, podendo ser:

  • Unilateral (um lado do lábio);
  • Bilateral (ambos os lados);
  • Completa ou incompleta.

Fissura palatina

Afeta o céu da boca, podendo envolver:

  • Palato mole;
  • Palato duro;
  • Ambos.

Fissura labiopalatina

É a forma mais complexa, envolvendo simultaneamente o lábio superior e o palato.

Características da fissura labiopalatina

As manifestações variam conforme a extensão da fissura, mas podem incluir:

  • Abertura visível no lábio superior;
  • Comunicação entre boca e cavidade nasal;
  • Dificuldade para sucção e alimentação;
  • Escape de leite pelo nariz;
  • Alterações na fala;
  • Problemas dentários;
  • Infecções de ouvido frequentes;
  • Alterações na audição.

O que são anomalias craniofaciais?

As anomalias craniofaciais constituem um grupo de alterações congênitas ou adquiridas que afetam o desenvolvimento do crânio, da face, da mandíbula, dos olhos, das orelhas e de outras estruturas da cabeça.

Essas condições podem ocorrer isoladamente ou associadas a síndromes genéticas.

A gravidade varia desde alterações discretas até deformidades complexas que comprometem funções vitais.

Principais tipos de anomalias craniofaciais

PL equipara fissura labiopalatina e anomalias craniofaciais a deficiência física em MS
Sequência de Pierre Robin (Foto: Faculdade de Patos de Minas)

Craniossinostose

Ocorre quando uma ou mais suturas do crânio se fecham precocemente, impedindo o crescimento normal da cabeça.

Características:

  • Formato anormal do crânio;
  • Assimetria facial;
  • Aumento da pressão intracraniana em casos graves;
  • Problemas visuais.

Microssomia hemifacial

Caracteriza-se pelo desenvolvimento incompleto de um dos lados da face.

Pode provocar:

  • Assimetria facial;
  • Alterações na mandíbula;
  • Problemas auditivos;
  • Dificuldades de mastigação.

Síndrome de Treacher Collins

Doença genética que afeta o desenvolvimento dos ossos e tecidos da face.

Características:

  • Maçãs do rosto pouco desenvolvidas;
  • Alterações nas orelhas;
  • Problemas auditivos;
  • Dificuldades respiratórias.

Síndrome de Apert

Doença genética associada à craniossinostose.

Características:

  • Crânio com formato alterado;
  • Dedos das mãos e dos pés unidos (sindactilia);
  • Alterações faciais.

Síndrome de Crouzon

Também relacionada ao fechamento precoce das suturas cranianas.

Pode causar:

  • Olhos proeminentes;
  • Alterações na mordida;
  • Problemas respiratórios;
  • Alterações visuais.

Problemas enfrentados pelos portadores

As pessoas com fissura labiopalatina ou anomalias craniofaciais podem apresentar dificuldades em diversas áreas. Bebês com fissura palatina podem ter dificuldade para sugar o leite materno ou a mamadeira, exigindo bicos especiais e orientação profissional.

As alterações anatômicas podem interferir na produção correta dos sons da fala, exigindo acompanhamento fonoaudiológico. A ocorrência de otites recorrentes é comum, principalmente em crianças com fissura palatina, podendo causar perda auditiva temporária ou permanente.

Algumas anomalias craniofaciais podem estreitar as vias aéreas, dificultando a respiração e aumentando o risco de apneia do sono. São frequentes:

  • Dentes ausentes;
  • Dentes supranumerários;
  • Alterações na mordida;
  • Problemas ortodônticos.

Crianças, adolescentes e adultos podem enfrentar:

  • Baixa autoestima;
  • Bullying;
  • Discriminação;
  • Ansiedade;
  • Isolamento social.

Por isso, o apoio psicológico é parte importante do tratamento.

Como é feito o diagnóstico?

Muitas fissuras labiais podem ser identificadas por ultrassonografia pré-natal. A avaliação clínica permite identificar a maioria das fissuras e anomalias craniofaciais.

Exames complementares podem incluir:

  • Tomografia computadorizada;
  • Radiografias;
  • Ressonância magnética;
  • Testes genéticos.

Tratamento da fissura labiopalatina

O tratamento é realizado por uma equipe multidisciplinar composta por:

  • Cirurgião plástico;
  • Cirurgião bucomaxilofacial;
  • Pediatra;
  • Fonoaudiólogo;
  • Ortodontista;
  • Dentista;
  • Psicólogo;
  • Otorrinolaringologista;
  • Nutricionista.

Cirurgia do lábio (queiloplastia)

Geralmente realizada entre 3 e 6 meses de idade.

Objetivos:

  • Fechar a fissura;
  • Melhorar a estética facial;
  • Favorecer a alimentação.

Cirurgia do palato (palatoplastia)

Normalmente realizada entre 9 e 18 meses.

Objetivos:

  • Separar boca e nariz;
  • Melhorar a fala;
  • Facilitar a alimentação.

Tratamento ortodôntico

Pode ser necessário durante a infância e adolescência para corrigir alterações dentárias e ósseas.

Enxerto ósseo alveolar

Realizado em alguns pacientes para reconstruir a região da gengiva e favorecer a erupção dos dentes permanentes.

Fonoaudiologia

Fundamental para o desenvolvimento adequado da fala e da comunicação.

Tratamento das anomalias craniofaciais

O tratamento depende do tipo e da gravidade da condição.

Pode incluir:

  • Cirurgias reconstrutivas;
  • Correções cranianas;
  • Cirurgias ortognáticas;
  • Uso de aparelhos ortodônticos;
  • Terapias fonoaudiológicas;
  • Tratamento auditivo;
  • Acompanhamento psicológico.

Em muitos casos, o acompanhamento ocorre por vários anos, desde a infância até a vida adulta.

Prognóstico

Graças aos avanços da medicina, da cirurgia reconstrutiva e da reabilitação, a maioria dos pacientes com fissura labiopalatina e anomalias craniofaciais pode alcançar excelente qualidade de vida. O diagnóstico precoce e o acompanhamento por equipes especializadas são fundamentais para garantir o desenvolvimento saudável, a inclusão social e o bem-estar dos pacientes.

Embora os desafios sejam significativos, os tratamentos atuais permitem que crianças e adultos desenvolvam plenamente suas capacidades, estudem, trabalhem e tenham uma vida social ativa e produtiva.