Plutão faz 20 anos como ‘planeta anão’: entenda por que ele perdeu o status de planeta

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Plutão visto pela sonda espacial New Horizons da Nasa, capturada em 2015 (Foto: Nasa)

Decisão tomada em 2006 reduziu o Sistema Solar para oito planetas, mas novas descobertas mantêm o astro no centro das pesquisas

Durante 76 anos, Plutão ocupou um lugar especial na imaginação de quem aprendeu na escola que o Sistema Solar tinha nove planetas. A mudança veio em 24 de agosto de 2006, quando a União Astronômica Internacional (UAI) aprovou uma nova definição para o termo “planeta” e classificou o astro como planeta anão. Duas décadas depois, a discussão ainda desperta curiosidade — e novas descobertas continuam mostrando que Plutão está longe de ser um mundo “simples”.

A decisão da UAI estabeleceu três critérios para que um corpo celeste seja considerado planeta: ele precisa orbitar o Sol, ter massa suficiente para adquirir uma forma aproximadamente esférica e ter “limpado” a vizinhança de sua órbita. Plutão atende aos dois primeiros requisitos, mas não ao terceiro, já que compartilha a região do Cinturão de Kuiper com outros objetos. Por isso, passou a integrar uma categoria própria de planetas anões.

A mudança ocorreu em meio a uma revolução nas descobertas astronômicas. O avanço dos telescópios permitiu identificar diversos corpos relativamente grandes nas regiões externas do Sistema Solar, levantando uma questão que parecia simples, mas não era: afinal, o que exatamente define um planeta?

A descoberta que colocou Plutão em xeque

Um dos principais personagens dessa história é o astrônomo americano Mike Brown, que participou da descoberta de Éris, um objeto localizado além da órbita de Netuno e pertencente à mesma região do Sistema Solar onde está Plutão.

A descoberta, feita a partir de observações realizadas em 2003 e anunciada posteriormente, intensificou o debate sobre a classificação de Plutão. Éris apresentava características semelhantes às de Plutão e inicialmente chegou a ser tratado como possível candidato a décimo planeta. A própria UAI posteriormente classificou Éris como planeta anão.

A alternativa seria ampliar a lista de planetas do Sistema Solar sempre que novos objetos de tamanho semelhante fossem encontrados. A entidade decidiu seguir outro caminho: criar critérios objetivos para separar os planetas dos demais corpos celestes.

Em 2006, durante a Assembleia Geral da UAI, em Praga, os astrônomos aprovaram a definição que reduziu para oito o número oficial de planetas: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Plutão passou a ser reconhecido como o protótipo de uma nova categoria de objetos transnetunianos.

Por que Plutão não é considerado planeta?

A diferença está principalmente na órbita.

Plutão é suficientemente grande para ter sua própria gravidade e assumir formato quase esférico. Também orbita o Sol. O problema, segundo a definição adotada pela UAI, é que ele não domina gravitacionalmente a região ao redor de sua órbita.

Isso significa que Plutão continua dividindo sua vizinhança cósmica com diversos outros objetos do Cinturão de Kuiper. É justamente esse terceiro critério que o diferencia dos oito planetas oficialmente reconhecidos.

A classificação, portanto, não significa que Plutão deixou de ser um corpo celeste importante. Pelo contrário. As observações realizadas pela missão New Horizons, da NASA, revelaram um mundo muito mais complexo do que os cientistas imaginavam.

Um mundo de gelo, montanhas e atmosfera

Quando a sonda New Horizons passou por Plutão, em julho de 2015, a missão transformou o conhecimento sobre o astro. As imagens mostraram montanhas, planícies de gelo, diferentes formações geológicas e uma atmosfera rica em nitrogênio.

A NASA identificou também camadas de neblina que se estendem por dezenas de quilômetros acima da superfície. Os dados indicaram ainda a existência de gelo de nitrogênio em movimento e uma superfície geologicamente muito mais dinâmica do que se esperava.

Plutão também possui cinco luas conhecidas, sendo Caronte a maior delas. A interação entre os dois corpos faz do sistema plutoniano um dos mais interessantes da região externa do Sistema Solar.

Outro achado surpreendente foi a presença de dunas formadas por partículas de gelo de metano. Segundo a NASA, ventos na atmosfera rarefeita de Plutão ajudam a movimentar essas partículas e moldam a paisagem.

Novas descobertas mantêm Plutão no centro das pesquisas

Mesmo depois da mudança de classificação, Plutão continua produzindo descobertas científicas.

Em agosto de 2026, a NASA divulgou uma nova análise de imagens obtidas pela New Horizons que encontrou evidências de que nitrogênio líquido pode ter chegado recentemente à superfície de Plutão por meio de fraturas na região norte da geleira Sputnik Planitia.

O estudo sugere que o líquido pode ter vindo de uma camada localizada sob a geleira e, ocasionalmente, alcançado a superfície. A descoberta reforça a ideia de que Plutão possui processos geológicos ativos e variáveis, apesar de estar extremamente distante do Sol.

A Sputnik Planitia, uma enorme região coberta por gelo de nitrogênio, já havia surpreendido os pesquisadores por apresentar estruturas semelhantes a células de convecção e sinais de movimentação do gelo.

Plutão pode voltar a ser planeta?

Oficialmente, não houve mudança na classificação estabelecida pela UAI em 2006. Plutão continua sendo um planeta anão.

Mas a discussão científica não desapareceu.

Alguns pesquisadores defendem uma definição diferente de planeta, baseada principalmente nas características físicas e geológicas do corpo, e não na capacidade de dominar sua órbita. As características observadas pela New Horizons — como atmosfera, montanhas, geleiras, atividade geológica e complexidade superficial — são utilizadas como argumentos por cientistas que questionam a classificação atual.

A própria riqueza de fenômenos observados em Plutão mostra por que o debate continua. A NASA já descreveu o astro como um dos corpos mais complexos da região do Cinturão de Kuiper, com uma diversidade geológica que superou as expectativas antes da chegada da New Horizons.

Por enquanto, porém, a resposta oficial permanece a mesma: o Sistema Solar tem oito planetas e Plutão é um planeta anão. A decisão tomada em 2006 não apagou a importância do pequeno mundo gelado — apenas mudou o lugar que ele ocupa na classificação astronômica.

E, quase 20 anos depois do chamado “rebaixamento”, Plutão continua mostrando que, no espaço, ser menor e mais distante não significa ser menos interessante.