Estudo indica contaminação da fauna no Pantanal e na Serra da Bodoquena
No dia em que o país chama atenção para os riscos da poluição por agrotóxicos, Mato Grosso do Sul virou exemplo concreto do problema. Neste domingo (11), Dia Nacional de Combate à Poluição por Agrotóxicos, um relatório técnico revelou que a contaminação química já alcança a fauna silvestre em áreas símbolo de preservação ambiental, como o Pantanal e a Serra da Bodoquena.
Estudos recentes identificaram a presença de agrotóxicos em mais da metade dos tamanduás-bandeira monitorados após a morte nessas regiões. Os dados constam em relatório do Instituto Tamanduá e embasam a Nota Técnica SOS Bonito, elaborada em conjunto pelo Instituto SOS Pantanal, Instituto Tamanduá, Fundação Neotrópica do Brasil, Instituto Libio e SOS Mata Atlântica.
O documento analisa os impactos das mudanças no uso do solo na Bacia Hidrográfica do Rio Miranda, que abrange municípios como Bonito e Aquidauana. Segundo os pesquisadores, os efeitos vão além da perda de biodiversidade e atingem diretamente a qualidade da água e a integridade de ecossistemas que sustentam o turismo de natureza e o abastecimento humano.
De acordo com o estudo, exames necroscópicos realizados em tamanduás-bandeira reintroduzidos na natureza encontraram resíduos de agrotóxicos — inclusive substâncias proibidas no Brasil — além de metais pesados. A conclusão técnica aponta um quadro compatível com intoxicação aguda. Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores é que os animais circularam principalmente por pastagens e matas ciliares, e não por grandes lavouras, o que indica que a contaminação alcança áreas que deveriam funcionar como zonas de proteção ambiental.
A Nota Técnica SOS Bonito amplia a análise para todo o território da bacia. O levantamento mostra que, entre 1985 e 2023, a Bacia do Rio Miranda perdeu extensas áreas de vegetação nativa, enquanto o cultivo de soja avançou de forma contínua. A expansão agrícola veio acompanhada do aumento no uso de insumos químicos, elevando o risco de que agrotóxicos e outros contaminantes cheguem aos corpos d’água.
Os pesquisadores alertam para impactos sobre rios, aquíferos — reservatórios subterrâneos de água — e sistemas cársticos, formações geológicas porosas extremamente sensíveis à poluição. Esses sistemas são fundamentais para a transparência das águas que tornaram Bonito um dos destinos de ecoturismo mais conhecidos do país. A contaminação pode comprometer a vida aquática, afetar a fauna em geral e ameaçar atividades econômicas dependentes de rios limpos e nascentes preservadas.
Entre os efeitos potenciais citados no documento estão desregulação biológica e impactos neurotóxicos em organismos silvestres expostos aos químicos. O alerta também atinge a economia local, especialmente o turismo de natureza, que depende diretamente da qualidade ambiental da região.
Diante do cenário, a nota técnica recomenda medidas como monitoramento contínuo de agrotóxicos e metais pesados na fauna, no solo e na água, revisão de licenças ambientais em áreas consideradas sensíveis e reforço da fiscalização, principalmente em regiões de transição entre Cerrado e Mata Atlântica. A intenção é evitar que os danos hoje detectados em animais se transformem em problemas mais amplos para a população.
O alerta se soma a casos já registrados anteriormente. Em fevereiro deste ano, uma reportagem mostrou que cinco tamanduás morreram contaminados por agrotóxicos em apenas um mês. Agora, com o respaldo técnico do novo relatório e da Nota Técnica SOS Bonito, organizações ambientais reforçam o pedido por mudanças no uso do solo e no controle de químicos na Bacia do Rio Miranda, em defesa da fauna, dos rios e de um dos principais cartões-postais de Mato Grosso do Sul.













