Expectativa é que o Comitê de Política Monetária do BC, nas reuniões de hoje e quarta, reduza novamente o valor da taxa básica de juros

05/05/2020 07h39
Por: Redação

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) se reúne hoje e nesta quarta-feira (6), em Brasília, para definir a taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 3,75% ao ano. Para especialistas, a expectativa é que a redução possa ajudar a aquecer a economia afetada pela pandemia do coronavírus.

De acordo com pesquisa do BC junto ao mercado financeiro, a expectativa é que a Selic caia para 3,25% ao ano. Para a próxima reunião, em junho, a estimativa é que a taxa caia para 2,75% ao ano e termine 2020 neste patamar.

A política econômica da redução da taxa básica de juros é aplicada não só no Brasil, como também em outros países, conforme explica diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), Miguel José Ribeiro de Oliveira.

“Frente a um cenário da pandemia e os efeitos da desaceleração econômica, somado ao endividamento das famílias, o governo deve diminuir a taxa de juros, e isso vem de encontro ao que os principais bancos centrais do mundo estão fazendo”, ressalta.

De acordo com Oliveira, um dos primeiros impactos deverá ocorrer nos investimentos, ou seja, nas finanças de quem aplica dinheiro. “Naturalmente as aplicações financeiras passam a ganhar menos porque a Selic menor reduz rendimentos de fundos de investimentos e poupança”, reforça.

O economista e presidente do Conselho Regional de Economia do Piauí, Dorgilan Cruz, explica que a Selic também funciona como um “termômetro” do valor dos juros bancários para a sociedade. “Quanto mais alta for a taxa, mais caros ficam os créditos e financiamentos. Com a redução, torna-se mais fácil conseguir créditos”, reforça.

O objetivo da nova medida econômica é facilitar e até mesmo diminuir um pouco o valor destes créditos para o país. “A intenção do governo é criar uma política para que a empresas possam buscar recursos financeiros e se manter neste momento de isolamento”, destaca.

Cruz diz que a Selic está em um processo de declínio desde julho de 2015 quando esteve mais alta e diminui nos últimos anos. “Corresponde a aproximadamente 10,5% a menos de juros na economia brasileira”, analisa.

Para o economista, o governo deverá reduzir ainda neste ano, mais uma ou duas vezes, a Selic para aquecer a produção e o consumo das famílias. Mas ele alerta que, para que a medida tenha o efeito necessário, os bancos públicos e privados tambem deverão aderir e reduzir os juros bancários.

Juros bancários

Uma taxa de juros menor pode impactar também as operações de crédito, ou pelo menos deveria. “Ela é um sinalizador, é necessário que os bancos também baixem os juros bancários. O governo sugere, e os bancos devem seguir, do contrário, a medida terá pouco efeito”, alerta.

Para Dorgilan Cruz, o governo deveria atuar com um papel fiscalizador dos bancos para que coloquem em prática a redução e, assim, facilitem e barateiem o crédito com o objetivo de alcançar e tornar efetiva a política. Assim, o crédito chegaria onde precisa, para que os empresários sobrevivam durante o isolamento social e mantenham empregos.

Contudo, Miguel José Ribeiro de Oliveira, da Anefac, acredita que o cenário não é favorável para que os bancos acompanhem a política instituída pelo Banco Central. Ele diz que é possível que preços vinculados a créditos não aumentem, mas dúvida de uma possível redução.

“Temos um ambiente de risco muito grande para o crédito, ou seja, risco da inadimplência em um cenário no qual empresas fechando por falta de faturamento, pessoas perdendo o emprego. E ele é o principal fator para que os bancos não baixem os juros para o crédito”, pondera.

O professor da Universidade Federal do Maranhão e conselheiro do Conselho Regional de Economia (MA), Felipe de Holanda, afirma que o governo necessita “tomar medidas emergenciais de modo a evitar uma espiral deflacionária, que possa ampliar a desocupação e a mortalidade empresarial”.

Ações para as pontas

Felipe de Holanda, entretanto, alerta para a possibilidade das medidas não terem o efeito desejado pelo governo. “Há muitas queixas de empresários de que o crédito está escasso e caro”, comenta o professor. “Acredito que o governo federal está agindo de forma desarticulada e lenta, frente a estes desafios”, critica.

Segundo o especialista, o cenário é muito “adverso” para incentivar o investimento privado. “Nesta situação a política monetária tem pouca potência para sustentar emprego e renda, embora seja fundamental sua utilização para prover o sistema bancário de liquidez, evitando quebradeira bancária e crise financeira”, destaca.

Contudo, Holanda afirma que a eficácia de injetar crédito para as micro e pequenas empresas está sendo muito baixa no Brasil. Para ele, é necessário “medidas adicionais para capilarizar o crédito, não se esquecendo também da qualidade dos aplicativos, que deve ser melhorada, e da burocracia, que deve ser reduzida ao máximo”.

Além disso, como forma de aquecer o consumo, Holanda também recomenda a inclusão de pessoas em situação vulnerável no círculo da economia para evitar episódios de violência. Para ele, o programa federal de auxílio de R$ 600,00 é pouco e deveria ser maior.

“Há pelo menos mais 20 milhões de brasileiros que deveriam ser cadastrados adicionalmente para receber os recursos. E muitos que, mesmo cadastrados, não estão conseguindo recebê-los”, aponta.

Experiências internacionais

Holanda conclui que para agilizar o processo de auxílio à economia outras medidas excepcionais poderiam ser tomadas pelo governo. Na Inglaterra, o primeiro-ministro, Boris Jhonson, autorizou o BC local fazer operações dessa natureza.

“Nesta emergência, que se for necessário (dada a demora na liberação e capilarização de recursos do Tesouro Federal), o Banco Central poderia, de maneira extraordinária e transparente, financiar diretamente gastos do Tesouro nas ações de combate e mitigação aos efeitos da covid-19”, finaliza.

O economista Alexandre Castilho comenta que a redução da Selic é uma medida aplicada por outros países. Ele cita Alemanha e Japão, onde as taxas básicas de juros são ainda mais baixas e, em alguns caso,s pode ser até negativa.

“Isso porque a dívida do governo também está baseada em um valor menor”, pondera.

Para Castilho, a redução pode ser positiva a longo prazo, mas a alta inadimplência e o custo Brasil podem impedir que as medidas sejam efetivas e acabem baixando os juros dos bancos tradicionais. Para ele, os bancos digitais poderão se sair melhor neste quesito.

EBC

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