Quando se fala em doação de órgãos, a imagem que vem à mente é quase sempre a de um gesto após a partida. Mas a campanha Setembro Verde traz um recado transformador: pessoas com 60 anos ou mais também podem doar em vida, sem limite de idade estabelecido por lei — e cada gesto tem o peso de uma segunda chance para quem espera.
Enquanto o Brasil bateu recorde histórico no ano passado, com 4.335 doadores efetivos e taxa de 20,3 doadores por milhão de habitantes, ainda há 49.489 pessoas na fila de transplantes em todo o país, conforme dados do Sistema Nacional de Transplantes.
Em Mato Grosso do Sul, a equipe do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/HU Brasil) aproveita a campanha temática do mês para emitir um alerta: é preciso ampliar o olhar para quem pode dar esse passo!
A idade não é barreira — mas a avaliação é mais cuidadosa
“Não existe um número mágico que afaste uma pessoa da doação”, explica o enfermeiro Guilherme Fernandes, coordenador da equipe de Doação de Órgãos e Tecidos do Humap-UFMS.
Segundo ele, a pessoa idosa passa pelo mesmo processo de qualquer doador vivo, com a diferença de que a análise é ainda mais criteriosa: a segurança do doador vem sempre antes de tudo.
Não há um único exame que defina aptidão. O trabalho é individualizado: envolve sangue, urina, função renal, imagem, avaliação cardiovascular e também análise de estado geral, expectativa de vida e riscos cirúrgicos. “A decisão não se baseia apenas em números”, reforça Fernandes.
O que pode ser doado — e onde a idade pesa

A regra vale para todos: só se doa em vida o que não compromete a saúde de quem dá. Os órgãos possíveis são:
- Um dos rins — sem limite máximo de idade; o estado de saúde é o critério principal;
- Parte do fígado — faixa etária recomendada de 16 a 50 anos;
- Parte do pulmão;
- Medula óssea.
Com o avançar da idade, cresce a chance de doenças como hipertensão e diabetes — o que exige investigação mais detalhada. “Muitas vezes, o órgão também precisa estar em condições ideais para o receptor”, pondera o coordenador. “Tudo é avaliado e discutido pela equipe médica, junto com doador e receptor.”
O que a lei diz — e o papel da família
A legislação brasileira permite doação em vida para parentes até o quarto grau e cônjuges sem necessidade de autorização judicial. Para pessoas fora desse vínculo, é possível, mas depende de decisão da Justiça.
Um ponto que gera dúvida: não é preciso que a família autorize — basta que o doador seja maior de idade e esteja em pleno uso de suas faculdades.
“A família tem um papel fundamental de apoio na decisão, mas a palavra final é do doador”, esclarece Fernandes. Isso diferencia radicalmente dos casos de doação após falecimento, em que a concordância dos familiares é essencial.
O recado do Setembro Verde
Neste mês, o convite vai além de registrar intenção de doar após a morte: é preciso reconhecer que a generosidade não tem idade. Seja entregando um rim, parte do fígado ou medula, uma pessoa idosa saudável pode ser a diferença entre a vida e a morte para alguém que espera há anos.
“Doar em vida é um ato de coragem e de amor que não escolhe idade. O que decide é a saúde, não o aniversário.”, finalizou o coordenador. Com mais de 49 mil brasileiros esperando, cada avaliação pode ser o início de uma nova história.





















