Trabalhadores em condições análogas à escravidão são resgatados de helicóptero no Pantanal de MS

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O então alojamento dos trabalhadores (Foto: divulgação PF-MS)

Cinco trabalhadores foram resgatados e retirados da condição de trabalho análogo ao de escravo durante a operação conjunta ‘Pantanal Paiaguás’, realizada em ação que ocorreu entre os dias 12 e 17 de março, na sub-região do Pantanal de Paiaguás em Mato Grosso do Sul. A ação foi conjunta da PF-MS (Polícia Federal em MS) com Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Policia Militar de MS e Polícia do MPU (Ministério Público da União), que resultou no resgate dos trabalhadores em condições degradantes de moradia e trabalho (Veja abaixo, detalhes descritos). Nesta quarta-feira (22), as vítimas, até receberam do então ‘empregador’ as verbas rescisórias pelos serviços prestados.

Conforme a PF-MS, com em outras – neste ano de janeiro a março, já são 22 resgatados – a condição de trabalho análogo à escravidão foi configurada devido as seguintes características: trabalho forçado, jornada exaustiva, condição degradante do trabalho, servidão por dívida, cerceamento do uso de qualquer meio de transporte, e vigilância ostensiva no local de trabalho.

A ação na pratica ocorreu ante que durante a semana, o trabalho contou com o planejamento, compartilhamento de informações, fiscalização nos locais investigados e audiência administrativa. E para realizar esta atividade foi necessária a utilização do helicóptero da Casa Militar do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e da embarcação do Grupo Especial de Polícia Marítima da PF Corumbá/MS.

A fiscalização ocorreu em duas propriedades rurais, localizadas no Pantanal. A primeira, uma fazenda localizada a cerca de 60 quilômetros do perímetro urbano de Corumbá, na região do Paraguai-mirim, foram encontrados vestígios da moradia precária, contudo, os trabalhadores não foram localizados e não houve flagrante do crime. Porém, a segunda propriedade rural, distante 180 quilômetros da cidade, na região do Paiaguás, no Pantanal, foram resgatados de condições degradantes cinco trabalhadores, isolados em meio à mata, em uma fazenda de gado de 15 mil hectares.

Pagamento de último dia

Ontem (22), as vítimas receberam do empregador as verbas rescisórias pelos serviços prestados, pouco mais de R$ 37,4 mil para cada um deles, além de uma indenização por danos morais individuais, que totalizou R$ 240 mil – o equivalente a 20 vezes o valor do salário acordado no momento da contratação – e que será dividida entre os cinco trabalhadores. O pagamento destes valores foi pactuado com o MPT-MS por meio de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), assinado pelo procurador do Trabalho Paulo Douglas de Moraes e por representantes legais da propriedade rural, durante audiência administrativa, realizada no dia 15 de março, nas dependências da Polícia Federal no município de Corumbá.  

O proprietário da fazenda também deverá pagar outros R$ 240 mil, a título de dano moral coletivo, como forma de reparação à sociedade. O valor será revertido a entidades e/ ou instituições que promovam direitos sociais de interesse coletivo.  

Outro Termo de Ajuste de Conduta foi subscrito na mesma ocasião, este objetivando a adequação do meio ambiente de trabalho à legislação laboral vigente, bem como resguardar trabalhadores que, futuramente, venham a exercer quaisquer serviços na propriedade onde ocorreu o flagrante, ou em outras empresas que integram ou venham a integrar seu grupo econômico. O não cumprimento de qualquer uma das obrigações do TAC implica no pagamento de multa, cujo valor é vinculado à natureza da cláusula descumprida – legislação trabalhista, segurança do trabalho ou medicina do trabalho – e ao número de trabalhadores impactados.   

Com a operação “Pantanal Paiaguás”, 22 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à de escravidão em propriedades rurais de Mato Grosso do Sul, entre janeiro e 21 de março de 2023, conforme levantamento da Superintendência da Inspeção do Trabalho no estado. Em todo o país, foram 918 trabalhadores no mesmo período, o que representa alta de 124% em relação ao volume dos primeiros três meses de 2022. 

Condições degradantes de trabalho 

Conforme iniciado acima, durante a operação, duas propriedades rurais, localizadas na sub-região do Pantanal de Paiaguás, foram diligenciadas. Na primeira, uma fazenda localizada a cerca de 60 quilômetros do perímetro urbano de Corumbá, não houve flagrante do crime.  

Já na segunda propriedade rural, distante 180 quilômetros da cidade, os cinco trabalhadores foram localizados isolados em meio à mata, dentro de uma fazenda que atua no ramo da pecuária bovina e tem 15 mil hectares. Foi necessária a utilização de um helicóptero e de um barco, já que nesta época do ano a região fica alagada. Policiais da Polícia do MPU, realizaram a escolta e acompanhamento do procurador do MPT durante as diligências, as inspeções e as audiências.  

Nesta fazenda, os trabalhadores estavam alojados em um acampamento, afastado a quilômetros da sede, composto por quatro barracos, construídos com varões de arbustos e cobertos com lona plástica, e dormiam em redes e estruturas precárias, que eles chamavam de “camas”, e eram montadas de forma improvisada com troncos de vegetação. Sem paredes ou pisos, as condições expunham os trabalhadores a intempéries, animais peçonhentos e silvestres.  

Não havia banheiros e as necessidades eram feitas no mato. A água disponível ficava armazenada em um tanque pipa e servia para uso geral – beber, cozinhar e tomar banho. Em depoimento, os trabalhadores disseram que ela tinha gosto de ferrugem, e que até capivaras foram vistas bebendo desta mesma água.  

Residentes em Corumbá, os trabalhadores foram contratados de forma irregular para construir cercas na fazenda, por um intermediador de mão de obra. “O cercamento da propriedade rural é uma atividade lícita, porém, não pode ser executada nestas condições, que configuram o crime de redução à condição análoga à de escravo”, pontua o procurador do Trabalho Paulo Douglas de Mores.  

Nenhum dos trabalhadores teve o registro formalizado em carteira ou receberam equipamentos e dispositivos de proteção individual, com vistas a prevenção da ocorrência de acidentes.

Conforme o acordo feito no momento da contratação, eles deveriam permanecer no local de trabalho pelo período de 90 dias, para só então serem conduzidos à cidade, onde finalmente receberiam o saldo dos valores das diárias trabalhadas nesse período. Também não foi concedido o direito ao repouso semanal remunerado de 24 horas consecutivas.  

Trabalhadores em condições análogas à escravidão são resgatados de helicóptero no Pantanal de MS
Eqipe que desenvolveu o trabalho de ação conjunta da PF-MS, MPF,MPU e MPT; (Foto: divulgação PF-MS)