A cirurgia está marcada, os exames estão feitos e, aparentemente, está tudo certo. Mas uma informação que muitas vezes fica fora da conversa com a equipe médica pode mudar completamente essa avaliação: o uso de anabolizantes.
Essas substâncias podem provocar alterações no coração, na pressão arterial, no fígado e na coagulação e, dependendo do quadro, exigir exames adicionais, mudanças na condução da anestesia e até o adiamento de uma cirurgia eletiva.
O alerta ganha ainda mais importância diante do crescimento do consumo no país. Levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), divulgado em 2025, apontou aumento de 670% nas vendas de esteroides anabolizantes entre 2018 e 2023.
Embora tenham indicações médicas específicas, os anabolizantes não podem ser prescritos indiscriminadamente. Desde 2023, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.
Para quem vai passar por uma cirurgia, no entanto, existe uma orientação que vale independentemente de como ou por que essas substâncias estão sendo utilizadas: o anestesiologista precisa saber.
Segundo o médico anestesiologista Alexandre Xavier, do Servan Anestesiologia, uma das principais preocupações está nos efeitos sobre o sistema cardiovascular. O uso de anabolizantes, principalmente em doses elevadas e por períodos prolongados, pode estar associado a pressão alta, alterações do colesterol, arritmias e mudanças na estrutura e no funcionamento do coração. Também podem ocorrer alterações no fígado e aumento dos glóbulos vermelhos, tornando o sangue mais viscoso e favorecendo a formação de coágulos.
“Esse risco pode ser ainda maior quando o paciente apresenta comorbidades, como pressão alta, diabetes, doença renal ou alterações importantes do colesterol. Além disso, cirurgias de maior duração, com imobilização prolongada podem acrescentar risco para formação de coágulos. Por isso, avaliamos o conjunto: fatores de risco do paciente e o tipo de cirurgia que será realizada”, explica Xavier.
Não é só uma questão de interação
Uma dúvida comum é se o problema está na mistura entre o anabolizante e os medicamentos usados durante a anestesia. Segundo Xavier, a questão é mais ampla. O que preocupa são as alterações que essas substâncias podem provocar no organismo e como elas podem mudar a resposta daquele paciente durante uma cirurgia.
“Alterações cardiovasculares, hepáticas e até psicológicas podem influenciar a maneira como planejamos e conduzimos a anestesia. Alguns pacientes também podem apresentar ansiedade ou alterações de humor, principalmente quando interrompem o uso abruptamente. Por isso, conhecer exatamente o que o paciente utiliza ajuda o anestesiologista a escolher os medicamentos, a monitorização e os cuidados mais adequados para cada situação”, afirma.
É justamente por isso que uma informação aparentemente simples pode fazer diferença antes de entrar no centro cirúrgico.
Esconder o uso pode aumentar o risco
Receio, vergonha ou medo de julgamento podem fazer com que algumas pessoas evitem contar que usam anabolizantes. Para o anestesiologista, porém, essa omissão pode comprometer uma das etapas mais importantes da preparação para a cirurgia: a consulta pré-anestésica. É nesse momento que o médico avalia o histórico de saúde, os medicamentos utilizados, as condições clínicas, realiza o exame físico e solicita exames complementares.
“A consulta pré-anestésica é justamente o momento de identificar condições que possam aumentar o risco de complicações durante e após uma cirurgia. Quando uma informação importante é omitida, essa avaliação pode ficar incompleta e o risco real do paciente pode ser subestimado. O objetivo não é julgar o paciente, mas tornar a anestesia e a cirurgia mais seguras”, destaca Xavier.
E não basta dizer apenas que “usa anabolizante”. O anestesiologista precisa saber qual substância é utilizada, a dose, a frequência, há quanto tempo ocorre o uso e quando foi a última aplicação. Também é recomendável levar uma lista dos medicamentos, anabolizantes, suplementos e fitoterápicos utilizados.
E a cirurgia pode ser adiada?
Pode, se for detectado algum fator de risco que interfira na segurança do paciente, como por exemplo, o uso de anabolizantes por conta própria.
Nesses casos, podem ser necessários novos exames, avaliação de outros especialistas ou até mesmo mudanças na técnica e monitorização anestésica. Se houver alguma alteração importante, uma cirurgia eletiva pode ser adiada até que o paciente esteja devidamente avaliado e tratado. “Esse é justamente um dos objetivos da avaliação pré-anestésica: identificar o risco antes que o problema aconteça”, reforça Xavier.
Por isso, tentar resolver a situação por conta própria também não é uma boa estratégia. Interromper abruptamente o uso antes da cirurgia, sem orientação, pode trazer outros problemas.
“A principal orientação é simples: informe o anestesiologista e o cirurgião. Diga exatamente o que utiliza, em qual dose, com que frequência e quando foi a última utilização. Não suspenda ou modifique o uso por conta própria apenas porque fará uma cirurgia. A necessidade de interrupção ou de alguma outra medida deve ser avaliada individualmente pela equipe médica”, orienta.





















