
Durante abertura da conferência da ONU sobre espécies migratórias, presidente e Marina Silva relacionam proteção ambiental à paz internacional
Em uma conferência dedicada à proteção de animais que cruzam continentes e oceanos, o debate ultrapassou as fronteiras da biodiversidade e chegou ao futuro da própria humanidade. Na abertura da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias da ONU (COP15), realizada na noite de domingo (22), em Campo Grande (MS), lideranças brasileiras transformaram o palco ambiental em um chamado internacional pela paz, pelo respeito às regras globais e pelo fortalecimento do multilateralismo.
Durante a sessão especial do evento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, alertaram para o aumento das tensões geopolíticas e defenderam a união entre os países como condição essencial para proteger não apenas a fauna silvestre, mas também a vida humana.
Embora a COP15 tenha como foco principal a conservação de espécies migratórias, o governo brasileiro — anfitrião do encontro — destacou que a proteção ambiental depende diretamente da estabilidade internacional e do respeito às normas globais.
“Esta COP15 ocorre em um momento de grandes tensões geopolíticas. Ações unilaterais, atentados à soberania e execuções sumárias estão se tornando a regra. Um mundo sem regras é um mundo inseguro, onde qualquer um pode ser a próxima vítima”, afirmou Lula em seu discurso.
O presidente também defendeu o fortalecimento das instituições multilaterais e criticou a escalada de conflitos internacionais. Segundo ele, políticas baseadas em cooperação devem substituir discursos de ódio e isolamento.
“No lugar de muros e discursos de ódio, precisamos de políticas de acolhimento e de um multilateralismo forte e renovado”, disse.
Lula ressaltou ainda o papel histórico da Organização das Nações Unidas (ONU) na prevenção de crises globais, citando avanços como a recomposição da camada de ozônio, a proibição de armas químicas e biológicas e a erradicação da varíola. Apesar disso, avaliou que o Conselho de Segurança tem sido omisso diante dos conflitos atuais.
A ministra Marina Silva, que discursou antes do presidente, reforçou a relação entre preservação ambiental e cooperação internacional, destacando que todas as formas de vida estão interligadas.
“Em um contexto geopolítico tão desafiador como o atual, as guerras, sejam elas bélicas ou tarifárias, minam a disposição para a cooperação e cauterizam os sentimentos de solidariedade”, afirmou.
Segundo ela, a natureza demonstra que fronteiras políticas não limitam os ciclos da vida, e que a cooperação internacional é essencial para enfrentar desafios globais.
“Façamos desta COP15 um verdadeiro momento de defesa do multilateralismo, a única forma de resolvermos os nossos problemas”, declarou.
Os discursos não citaram diretamente países ou líderes estrangeiros, embora o presidente já tivesse criticado, no dia anterior, a escalada de guerras e o desrespeito às leis internacionais de proteção à soberania nacional.
Medidas ambientais anunciadas
Durante a conferência, o governo federal também anunciou novas ações voltadas à proteção ambiental, com foco nos biomas Pantanal e Cerrado. As medidas incluem a ampliação de unidades de conservação existentes e a criação de uma nova área protegida no Norte de Minas Gerais, totalizando mais de 174 mil hectares sob proteção.
No Pantanal mato-grossense, duas unidades federais foram ampliadas. A Estação Ecológica Taiamã passou de 11.554 para 68.502 hectares, enquanto o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense teve sua área expandida de 135.922 para 183.182 hectares.
As áreas são consideradas estratégicas para a preservação de zonas alagadas e habitats de espécies ameaçadas, como onça-pintada, tatu-canastra, ariranha e cervo-do-pantanal, além de funcionarem como berçários naturais importantes para a pesca na bacia do Rio Paraguai.
Segundo o governo, a ampliação também deve gerar impactos econômicos positivos, fortalecendo o turismo de natureza, a pesca sustentável e a arrecadação municipal por meio do ICMS ecológico, além de ampliar ações de prevenção e combate a incêndios florestais.
A COP15 segue até o dia 29 de março em Campo Grande, reunindo delegações internacionais para discutir políticas globais de conservação da biodiversidade e cooperação ambiental entre países.



















