Com petróleo em alta, governo aposta em subsídios para conter preço do diesel

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30% do diesel usado no Brasil são importados: preço varia com o petróleo e o dólar (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Medidas buscam reduzir preço nas bombas em até R$ 0,60, mas economistas alertam para impacto nas contas públicas

O diesel voltou ao centro do debate econômico nacional antes mesmo de um novo reajuste chegar às bombas. Em meio à alta do petróleo no mercado internacional, provocada pelas tensões no Oriente Médio, o governo federal tenta cumprir a promessa de evitar que o aumento do combustível pese diretamente no bolso do consumidor — tarefa que especialistas classificam como possível apenas no curto prazo.

A declaração mais recente veio nesta quinta-feira (2), quando o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que mais de 90% dos estados aderiram à proposta de subvenção ao diesel importado. A iniciativa busca reduzir em até R$ 0,60 o preço final do combustível e integra um conjunto de medidas adotadas pelo governo para conter a escalada dos preços.

Entre as ações já anunciadas estão a zeragem das alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel, a criação de subsídios federais para compensar parte da alta do produto importado e um acordo com os estados para compartilhar mecanismos de redução do custo do combustível. O pacote também inclui reforço na fiscalização contra práticas consideradas abusivas por distribuidoras e postos.

Apesar das medidas, economistas avaliam que o impacto tende a ser limitado caso o preço internacional do petróleo continue em alta. Isso ocorre porque cerca de 30% do diesel consumido no Brasil é importado, ficando diretamente sujeito às oscilações do barril e do câmbio, mesmo com a maior parte da produção sendo nacional.

Para o professor de finanças do Ibmec Brasília, Marcos Sarmento Melo, qualquer tentativa de reduzir rapidamente o preço do combustível exige aumento de gastos públicos ou renúncia fiscal. Segundo ele, os efeitos positivos são imediatos para o consumidor, mas trazem pressão adicional às contas do governo.

Na prática, explica o economista, o custo acaba sendo redistribuído. Se o governo reduz impostos ou amplia subsídios, a arrecadação diminui e cresce o risco de desequilíbrio fiscal, o que pode gerar impactos indiretos na economia, como inflação e desvalorização cambial.

A professora da PUC-PR e especialista em economia e relações internacionais Ludmila Culpi afirma que o mercado de combustíveis é um dos pontos mais sensíveis para qualquer gestão pública, já que influencia diretamente o transporte, o preço dos alimentos e toda a cadeia produtiva.

Segundo ela, o país possui pouca margem de manobra no curto prazo devido à dependência histórica de importações. Entre as alternativas defendidas por economistas está a criação de um fundo de estabilização de preços, abastecido com royalties do petróleo e dividendos da Petrobras, que funcionaria como uma reserva financeira para momentos de crise internacional.

Outra possibilidade seria ampliar temporariamente a mistura de biodiesel ao diesel fóssil, embora a medida enfrente limitações técnicas e também dependa do custo de insumos agrícolas, como a soja.

O governo federal já formalizou parte das ações por meio da Medida Provisória nº 1.340/2026, que prevê subsídio direto a produtores e importadores, além do acordo com estados para ampliar o efeito de redução ao consumidor. A estratégia também inclui manter uma política de preços menos sensível às oscilações externas e endurecer a fiscalização sobre o mercado.

Especialistas, no entanto, alertam que manter preços artificialmente baixos por muito tempo pode gerar efeitos colaterais. A perda de arrecadação pode alcançar bilhões de reais, pressionando o déficit público e afetando a confiança de investidores, o que, paradoxalmente, pode encarecer ainda mais o diesel importado.

Caso a pressão internacional persista, economistas defendem medidas mais direcionadas, como a criação de um “vale-diesel” voltado a caminhoneiros autônomos e ao transporte público, evitando subsídios generalizados. Outra alternativa seria a adoção de bandas de preços, com reajustes graduais para reduzir impactos bruscos na inflação e no custo do frete.

Enquanto o cenário externo segue instável, o desafio do governo será equilibrar o compromisso político de segurar os preços com os limites fiscais — uma equação que, segundo especialistas, tende a ficar cada vez mais difícil de resolver se o petróleo continuar em trajetória de alta.