Dois anos após primeira edição, país soma 82,8 milhões de pessoas endividadas; governo aposta em nova rodada de renegociação com descontos de até 85%
A cada novo ciclo de renegociação de dívidas anunciado pelo governo federal, milhões de brasileiros conseguem limpar o nome — mas, pouco tempo depois, parte deles volta a enfrentar dificuldades para pagar as contas. O movimento se repetiu após o fim do primeiro Desenrola Brasil e agora desafia o relançamento do programa, que tenta frear uma inadimplência recorde em meio à pressão da inflação, juros altos e perda do poder de compra das famílias.
Relançado no início de maio, o Novo Desenrola Brasil, apelidado de “Desenrola 2.0”, volta ao centro da estratégia econômica do governo federal em um momento politicamente delicado. A poucos meses das eleições presidenciais, o Palácio do Planalto aposta novamente em uma medida com impacto direto no orçamento das famílias para tentar reduzir o número de inadimplentes no país.
Dois anos após o encerramento da primeira edição do programa, o Brasil registrou aumento de 10,3 milhões de pessoas inadimplentes. O total chegou a 82,8 milhões de brasileiros com dívidas em atraso.
Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o crescimento da inadimplência é resultado de um “efeito sanfona”, provocado principalmente pelas oscilações da taxa básica de juros, a Selic, além dos reflexos econômicos ainda deixados pela pandemia da Covid-19.
Em entrevista recente ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, Durigan afirmou que, durante a pandemia, muitas famílias perderam renda ou ficaram desempregadas, o que levou ao aumento do endividamento.
Economistas, porém, avaliam que o problema vai além dos juros elevados. Para especialistas, fatores como inflação persistente, principalmente no preço dos alimentos, aumento do custo de vida, renda insuficiente, crédito caro e falta de educação financeira ajudaram a empurrar milhões de brasileiros novamente para a inadimplência.
“O juro é o custo do dinheiro. Quando ele está alto, a inadimplência tende a crescer, mas esse não é o único motivo”, afirma o economista Tiago Velloso.
Segundo ele, o cenário pós-Desenrola 1 também foi impactado por crises internacionais, como a guerra na Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio, que elevaram o preço do petróleo e pressionaram a inflação global, dificultando a redução dos juros no Brasil.
A especialista em finanças Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide, destaca ainda que a rápida digitalização do sistema financeiro ampliou o acesso ao crédito sem que houvesse preparo suficiente da população para lidar com empréstimos, financiamentos e cartões.
“O acesso ao crédito aconteceu antes de as pessoas estarem preparadas financeiramente”, afirmou.
O que aconteceu após o primeiro Desenrola
A primeira edição do programa foi lançada em maio de 2023 e terminou em março de 2024. Voltado para dívidas negativadas entre 2019 e 2022, com valor atualizado de até R$ 20 mil, o programa foi considerado um sucesso pelo Ministério da Fazenda.
Segundo dados oficiais, cerca de 14,8 milhões de pessoas foram beneficiadas. Ao todo, foram negociados R$ 53,2 bilhões em dívidas, com descontos que chegaram a mais de 90% nos pagamentos à vista.
As renegociações ocorreram principalmente por celular, com maior participação de mulheres e pessoas entre 35 e 44 anos. As dívidas mais renegociadas foram as bancárias e de cartão de crédito.
O governo também informou que a inadimplência entre o público elegível caiu 8,7% durante a vigência do programa.
Mesmo assim, os indicadores gerais da economia mostraram melhora limitada no longo prazo.
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que o endividamento das famílias passou de 76,9% em outubro de 2023 para 78,8% em março de 2024. Já a inadimplência caiu apenas 0,5 ponto percentual no período.
Na mesma linha, números da Serasa apontaram aumento no volume total de inadimplentes ao fim do programa. Em maio de 2024, o país tinha 72,54 milhões de pessoas com dívidas em atraso — cerca de 590 mil a mais do que no início da reta final da primeira edição.
Para especialistas, isso mostra que, mesmo após renegociar dívidas, muitas famílias continuaram comprometendo grande parte da renda com gastos básicos, como alimentação, moradia e transporte.
O que muda no Desenrola 2.0
A nova versão do programa tem foco maior nas famílias de baixa renda e prioriza pessoas que recebem até cinco salários mínimos.
Outra novidade é a chamada “desnegativação” de dívidas de até R$ 100, medida que busca facilitar o acesso ao crédito para consumidores com pequenas pendências financeiras.
Em balanço divulgado nesta quinta-feira (21), o ministro Dario Durigan afirmou que o programa já permitiu a quitação à vista de 449 mil dívidas, com desconto médio de 85%.
Segundo o governo, do total de R$ 1 bilhão em dívidas negociadas, foram pagos R$ 154 milhões.
Além disso, outras 685,5 mil dívidas foram refinanciadas, também com desconto médio de 85%. Nesse caso, R$ 9 bilhões em débitos foram renegociados para R$ 1,3 bilhão.
Durigan afirmou que a primeira edição teve efeito positivo, mas perdeu força diante da alta dos juros.
“A gente deu um primeiro tratamento, mas não foi suficiente porque os juros voltaram a crescer”, declarou.
Especialistas defendem mudanças estruturais
Apesar dos resultados iniciais, analistas avaliam que programas de renegociação têm alcance limitado se não forem acompanhados por mudanças estruturais na economia.
Entre os principais pontos apontados estão ampliação da educação financeira, aumento da renda média, redução da informalidade e melhora do poder de compra da população.
Para o economista Tiago Velloso, programas como o Desenrola ajudam a aliviar momentaneamente o endividamento, mas não conseguem resolver o problema de forma definitiva.
“Sem mudanças estruturais, as pessoas acabam voltando ao sistema financeiro e entrando novamente em ciclos de endividamento”, afirmou.











