Brasil tenta esclarecer impactos de decisão dos EUA sobre PCC e Comando Vermelho

18
Ministro da Fazenda terá reuniões com autoridades americanas; especialistas avaliam que reversão da medida é improvável no curto prazo (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Encontros previstos para esta semana devem discutir efeitos da classificação para bancos, empresas e cooperação internacional

A classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas internacionais pelos Estados Unidos abriu uma nova frente de negociação entre Brasília e Washington. Em meio às preocupações sobre os possíveis efeitos da medida para o sistema financeiro e para empresas brasileiras, o governo federal intensifica o diálogo diplomático para compreender o alcance da decisão anunciada pelos norte-americanos.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou que terá reuniões ao longo desta semana com autoridades dos Estados Unidos para tratar do tema. O objetivo é esclarecer os impactos da classificação e apresentar informações sobre as ações brasileiras de combate ao crime organizado.

Especialistas em relações internacionais avaliam que o encontro pode contribuir para ampliar o entendimento entre os dois países, embora considerem remota uma mudança de posição imediata por parte do governo americano.

Para o internacionalista João Alfredo Nyegray, a decisão dos Estados Unidos é resultado de um processo longo de avaliação envolvendo diferentes órgãos governamentais, como agências de inteligência, autoridades de segurança e setores responsáveis pela política externa e econômica.

Segundo ele, a principal missão da diplomacia brasileira neste momento é evitar consequências mais amplas e demonstrar que as facções já são alvo de operações permanentes das forças de segurança nacionais. A estratégia também inclui reforçar o entendimento de que os grupos devem ser tratados como organizações criminosas transnacionais, e não necessariamente como entidades terroristas.

Nyegray destaca que decisões relacionadas à segurança nacional costumam ser mais difíceis de serem revertidas. Na avaliação do especialista, alterações nesse tipo de enquadramento normalmente dependem de uma revisão da própria percepção do governo americano sobre o grau de ameaça representado pelos grupos investigados.

Já o professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, Leonardo Paz, considera que o encontro poderá servir para aprofundar a troca de informações e esclarecer os critérios adotados pelos Estados Unidos para justificar a classificação.

Segundo ele, o governo brasileiro terá a oportunidade de apresentar argumentos técnicos e dados sobre o combate às organizações criminosas, enquanto busca compreender melhor os fundamentos utilizados por Washington para embasar a medida.

Apesar disso, Paz avalia que o cenário político reduz as chances de uma reversão no curto prazo. Para o especialista, a decisão foi tomada em um contexto que envolve pressões políticas e discussões internas nos Estados Unidos sobre segurança e combate ao crime organizado internacional.

Na avaliação de Adriano Gianturco, coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec-BH, a negociação diplomática continua sendo o caminho mais viável. Ele ressalta que medidas adotadas pelo governo americano frequentemente fazem parte de estratégias de pressão que posteriormente são levadas à mesa de negociação.

Entre os temas que devem dominar as conversas entre os dois países estão os reflexos da classificação para bancos, empresas e instituições financeiras, além das regras de compartilhamento de informações de inteligência e das expectativas dos Estados Unidos em relação às ações brasileiras de combate às facções.

Especialistas também apontam que a condução do discurso após as reuniões poderá influenciar os próximos passos da relação bilateral. Enquanto o governo brasileiro busca defender sua autonomia na condução das políticas de segurança pública, os Estados Unidos tendem a reforçar a necessidade de ampliar a cooperação internacional no enfrentamento ao crime organizado.

A expectativa é que os encontros previstos para esta semana ajudem a esclarecer dúvidas sobre os efeitos práticos da medida, mesmo que não resultem em mudanças imediatas na decisão adotada por Washington.