Primeiro mês completo sem o imposto registrou alta nas encomendas internacionais e reacendeu debate entre plataformas estrangeiras e varejo nacional
A retirada da chamada “taxa das blusinhas” provocou uma explosão nas compras internacionais de baixo valor no Brasil. Em junho, primeiro mês completo após o fim da cobrança do imposto de importação para encomendas de até US$ 50, o número de remessas internacionais mais que dobrou em relação ao mesmo período do ano passado, refletindo o impacto imediato da mudança nas regras.
Dados da Receita Federal, reunidos em relatório do BTG Pactual com base no programa Remessa Conforme, mostram que o país recebeu 28,36 milhões de encomendas internacionais em junho. O volume representa um crescimento de 118% em comparação com junho de 2025, quando foram registradas 13,02 milhões de remessas.
Na comparação com abril deste ano, último mês completo em que a tributação ainda estava em vigor, o aumento foi de 72%. Em relação à média dos quatro primeiros meses de 2026, a alta chega a 84%.
O avanço também foi percebido no valor movimentado pelas compras internacionais. Em junho, as importações somaram R$ 2,6 bilhões, um crescimento de 101% sobre o mesmo mês do ano passado e de 68% na comparação com junho de 2024, período anterior à criação da cobrança federal.
Plataformas comemoram
A revogação da tributação foi bem recebida pelas plataformas internacionais de comércio eletrônico.
Em nota, o AliExpress afirmou que o novo modelo tributário amplia o acesso da população a produtos importados. “A atual estrutura tributária para compras de menor valor democratiza o acesso do consumidor brasileiro a produtos exclusivos e marcas globais, beneficiando diretamente as classes de menor renda e ampliando seu poder de compra”, informou a empresa.
A plataforma acrescentou que mantém expectativa positiva para os próximos meses e afirmou que seus prazos de entrega permaneceram estáveis durante junho.
Já a Shein enfrentou reclamações de consumidores nas redes sociais. Clientes relataram atrasos na entrega de pedidos realizados entre o fim de maio e o início de junho. Em diversos casos, o aplicativo informava que os envios poderiam sofrer demora devido à “insuficiência de recursos logísticos”, situação atribuída por usuários ao aumento da demanda após o fim da taxa.
Especialistas apontam outros fatores
Para a consultora de varejo e CEO da AGR Consultores, Ana Paula Tozzi, a redução da tributação explica parte do crescimento, mas não é o único motivo para o aumento das compras internacionais.
Segundo ela, as plataformas estrangeiras vêm ampliando sua participação no mercado brasileiro ao investir em tecnologia, inteligência artificial, personalização das ofertas, maior variedade de produtos e redução dos prazos de entrega.
Na avaliação da especialista, esse cenário amplia a concorrência para o comércio nacional, que enfrenta custos mais elevados. “O varejo brasileiro opera com carga tributária elevada, custos logísticos maiores, legislação trabalhista complexa e diversas obrigações regulatórias. Quando essa diferença aumenta, a competição deixa de ocorrer apenas por eficiência ou inovação e passa a refletir modelos de custos muito distintos”, afirmou.
Varejo pede isonomia tributária
O crescimento das importações reacendeu o debate entre representantes do comércio nacional e das plataformas internacionais.
O Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), que reúne empresas como Americanas, Casas Bahia, Magazine Luiza, Renner, Dafiti e Centauro, afirmou que o aumento das compras em sites estrangeiros poderá reduzir as vendas do varejo brasileiro e afetar empregos e investimentos.
Em manifestação conjunta divulgada por entidades empresariais e frentes parlamentares, foi defendida a adoção de regras tributárias iguais para empresas nacionais e internacionais. “Se baixar para estrangeiro, tem que baixar para brasileiro”, afirma o documento.
Por outro lado, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como Alibaba, Amazon e Shein, classificou o crescimento das importações como um movimento esperado após a retirada do imposto.
A entidade, no entanto, pondera que ainda é cedo para avaliar se esse aumento será permanente e defende um período de pelo menos seis meses para análise do comportamento do mercado.
Decisão ainda depende do Congresso
O fim da “taxa das blusinhas” foi estabelecido por meio de uma Medida Provisória publicada em maio. Embora a isenção do imposto de importação já esteja em vigor, a medida precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para se tornar definitiva.
Caso não seja votada até setembro, a cobrança poderá ser restabelecida.
Mesmo com o fim do imposto federal, permanece a cobrança do ICMS, cuja alíquota varia entre 17% e 20%, conforme a legislação estadual.
A disputa também chegou ao Judiciário. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) ingressou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir o restabelecimento da tributação, sob o argumento de garantir equilíbrio competitivo entre empresas nacionais e plataformas estrangeiras.
Independentemente da decisão do Congresso e da Justiça, a tributação sobre compras internacionais de até US$ 50 deverá voltar em 2027, por meio da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), criada pela reforma tributária. A alíquota ainda será definida pelo governo federal até o fim deste ano.




















