“Abre-se um buraco dentro da gente, um vazio. Pensamos em não falar sobre isso, afinal, pode parecer que somos amaldiçoadas, incapazes, não ‘seguramos o nosso filho’. Cada mulher vive de uma forma diferente o luto, a perda. Mas se existem dor e delícia em ser mulher, o aborto com certeza faz parte da dor”. O depoimento é da jornalista e advogada Ana Maria Assis de Oliveira, que sofreu um aborto com 9 semanas de gestação em 2019. Histórias com a dela evidenciam a urgência de olhar com mais empatia para o luto parental – uma dor ainda pouco compreendida pela sociedade.
E foi para para dar visibilidade a essa realidade que nasceu o Julho Âmbar, instituído em Mato Grosso do Sul como um mês dedicado à conscientização, informação, acolhimento e construção de políticas públicas voltadas a mães, pais e famílias que perderam seus filhos. Em 2023, por meio da Lei Estadual nº 6.147, o Julho Âmbar passou a integrar o Calendário Oficial do Estado como período dedicado à conscientização do luto parental. A proposta é de autoria do deputado estadual Lucas de Lima (PL).

“Antes mesmo de nos percebermos mulher, ganhamos uma boneca. Somos filhas de uma geração de mulheres que foram criadas, educadas, amadas, cuidadas por mulheres. Enquanto os pais trabalhavam muito ou simplesmente eram ausentes. Assim é para muitas de nós. Fica difícil separar o que é ser mulher e o que é ser mãe”, conta Ana, que sonhou muito com seu primeiro filho. Hoje a jornalista tem o Chico, de 3 anos, mas considera que aprendeu muito com a dor da perda do primeiro bebê. “Repassamos na nossa memória cada refeição, a posição que dormimos, e até os nossos pensamentos, onde erramos? Na maior parte das vezes, não vamos encontrar motivo algum. Filhos simplesmente vão embora. E isso pode acontecer, e nós sobrevivemos, com aquele sonho adormecido dentro da gente”, comenta Ana.
Capacitação
O Julho Âmbar tem ainda como objetivo capacitar profissionais da saúde e da educação para lidarem com o luto de forma sensível e adequada, além de promover momentos que celebrem o amor e honrem a memória dos filhos que partiram. De acordo com a legislação, a iniciativa prevê ampla divulgação de informações e orientações para as famílias que passaram por essa situação, além da realização de atividades de apoio e acolhimento.
“É uma dor que não tem nome, que muitas vezes é invisível, mas que precisa ser acolhida. Com essa lei nós queremos não apenas reconhecer esse sofrimento, mas também oferecer espaços de escuta, apoio psicológico e campanhas de conscientização para que essas famílias saibam que não estão sozinhas. É sobre enxergar o outro em seu momento mais difícil, é sobre construir uma rede de apoio para transformar dor em memória e amor em cuidado”, afirma o deputado Lucas de Lima.
Mortalidade Infantil
Conforme dados de 2026 do Painel Mais Saúde do Governo de Mato Grosso do Sul, a taxa de mortalidade infantil é de 10,81 por mil nascidos vivos – dados até julho deste ano. As estatísticas indicam que houve 16.558 nascidos vivos neste período, dos quais 179 crianças faleceram. As três principais causas de morte foram: septicemia do recém-nascido, transtornos relacionados à gestação de curta duração e ao baixo peso ao nascer, e má formação congênita do coração.
Segundo a última atualização do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023, no estado de Mato Grosso do Sul, a taxa de mortalidade infantil foi de 13,55 por mil nascidos vivos, com 545 óbitos de crianças menores de um ano. A taxa nacional no mesmo ano foi de 12,5. Na capital, Campo Grande, a taxa foi de 11,58 por mil nascidos vivos, com 138 óbitos infantis registrados.
Transformando a dor
A perda de um filho não termina com as homenagens, mensagens de apoio ou visitas dos primeiros dias. Para muitas famílias, a saudade permanece e falar sobre ela se torna parte do processo de seguir em frente. Para oferecer esse espaço de escuta e acolhimento, a Associação de Apoio às Crianças com Câncer (AACC/MS) mantém o grupo Transformando a Dor, voltado a familiares que vivenciam o luto após a perda de crianças e adolescentes em tratamento contra o câncer. Esse trabalho se conecta ao Julho Âmbar, mês de conscientização sobre o luto parental. Segundo a psicóloga da AACC/MS, Rozenilda Barbosa, o sofrimento da perda persiste mesmo quando o tema deixa de ser abordado pelas pessoas ao redor. “Muitas mães nos contam que, com o passar do tempo, sentem que já não têm mais com quem compartilhar essa saudade. E é justamente por isso que espaços de escuta são tão importantes”.

Os encontros do grupo acontecem principalmente de forma online e reúnem familiares que compartilham experiências e sentimentos relacionados ao processo de luto. Para quem prefere um acompanhamento individual, a instituição também oferece suporte psicológico personalizado. O trabalho integra a assistência da equipe de Psicologia da AACC/MS, que acompanha crianças, adolescentes e familiares desde o diagnóstico, durante o tratamento e também nos casos de óbito. “Quando uma criança passa pela AACC/MS, ela deixa marcas em todos nós. E quando uma família enfrenta a perda, ela continua precisando de acolhimento. Porque ninguém deveria atravessar essa dor sozinho”, destaca a presidente e fundadora da instituição, Mirian Comparin Corrêa. O suporte inclui atendimentos individuais, atividades terapêuticas, visitas hospitalares e domiciliares, além da atuação integrada com a equipe multiprofissional.
Desde 1998, a AACC/MS acompanha milhares de crianças, adolescentes e famílias em Mato Grosso do Sul. Nesse período, o trabalho da instituição contribuiu para a mudança do cenário da oncologia pediátrica no Estado, com taxas de cura passando de cerca de 10% para aproximadamente 70%.
Em 2025, a AACC/MS realizou 17.910 atendimentos multiprofissionais e assistiu 323 crianças e adolescentes. No mesmo período, registrou 6.346 hospedagens, serviu 31.676 refeições, contabilizou 677 internações no Centro de Tratamento Onco Hematológico Infantil (Cetohi) e distribuiu 1.338 cestas básicas e sociais às famílias atendidas.
Para a instituição, cuidar também significa permanecer ao lado das famílias nos momentos mais difíceis. Por isso, o acompanhamento psicológico segue disponível mesmo após a perda, respeitando o tempo e a forma como cada pessoa vivencia o luto. “Falar sobre quem partiu não prolonga a dor. Prolonga a memória. E toda criança merece ser lembrada pela história que deixou”, conclui Mirian Comparin.





















