Pesquisa analisou dados mensais de 2012 a 2025 e identificou efeito positivo e estatisticamente significativo do sistema
A popularização do Pix pode ter feito mais do que mudar a forma como os brasileiros transferem dinheiro. Uma análise econométrica que cruzou dados do sistema de pagamentos com informações do mercado de trabalho indica que o sistema de pagamentos instantâneos, associado à evolução da infraestrutura financeira, contribuiu para o aumento do empreendedorismo no país nos últimos anos.
O estudo analisou a relação entre a utilização do Pix e uma medida de empreendedorismo criada pelos pesquisadores, calculada a partir da proporção de trabalhadores por conta própria em relação ao total de pessoas na força de trabalho.
Os dados utilizados foram extraídos do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS), do Banco Central, com informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Foram analisadas séries mensais entre março de 2012 e agosto de 2025. O modelo considera a entrada em funcionamento do Pix, em 2020, além do volume mensal de transações realizadas pelo sistema.
Também foram incluídas variáveis para controlar fatores que poderiam influenciar o empreendedorismo, como o desempenho da economia, a taxa básica de juros e o volume total de transações no sistema de pagamentos.
Efeito positivo sobre trabalhadores por conta própria
De acordo com os pesquisadores, os resultados mostraram uma relação positiva e estatisticamente significativa entre o Pix e o empreendedorismo.
O efeito permaneceu nas diferentes especificações do modelo, inclusive quando foram considerados o ciclo econômico, a política monetária e o nível geral de atividade do sistema de pagamentos.
Na prática, a análise indica que o aumento do uso do Pix esteve associado ao crescimento da proporção de trabalhadores por conta própria, indicador utilizado pelos autores como uma aproximação para medir o empreendedorismo.
Os pesquisadores também identificaram relação entre as condições econômicas e a atividade empreendedora. Um desempenho positivo da economia esteve associado a maior atividade por conta própria, enquanto taxas de juros mais elevadas tenderam a apresentar relação inversa.
O volume total de transações também apresentou efeito positivo, segundo o estudo. Para os autores, o resultado sugere que uma infraestrutura de pagamentos mais ativa pode contribuir para criar condições favoráveis à abertura e manutenção de pequenos negócios.
Pix como ferramenta de inclusão econômica
Para os responsáveis pela pesquisa, os resultados reforçam a importância da estrutura do sistema de pagamentos como possível instrumento de transformação econômica, principalmente em países emergentes.
A hipótese levantada é que a digitalização dos pagamentos pode reduzir barreiras para trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores, facilitando o recebimento de valores e a realização de transações.
“Os resultados destacam a relevância do desenho do sistema de pagamentos como instrumento de política econômica, especialmente em economias emergentes, nas quais a digitalização pode ampliar oportunidades de trabalho por conta própria e de empreendimento em pequena escala”, afirmam os pesquisadores.
O trabalho foi realizado por Claudio de Moraes, professor de macroeconomia e finanças do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Coppead), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que também atua no Banco Central na área de estabilidade financeira, e por Aristides Andrade Cavalcante Neto, chefe do Departamento de Gestão Estratégica e Supervisão Especializada (Degef) do Banco Central.
Pesquisadores apontam limitações
Apesar dos resultados, os autores ressaltam que a pesquisa ainda possui limitações. Uma delas é o período relativamente curto desde o lançamento do Pix, em novembro de 2020.
Por esse motivo, os pesquisadores afirmam que novos estudos poderão aprofundar a análise e verificar se os efeitos observados são diferentes entre regiões do país e grupos demográficos.
Outra possibilidade apontada é investigar a relação do Pix com outras inovações do sistema financeiro, como o Open Finance.
Segundo os pesquisadores, as evidências obtidas até agora representam uma indicação inicial de que sistemas de pagamentos instantâneos podem influenciar não apenas a maneira como as pessoas movimentam dinheiro, mas também sua participação na atividade econômica.
O estudo deverá integrar um capítulo da segunda edição do livro “Disruptive Technology in Banking and Finance: An International Perspective on FinTech”, organizado pelo professor Timothy King, da University of Vaasa, na Finlândia. A publicação está prevista para dezembro.





















