Operação Death List prende responsável por divulgar listas de execução de facção

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Foto: MPMS/Gaeco

Nomes, rostos, apelidos e cidades publicados em redes sociais com um carimbo de sentença: “decretado de morte”. O que parecia apenas ameaça virtual se transformou em tragédia real: duas pessoas que apareciam nessas publicações foram assassinadas — e uma delas foi executada junto com a filha de apenas três anos de idade.

É para desmantelar essa engrenagem de violência anunciada que a Unidade de Investigação de Crimes Cibernéticos (UICC) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul deflagrou nesta quinta-feira (3) a Operação Death List, com apoio da Polícia Militar de Mato Grosso, cumprindo mandados de prisão e busca e apreensão em Juscimeira (MT), contra o homem apontado como responsável pelas publicações.

A sentença que veio de um perfil

A investigação revelou que, de um perfil em rede social, eram divulgadas listas com dados completos das vítimas: fotografia, nome, apelido e cidade onde residiam. A maioria dos alvos morava em municípios do interior de Mato Grosso do Sul.

O autor do perfil, mesmo tentando repetidamente apagar rastros e cobrir o rastro digital, foi identificado por análise técnica da UICC — provas suficientes para vinculá-lo às publicações e levar à ação desta quinta-feira.

A acusação é grave: favorecimento ao domínio social estruturado, conforme o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, cuja pena varia de 12 a 20 anos de reclusão e tem natureza hedionda.

Responde também por ameaça em contexto faccional e, em tese, por participação em organização criminosa. Os celulares apreendidos estão sendo submetidos à perícia, sob rigorosa cadeia de custódia, para revelar ainda mais sobre o alcance e a estrutura por trás das listas.

Quando a sentença virtual vira morte real

O que torna o caso ainda mais alarmante é que as listas não eram apenas ameaça: foram cumpridas. Em 1º de agosto, em Cassilândia, Márcio Aparecido da Silva Filho, de 27 anos, foi morto a tiros dentro do próprio carro — ao lado da filha de três anos, que também foi atingida e não sobreviveu.

O crime constava na lista. Dias depois, o suspeito de conduzir a moto do atirador foi preso; na madrugada de 5 de agosto, os autores do homicídio morreram em confronto com policiais do Batalhão de Choque.

A violência anunciada se repetiu. Na noite de 1º de setembro, em Paranaíba, um adolescente de 17 anos — cuja imagem também circulava com o rótulo de “decretado de morte” — foi executado com tiros na cabeça dentro de casa.

O atirador entrou, se aproximou da vítima na cozinha e efetuou os disparos; ao sair, comemorava ao telefone: “Deu certo. Consegui. Ele já está morto”. A vítima teria dito, momentos antes, que nem sequer conhecia o autor dos tiros.

A fronteira entre o digital e o real

A Operação Death List expõe com clareza uma nova face do crime organizado: a violência migrou para as redes sociais antes de se consumar nas ruas. As listas funcionam como instrumento de poder, intimidação e domínio territorial — uma forma de anunciar quem será punido, de impor medo coletivo e de tornar a execução quase uma consequência óbvia da publicação.

O responsável pelo perfil transformou a rede social em um tribunal sem juízo, de onde saíram sentenças de morte que foram cumpridas na vida real. E o mais chocante: as vítimas nem sempre tinham envolvimento direto com facções — estavam simplesmente numa lista, expostas ao risco de serem confundidas, alvo de disputas ou marcadas por quem se acha dono da vida alheia.

Alerta: não compartilhe, denuncie

Diante dessa realidade, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul lança um alerta à população: não compartilhe esse tipo de publicação, mesmo que pareça apenas informação ou alerta.

A disseminação amplia o alcance da ameaça e dá força ao poder intimidador dos grupos. Se encontrar conteúdos desse tipo, denuncie imediatamente — pela Ouvidoria do MPMS ou aos órgãos de segurança pública.

A operação desta quinta-feira prendeu quem escrevia as listas. Mas a luta contra essa forma de violência digital só avança se a sociedade também não reproduzir as sentenças. Porque cada nome compartilhado é uma vida sob ameaça — e como os fatos demonstraram, a lista virtual tem sido o prenúncio de uma morte real.