Na ONU, Lula deve defender multilateralismo e mudanças no Conselho de Segurança

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Conflitos, clima, IA e impacto das guerras nos preços devem estar entre os temas abordados por Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Discurso ocorre na terça-feira e deve abordar guerras, clima, direitos humanos e os impactos da inteligência artificial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre na terça-feira (23) o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, com uma agenda voltada à defesa do multilateralismo, à reforma do Conselho de Segurança e à busca por soluções negociadas para conflitos internacionais. A expectativa é que o discurso também trate de mudanças climáticas, direitos humanos, meio ambiente e dos impactos do avanço da inteligência artificial.

A participação de Lula ocorre no primeiro dia da programação de alto nível da Assembleia Geral, que reúne representantes dos 193 países-membros da ONU. O Debate Geral começou em 22 de setembro e segue até 28 de setembro. O tema desta edição é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.

O Brasil mantém a tradição de fazer o primeiro discurso do Debate Geral desde 1955. Depois da fala brasileira, é a vez do país-sede, os Estados Unidos. A ONU estabelece 15 minutos como tempo para cada Estado-membro, embora esse limite nem sempre seja seguido.

Reforma do Conselho de Segurança

Um dos principais pontos esperados no discurso é a defesa de mudanças no Conselho de Segurança da ONU. Lula deve voltar a questionar a atual composição do órgão e defender uma estrutura considerada mais representativa da realidade internacional.

O Conselho de Segurança tem cinco membros permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — que possuem poder de veto. Outros dez países ocupam assentos não permanentes, eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos.

A defesa brasileira por uma reforma do Conselho não é nova. Em discursos anteriores na ONU, Lula já argumentou que a estrutura precisa refletir as transformações ocorridas no mundo desde a criação da organização, incluindo uma maior representação de países da América Latina e da África.

A reforma do Conselho de Segurança também envolve o debate sobre o direito de veto e a ampliação do número de integrantes permanentes e não permanentes.

Conflitos e multilateralismo

A fala de Lula deverá ocorrer em um cenário marcado por guerras e crises diplomáticas em diferentes regiões do mundo. A própria ONU aponta que a atual Assembleia Geral acontece em meio ao aumento das tensões geopolíticas e a uma série de crises interligadas.

O governo brasileiro pretende reforçar a defesa do multilateralismo como instrumento para negociação entre os países. A ideia é destacar a necessidade de fortalecer organismos internacionais diante da dificuldade de alcançar soluções para conflitos por meio exclusivamente de ações individuais.

Lula também deve defender o respeito à soberania dos países e o princípio de não interferência em assuntos internos.

Outro ponto previsto é o impacto econômico dos conflitos internacionais. Guerras podem afetar cadeias de produção e transporte e pressionar preços de alimentos, combustíveis e fertilizantes, com efeitos principalmente sobre países em desenvolvimento.

Mudanças climáticas e inteligência artificial

A agenda ambiental também deverá fazer parte da manifestação brasileira. A programação da ONU inclui, nesta quarta-feira (23), uma reunião de alto nível sobre ação climática e transição justa. O encontro vai discutir medidas para acelerar a transição energética, fortalecer a segurança energética e enfrentar os efeitos da crise climática.

A inteligência artificial será outro assunto acompanhado pelo governo brasileiro. A discussão envolve os efeitos da expansão da tecnologia, além da necessidade de estabelecer mecanismos de cooperação e regras internacionais.

Direitos humanos e desenvolvimento também estão entre os assuntos relacionados à programação da Assembleia Geral.

Relação com os Estados Unidos

A presença de Lula em Nova York também ocorre em meio às tensões comerciais e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. O presidente brasileiro deve evitar transformar o discurso na ONU em um embate direto com o governo norte-americano.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fará o discurso após Lula, seguindo a tradição da Assembleia Geral.

Apesar de ambos estarem em Nova York, não há, até o momento, confirmação de uma reunião bilateral formal entre os dois presidentes. A expectativa informada por integrantes do governo é de que eles possam se encontrar de maneira informal durante a programação.

Lula tem defendido publicamente a abertura de diálogo com Trump para tratar das divergências entre os dois países. O governo brasileiro também sustenta que questões internas e eleitorais devem ser tratadas pelos próprios brasileiros.

Crime organizado

O combate ao crime organizado também poderá aparecer na agenda brasileira. A estratégia do governo é apresentar ações contra facções criminosas e crimes ambientais como exemplos da necessidade de ampliar a cooperação internacional.

O tema ganhou espaço nas relações entre Brasil e Estados Unidos depois de manifestações de autoridades norte-americanas sobre organizações criminosas que atuam no país.

A abordagem brasileira deve ser vinculada à cooperação entre países, especialmente no combate ao tráfico internacional de drogas, armas, lavagem de dinheiro, crimes ambientais e outras atividades transnacionais.

Agenda em Nova York

Além do discurso na Assembleia Geral, Lula terá compromissos bilaterais e reuniões durante a passagem por Nova York.

A agenda do presidente inclui encontros com autoridades e representantes de outros países. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também participa da programação e deverá coordenar reuniões relacionadas a diferentes grupos multilaterais.

A 81ª Assembleia Geral reúne líderes de 193 países e terá uma série de encontros de alto nível ao longo da semana. Entre os eventos previstos estão reuniões sobre direito ao desenvolvimento, ação climática, elevação do nível do mar, prevenção de pandemias e combate ao racismo.

Na avaliação do governo brasileiro, o discurso de Lula será uma oportunidade para reafirmar as prioridades da política externa do país em um momento de aumento das tensões internacionais.

A mensagem central esperada é de defesa da cooperação entre os países e do fortalecimento das instituições multilaterais, especialmente a ONU, diante dos conflitos e desafios globais.