Agosto Lilás: Mês de conscientização, realidade de dor: 21 feminicídios em MS

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Campanha Agosto Lilás visa sensibilizar a sociedade sobre as diversas formas de violência contra a mulher. Foto: Divulgação/Assecom

“Para as mulheres que estão em relacionamento afetivo e se sentirem incomodadas com comportamentos estranhos do parceiro, eu digo: por favor, não deixa pra lá”. A frase de alerta  é da jornalista Aline Oliveira, amiga durante 15 anos de Vanessa Ricarte, também jornalista, assassinada pelo namorado em 12 de fevereiro de 2025 em Campo Grande. O assunto dói e incomoda a sociedade, principalmente neste mês – “Agosto Lilás” -, período em que o debate sobre o feminicídio é ampliado.

De janeiro a agosto de 2026, em Mato Grosso do Sul, 21 mulheres perderam a vida nas mãos dos seus próprios companheiros – namorados, noivos ou maridos. O dado alarmante é do SIGO (Monitor da Violência contra a Mulher), da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sejusp), divulgado em 6 de agosto.O Estado figura entre os índices mais altos do Brasil e intensifica campanhas de enfrentamento no período. Em 2025, foram 128 casos de feminicídio consumado ou tentado – 39 mulheres mortas e outras 89 que sobreviveram aos ataques. Nos feminicídios consumados e tentados analisados em 2025, 91,5% das vítimas não possuíam medida protetiva.

“Agosto Lilás” é uma campanha de enfrentamento à violência doméstica familiar contra a mulher, realizada em todo o País por órgãos governamentais e não-governamentais e instituída em Mato Grosso do Sul por meio da Lei Estadual n° 4.969/2016. O grande objetivo é divulgar a Lei Maria da Penha, sensibilizar e conscientizar a sociedade sobre o necessário fim da violência contra a mulher e acima de tudo divulgar os serviços especializados da rede de atendimento à mulher em situação de violência. E dentro do Agosto Lilás, também se coloca em prática o programa “Maria da Penha Vai à Escola”, com a realização de ações educativas voltadas ao público escolar.

Agosto Lilás: Mês de conscientização, realidade de dor: 21 feminicídios em MS
As jornalistas Aline Oliveira e Vanessa Ricarte Foto: Arquivo Pessoal

A mobilização existe, mas os casos não cessam. Aline Oliveira chegou a se sentir culpada pelo assassinato da amiga Vanessa, pois não conseguiu alertá-la do perigo. Mas depois de algum tempo, compreendeu que não é bem assim. “No começo me senti culpada, ainda que indiretamente, pois pensava que se tivesse ido visitá-la perceberia algo. Mas depois compreendi que não foi isso, afinal os abusadores sempre criam uma estratégia para afastar a vítima dos amigos e familiares” relata a jornalista.

Vanessa Ricarte foi morta com três facadas na casa onde morava, no bairro São Francisco. No mesmo dia do crime, ela havia procurado a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para denunciar o ex-companheiro e pedir medida protetiva. Leia o depoimento completo da jornalista Aline Oliveira aqui

Maria da Penha

Entre as mobilizações do Agosto Lilás, se discute a eficácia da Lei Maria da Penha, que completou 20 anos no dia 7 de agosto em meio a um panorama que demonstra os avanços da rede de proteção às mulheres, mas também evidencia que a violência doméstica e familiar persiste. Entre 1º de janeiro e 1º de agosto de 2026, Mato Grosso do Sul registrou 12.245 vítimas de violência doméstica, o equivalente a uma média de 57,5 casos por dia, ou cerca de 2,4 vítimas por hora.

No mesmo período de 2025, foram contabilizadas 12.608 vítimas, média de 59,2 por dia, de acordo com o Monitor da Violência Contra a Mulher, elaborado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) com informações da Sejusp. A última ocorrência de feminicídio (até o fechamento desta reportagem) foi de uma mulher de 26 anos, morta a facadas na madrugada de quinta-feira (6) em Rio Verde de Mato Grosso, cidade localizada à 203 km de Campo Grande. A vítima foi identificada como Nathália Rodrigues Nogueira. Segundo informações preliminares, ela foi atingida por aproximadamente cinco golpes de faca nas costas, na região um pouco abaixo da nuca. O autor, marido da vítima, está foragido.

Agosto Lilás: Mês de conscientização, realidade de dor: 21 feminicídios em MS
Manuela Nicodemos, subsecretária de Políticas Públicas Mulher foto: Arquivo Pessoal

Paralelo às ocorrências, as ações em todo o Estado não param. A subsecretária de Políticas Públicas para as Mulheres em MS, Manuela Nicodemos, explica que em Mato Grosso do Sul existem políticas públicas permanentes que buscam chegar cada vez mais perto das mulheres. “Neste Agosto Lilás, temos ao menos 11 ações programadas, entre seminários, formações, atendimentos itinerantes, ações integradas nos territórios e atividades de mobilização social. A programação é organizada a partir de três pilares: educação, informação e mobilização social”, ressalta.

Uma das principais estratégias, segundo Manuela, é o Ônibus Lilás, que leva informação, orientação, prevenção e acesso a serviços públicos para mulheres de diferentes territórios, incluindo comunidades rurais, assentamentos, comunidades quilombolas, aldeias indígenas e localidades de difícil acesso. “Neste mês, também teremos ações integradas em municípios como Sidrolândia, Paranaíba, Batayporã e São Gabriel do Oeste, aproximando as políticas públicas das mulheres e fortalecendo a rede de proteção”, destaca.

Quanto aos desafios que ainda persistem, a subsecretária cita o modelo “machista patriarcal “, que, segundo ela, impera em toda a sociedade, no Brasil, fora do Brasil, e infelizmente no no Estado também. “Hoje, na medida em que a gente consegue avançar nas políticas públicas para as mulheres, em mecanismos legais como a Lei Maria da Penha, Lei do Feminicídio e Lei da Importunação Sexual, e estamos buscando agora a criminalização da misoginia, o ódio às mulheres também têm se organizado no mundo digital, por exemplo, com grupos de perseguição contra meninas e mulheres.

O machismo estrutural, ao longo da história, sempre se organiza para tentar controlar a vida das mulheres, para decidir quem vive e quem morre. Este continua sendo o principal desafio no combate à violência contra as mulheres em Mato Grosso do Sul”, finaliza. Quando questionada sobre o que ainda falta para reduzir a violência doméstica, Manuela resume: a indignação social. “Quatro mulheres mortas, por dia, num País, não é absolutamente aceitável, mas precisa indignar diariamente toda a população”, pontua.A entrevista completa com a subsecretária Manuela Nicodemos pode ser conferida neste link.

Violência psicológica

Muito antes da violência física contra a mulher, existe a psicológica – qualquer conduta que cause dano emocional, diminua a autoestima, ou tente controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões de uma pessoa. Ela se manifesta por meio de manipulação, ameaças, humilhações, isolamento e controle constante, deixando marcas profundas na saúde mental.

Também para prevenir esse tipo de violência, foi criada no Estado a Lei nº 6.203/2024 que estabelece ações para o fortalecimento da saúde mental e para o enfrentamento da violência psicológica entre mulheres e inclui no Calendário Oficial de Eventos do Estado a Semana de Conscientização sobre a Violência Psicológica entre Mulheres.

Dentre as ações previstas em lei estão: conscientização sobre a ocorrência de violência psicológica entre mulheres; desenvolvimento de habilidades que gerem a promoção mental, trazendo o equilíbrio emocional da mulher e conscientização e promoção da união entre mulheres no que diz respeito ao combate de práticas discriminatórias e constrangedoras entre elas.  

Livros infantis abordam violência contra as mulheres

Agosto Lilás: Mês de conscientização, realidade de dor: 21 feminicídios em MS

A ALEMS desenvolve ações diversas de promoção e defesa de direitos das mulheres e de enfrentamento da violência de gênero. Entre essas iniciativas, está a publicação de dois livros infantis que abordam violências invisibilizadas, provocando reflexões sobre “práticas sutis”: o silenciamento das mulheres e a construção social e histórica de papéis de gênero. As publicações integram a coleção “Cidadania é o bicho”, produzida pela Comunicação Institucional da ALEMS.

Agosto Lilás: Mês de conscientização, realidade de dor: 21 feminicídios em MS

Um dos livros é “Iguana Calada: Uma História de Superação e Liberdade” (clique na imagem acima), da jornalista Glaucia Jandre. Rico em metáforas, o livro conta da dona Iguana, que sofre violência de seu marido, o Lobo Guará. A vontade de desaparecer para fugir do silenciamento causado pelo marido faz a dona Iguana se camuflar. Em sua solidão e invisibilidade, a dona Iguana tinha como amigos dois parasitas: um carrapato e um bicho-de-pé.

O outro livro é “A descoberta da oncinha de laço apertado” (clique na imagem), escrito pela jornalista Ana Maria Assis de Oliveira. É a história de uma onça que, convencida por um macaco que veio da cidade, passa a usar um laço na cintura que a aperta violentamente – a metáfora estimula a reflexão sobre imposições sociais de papéis e comportamentos padronizados a homens e mulheres. Acesso o livro, clicando na imagem ao lado. 

ALEMS e Elas

A Comunicação da Casa de Leis também desenvolveu a página multimídia “ALEMS e Elas”. Essa página reúne a legislação estadual de proteção às mulheres, informa dados e estatísticas, relaciona as deputadas que estão ou estiveram no Parlamento em diferentes legislaturas, apresenta breves biografias de mulheres que se destacaram em áreas diversas em Mato Grosso do Sul, entre outros materiais. Para acessar a página, clique aqui.

Serviço:

Veja onde procurar ajuda em caso de violência contra a mulher:

Denúncias e informações: ligue 180.

Patrulha Maria da Penha: ligue 153.

Casa da Mulher Brasileira: Rua Brasília, Lote A, Quadra 2 – Jardim Imá. Telefone: 2020-1300.

Centro Especializado de Atendimento à Mulher em situação de violência (Ceam): Rua Piratininga, 559 – Jardim dos Estados. Telefone: 0800-067-1236

Ministério Público: Atendimento pelo WhatsApp: (67) 9-9825-0096. O telefone da 72ª Promotoria de Justiça da Casa da Mulher Brasileira é  3318-3970.

Defensoria Pública: Atendimento por WhatsApp: (67) 9-9247-3968. Atendimento on-line: defensoria.ms.def.br. Núcleo de Defesa da Mulher: (67) 3313-4919.