Após limpar nome, 8 em cada 10 consumidores voltam a ficar inadimplentes na Capital

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(Foto: Divulgação)

CDL alerta para “efeito porta giratória” em meio ao lançamento do Desenrola 2.0

O nome sai da lista de inadimplentes, mas a dívida volta pela porta da frente. Em Campo Grande, o avanço da inadimplência e a reincidência de consumidores negativados acenderam um alerta no comércio varejista justamente no momento em que o governo federal prepara o lançamento do novo programa de renegociação de dívidas, o chamado “Desenrola 2.0”.

Segundo avaliação da CDL Campo Grande, oito em cada dez consumidores que conseguiram limpar o nome recentemente voltaram ao cadastro de inadimplentes em menos de um ano, fenômeno que o setor passou a chamar de “efeito porta giratória”.

O cenário preocupa empresários e especialistas porque, na prática, o consumidor renegocia dívidas antigas, mas acaba retomando rapidamente o ciclo de endividamento diante da combinação entre crédito fácil, juros elevados e perda do poder de compra.

O novo programa do governo federal amplia o alcance do Desenrola Brasil, lançado inicialmente em 2023. A nova versão prevê descontos de até 90% em dívidas, juros limitados a 1,99% ao mês e possibilidade de parcelamento em até 48 vezes.

Entre as medidas anunciadas pelo governo está a autorização para uso de até 20% do saldo do FGTS — ou até R$ 1 mil — para renegociação de dívidas.

Para o presidente da CDL Campo Grande, Adelaido Figueiredo, a medida exige cautela e pode aumentar a vulnerabilidade financeira das famílias. “Estamos vivendo uma ilusão perigosa. O Desenrola limpa o nome, mas o mercado oferece logo em seguida um crédito fácil com juros que são verdadeiras armadilhas. Pior ainda: incentiva o trabalhador a gastar o FGTS, que é sua única reserva real”, afirmou.

Segundo ele, outro fator que agrava o endividamento é o crescimento dos gastos com apostas online, que têm retirado recursos do orçamento familiar. “Em Campo Grande, vemos o dinheiro que deveria estar na feira ou guardado para uma emergência escorrer pelo ralo das apostas. Não existe milagre. Se o juro continuar nesse patamar e as famílias perderem renda com esse tipo de gasto, teremos apenas um exército de reincidentes”, declarou.

O próprio governo federal incluiu no novo Desenrola mecanismos de restrição para participantes do programa utilizarem plataformas de apostas durante o período de renegociação das dívidas.

Dados divulgados pelo Ministério da Fazenda mostram que o programa pode beneficiar pessoas com renda de até cinco salários mínimos, permitindo renegociação de débitos em atraso entre 90 dias e dois anos, incluindo cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.

Na avaliação da CDL, o maior gargalo do endividamento hoje está justamente nas linhas de crédito rotativo, principalmente cartão de crédito e cheque especial, considerados os principais responsáveis pela formação da chamada “bola de neve financeira”.

A entidade também alerta empresários sobre o risco de ampliar crédito sem critérios para consumidores já altamente comprometidos financeiramente. “Facilitar crédito para quem já está no limite não resolve o problema. O lojista precisa de clientes saudáveis financeiramente. Crédito irresponsável gera prejuízo futuro para o comércio e para a economia da cidade”, completou Adelaido Figueiredo.

Apesar das críticas, o setor reconhece que programas de renegociação ajudam consumidores a recuperar acesso ao crédito e reorganizar parte da vida financeira. O receio, porém, é que sem educação financeira, controle do endividamento e redução dos juros, o ciclo da inadimplência continue se repetindo.

O governo federal estima que o novo Desenrola possa alcançar até 20 milhões de brasileiros e movimentar bilhões de reais em renegociação de dívidas.