Valorização do real e queda do dólar sustentam expectativa de redução da taxa básica
O Banco Central volta ao centro das atenções do mercado financeiro nesta quarta-feira (29), quando o Copom (Comitê de Política Monetária) decide o novo patamar da taxa Selic em meio a um cenário de inflação pressionada no Brasil e incertezas provocadas pela guerra no Oriente Médio. Apesar do ambiente externo turbulento, economistas e investidores esperam um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, atualmente em 14,75% ao ano.
A decisão será anunciada após a reunião dos diretores do Banco Central do Brasil e valerá pelos próximos 45 dias, até o próximo encontro do colegiado.
No encontro anterior, realizado em março, o Copom reduziu a Selic pela primeira vez desde o início do ciclo de alta iniciado em maio de 2024. A taxa caiu de 15% para 14,75%, interrompendo uma sequência de aumentos que levou os juros ao maior nível em quase 20 anos.
Mesmo diante da alta recente da inflação e da pressão internacional sobre o preço do petróleo, parte do mercado avalia que o cenário cambial abre espaço para um novo corte moderado.
O economista Fábio Murad afirma que a valorização do real e o desempenho positivo da balança comercial ajudam a criar um ambiente mais favorável para a flexibilização da política monetária.
“Em um cenário global incerto, o Brasil se apresenta como uma alternativa segura para investidores”, avaliou.
Na mesma linha, o professor de economia da Universidade Federal de Uberlândia, Benito Salomão, considera que um corte de 0,25 ponto percentual seria compatível com a estratégia do Banco Central.
Segundo ele, a valorização do câmbio pode reduzir parte dos impactos da alta internacional do petróleo sobre a inflação brasileira.
Já o economista Augusto Mergulhão destaca que a entrada de capital estrangeiro no país contribuiu para a queda do dólar nos últimos meses, fator que favorece um corte cauteloso da Selic.
Nem todos os analistas, porém, concordam com a possibilidade de redução dos juros neste momento. O economista Hugo Garbe avalia que a inflação ainda inspira preocupação e entende que o cenário atual exigiria mais cautela por parte do Banco Central.
A expectativa do mercado financeiro é reforçada pelo boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Banco Central. O relatório manteve a projeção da Selic em 13% ao fim de 2026. Entre as estimativas mais recentes, a maioria aponta para uma redução de 0,25 ponto percentual nesta reunião.
Além da decisão desta quarta, investidores acompanham os sinais que o Copom poderá indicar para os próximos encontros, principalmente em relação à reunião de junho.
Na última ata, o comitê afirmou que as decisões seguem alinhadas ao objetivo de controlar a inflação e preservar a estabilidade econômica, mas reconheceu o aumento das incertezas internacionais, especialmente por causa do conflito no Oriente Médio.
O documento também indicou que a continuidade dos cortes dependerá da evolução do cenário econômico global e dos impactos sobre os preços no Brasil.
A Selic é considerada a principal ferramenta do Banco Central para controlar a inflação. Quando os juros sobem, financiamentos, empréstimos e crédito ficam mais caros, o que tende a reduzir o consumo e desacelerar a economia.
Por outro lado, cortes na taxa básica costumam estimular a atividade econômica ao facilitar o acesso ao crédito.
Entre 2022 e 2023, a Selic permaneceu em 13,75% ao ano por vários meses. Depois disso, o Banco Central iniciou uma sequência de cortes que levou a taxa para 10,5% em maio de 2024.
No segundo semestre daquele ano, porém, o Copom retomou as altas diante da pressão inflacionária. Em fevereiro deste ano, os juros chegaram a 15% ao ano — o maior patamar desde 2006 — antes do corte anunciado em março.


















