Cooperação entre Brasil e EUA pode influenciar debate sobre facções como terrorismo

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O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert)

Acordo amplia troca de informações e reforça discussão internacional sobre PCC e Comando Vermelho

Uma nova cooperação entre Brasil e Estados Unidos no enfrentamento ao crime organizado deve ampliar o fluxo de informações entre os dois países e, ao mesmo tempo, influenciar o debate internacional sobre a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas. Na última sexta-feira (10), o governo federal anunciou, por meio do Ministério da Fazenda, um acordo entre a Receita Federal do Brasil e a U.S. Customs and Border Protection para reforçar o combate ao tráfico internacional de armas e drogas.

A iniciativa ocorre em meio a discussões nos Estados Unidos sobre a possibilidade de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas. Para especialistas, o novo acordo pode influenciar esse debate ao ampliar a troca de dados sobre a atuação transnacional dessas organizações.

O internacionalista João Alfredo Nyegray avalia que a cooperação tende a fortalecer a produção de evidências sobre a atuação das facções fora do Brasil, ainda que não altere diretamente a natureza dos grupos.

Segundo ele, o compartilhamento de informações em tempo real pode permitir a conexão de operações antes isoladas, como remessas suspeitas, fluxo de armas e movimentações financeiras. “Isso aumenta a densidade probatória sobre essas organizações”, afirmou.

Nyegray lembra ainda que autoridades brasileiras já reconheceram, em 2025, pressões do Departamento de Estado dos EUA para enquadrar as facções como organizações terroristas, citando sua atuação em território norte-americano.

Para o jurista Murilo Borsio Bataglia, a iniciativa reforça a percepção global de que esses grupos ultrapassam fronteiras nacionais. Ele destaca, porém, que o compartilhamento de dados exige equilíbrio entre cooperação internacional e soberania dos países envolvidos.

Um dos pilares do acordo é a troca de inteligência em tempo real, o que, segundo especialistas, permite integrar informações dispersas e atribuir padrões de atuação a estruturas criminosas mais amplas. Esse tipo de consolidação é visto como relevante em processos de sanção e eventuais reclassificações internacionais.

O acordo também ocorre dentro do chamado Projeto MIT (Mutual Interdiction Team), que prevê operações conjuntas para interceptação de drogas e armas. A iniciativa se apoia ainda no programa DESARMA, da Receita Federal, voltado ao rastreamento internacional de armamentos e materiais sensíveis.

Além disso, uma portaria recente da Receita Federal estabelece a base legal para o compartilhamento de informações e ações coordenadas com autoridades norte-americanas, consolidando a estrutura de cooperação entre os dois países.