Investigação apura suspeitas de irregularidades financeiras, possível conflito de interesses e movimentação de recursos públicos na instituição, que teve as operações interrompidas após uma crise que afetou milhões de clientes.
O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña foi detido nesta sexta-feira (6), poucas horas depois de o Senado aprovar sua destituição do cargo. A ordem de prisão foi cumprida por policiais na residência do político, em Assunção, onde ele deverá permanecer sob custódia domiciliar até ser apresentado ao Ministério Público.
A medida está relacionada às investigações sobre o escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank, instituição que entrou em processo de resolução após problemas de solvência e deixou cerca de 3 milhões de clientes temporariamente sem acesso a suas contas e recursos.
A destituição de Peña foi aprovada por 44 votos no Senado paraguaio, sob a justificativa de mau desempenho de suas funções. O processo político foi motivado por suspeitas de favorecimento ao banco e de direcionamento de recursos públicos à instituição. Com a decisão, o ex-presidente perdeu a possibilidade de assumir uma cadeira vitalícia no Senado e, consequentemente, a proteção decorrente dessa condição.
A ordem de detenção foi expedida pela equipe de promotores responsável pelo caso. Segundo informações divulgadas pela imprensa paraguaia, os enquadramentos penais preliminares incluem:
- Lesão de confiança;
- Tráfico de influência;
- Administração para proveito próprio.
As classificações ainda dependem do aprofundamento das investigações e da definição dos fatos atribuídos ao ex-presidente. A abertura de uma investigação não significa que houve condenação ou que a responsabilidade criminal esteja comprovada.
A relação de Peña com o grupo empresarial ligado ao Ueno Bank está entre os pontos analisados pelos investigadores.
Em 2023, o então presidente declarou possuir ações da Ueno Holding avaliadas em 6,144 bilhões de guaranis, valor equivalente a aproximadamente R$ 5,28 milhões. Ele informou posteriormente ter vendido sua participação em 2025.
Peña também declarou possuir um certificado de depósito de 2,4 bilhões de guaranis, cerca de R$ 2,06 milhões, no próprio Ueno Bank, além de um título da empresa Itti, que atua no desenvolvimento de soluções de tecnologia financeira.
Outro ponto levantado pelos investigadores envolve o irmão do ex-presidente, que aparece como sócio da U Holding SARL, empresa apontada como parte da estrutura empresarial utilizada pelo grupo controlador do banco.
Denúncias apontam possível conflito de interesses
A investigação ganhou novos desdobramentos após parlamentares ampliarem, na quinta-feira (5), uma denúncia apresentada originalmente em outubro de 2025. O documento acrescentou suspeitas relacionadas à atuação de autoridades públicas e à relação entre o governo, o Banco Central do Paraguai e o grupo Ueno.
Um dos pontos questionados é a atuação do Banco Central diante de problemas financeiros que, segundo os denunciantes, já eram conhecidos desde abril de 2026. A representação aponta que a instituição reguladora não teria adotado, no momento adequado, medidas para impedir o agravamento da situação.
O então presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também foi citado nas acusações. Ele deixou o cargo em meio à crise e é alvo de questionamentos sobre sua atuação na supervisão do banco.
Outro eixo da denúncia envolve depósitos de recursos públicos no Ueno Bank. Entre as instituições que mantinham dinheiro na instituição estão o Instituto de Previdência Social (IPS), a usina binacional de Itaipu, a entidade binacional Yacyretá e o Ministério da Economia.
Os parlamentares pedem que sejam examinadas individualmente as decisões que autorizaram a aplicação de recursos públicos no banco. A intenção é esclarecer se houve prejuízo ao Estado e se as operações foram realizadas em benefício de interesses particulares.
Na quinta-feira (5), o Ministério Público paraguaio anunciou a abertura de três procedimentos criminais relacionados ao caso Ueno. As apurações abrangem a fiscalização e a resolução da instituição financeira, a aplicação de recursos públicos e a atuação de autoridades e ex-autoridades do governo e de órgãos reguladores.
O caso provocou uma crise política e financeira no Paraguai, com protestos de clientes que ficaram sem acesso ao dinheiro depositado no banco. As investigações também alcançam antigos dirigentes da instituição, suspeitos de irregularidades na concessão de empréstimos e em operações envolvendo empresas ligadas ao grupo controlador.





















