Publicado em 16/11/2017 15h15
De gerente de banco a pecuarista, conheça delator de operação que prendeu ex-governador
Depoimento de Ivanildo da Cunha Miranda foi essencial para a 5ª fase da Operação Lama Asfáltica, a Papiros de Lama, deflagrada no dia 14 de novembro de 2017.
G1 MS
Durante o período de varredura dos documentos da Operação Lama Asfáltica – iniciou no dia 9 de julho de 2015, para investigar irregularidades em obras públicas -, o pecuarista Ivanildo da Cunha Miranda procurou a Polícia Federal para ter o benefício da delação premiada.
Antes de virar produtor rural, Ivanildo se aposentou como gerente de um banco particular. Como pecuarista bem-sucedido, também comprou uma empresa em Corumbá, município na região do Pantanal de Mato Grosso do Sul, uma distribuidora de bebidas.
Homologada pela Justiça, as declarações de Ivanildo ajudaram a desencadear a 5ª fase da Operação Lama Asfáltica, denominada Papiros de Lama, que resultou na prisão do ex-governador André Puccinelli (PMDB), do filho dele André Puccinelli Júnior e outras duas pessoas, supostamente envolvidas em um esquema de propinas que soma R$ 235 milhões. O peemedebista e o advogado já estão em liberdade provisória.
A defesa de André Puccinelli nega todas as acusações.
Ivanildo foi entrar para a política em 2006, a convite de Puccinelli, então candidato ao governo do estado pelo PMDB. O envolvimento do pecuarista foi cada vez mais profundo, tanto que chegou a fazer um empréstimo para bancar despesas de campanha do homem que seria eleito governador.
“Ele sempre estava dizendo que estava apertado por dinheiro, que as doações estavam poucas e até me solicitou nesses dias um empréstimo, no qual eu fiz um empréstimo de um milhão de reais pra ele”, disse o pecuarista na delação.
Por ser homem de confiança de André, Ivanildo foi escolhido para arrecadar dinheiro junto a quatro grandes frigoríficos, entre eles a JBS. O dinheiro repassado pela empresa era caixa dois, segundo o delator.
A assessoria da J&F Investimentos, holding que responde pela JBS, informou que a empresa não vai comentar.
” Joesley me apresentou um rapaz chamado Denilto, financeiro dele, ele ligou para um rapaz chamado Florisvaldo, que depois eu ia conhecer no mesmo dia. Ele me entregou uma caixa de papelão de arquivo, daquelas quadrada, quinhentos mil reais, eu fui de avião, peguei esse negócio e entreguei pro candidato na residência dele”, disse Ivanildo
Ivanildo tinha livre acesso ao governador e sempre marcava encontros no apartamento de Puccinelli ou na Governadoria.
“Entreguei poucas vezes na Governadoria, poucas vezes. Mas entreguei 90% no apartamento dele. Têm várias pessoas lá que me viu [sic] entrando lá, os porteiros. Eu já era conhecido lá, eu ia duas vezes por mês na casa do então governador André Puccinelli”, delatou.
A função de Ivanildo era recolher propina dos frigoríficos e entregar ao governador. Por esse serviço, cobrava uma comissão alta. “Sempre, claro doutor, sempre”, respondeu o pecuarista quando questionado sobre a compensação financeira pelo serviço que prestava.
“No início era entorno do sessenta, oitenta mil do PMDB, por mês. A partir de 2010, 2011 aumentou bem mais, aí foi para duzentos, duzentos e cinquenta”, disse o delator.
Ivanildo contou que se tornou amigo de Joesley Batista, um dos donos da JBS, e ajudou o empresário a resolver um problema com um dos sócios da Eldorado Celulose, com sede em Três Lagoas, na região leste do estado, e fundada em 2010 pelo grupo J&F Investimentos.
Os representantes da Eldorado Celulose não retornaram as ligações da reportagem.
O delator afirma que recebeu um cachê altíssimo para convencer um dos sócios a vender a parte dele para o grupo J&F.
“Pediram à época, quinhentos milhões pela saída dele. Ficou de me pagar comissão, quinze milhões, na época. Resumindo, tá aqui os instrumentos de compra das ações, tá aqui a nota promissória pra o responsável me pagar dez milhões, ficou acertado dez milhões, como de fato pagou”, contou Ivanildo
Outro político
Ivanildo também trabalhou para um adversário político de André Puccinelli. Em 2012, o então senador petista Delcídio do Amaral recorreu aos serviços do operador de campanha. O dinheiro foi entregue por um conselheiro fiscal da JBS.
A assessoria de imprensa de Delcídio do Amaral informou que o ex-senador nunca recebeu dinheiro de Ivanildo. Ainda afirmou que ele já respondeu a esse questionamento na investigação sobre a JBS e que
Delcídio considera a acusação um absurdo, principalmente, por que não tem adega em casa.
“O Florisvaldo me entregou um milhão de reais, eu entreguei pro Delcídio na casa dele, por sinal na casa dele você entrando tinha uma adega, ele pediu pra colocar dentro da adega, ele conferiu esse valor lá”, disse.
O delator também explicou aos policiais federais o motivo dos pedidos de propina por parte dos políticos.
“Esse candidato a governador, por exemplo, eles preparam todos os prefeitos, vereador, presidente de bairro, tudo eles preparam antes, pra quando chegar na campanha e já estar… prepara que eu digo, é dar dinheiro”, afirmou Ivanildo.



















